Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Nas asas do cavalinho-de-deus

Numa manhã de um dia de domingo, levantei antes de todos e me produzi feito fadinha.
Com minhas mãos de menina, espalhei surpresas na mesa: torradinhas com manteiga, leite bom e frutas frescas e sem fazer barulho, é claro, (era uma surpresa) adociquei o café com flor de açúcar.
Preparei o coração e fui acordar papai e mamãe com o mais suave, doce e sonoro beijo.
Pra alegrar o dia deles, afastei as cortinas, o sol entrou pela janela, retribui a generosidade com uma demorada piscadela.
Então, deitei sobre o lençol colorido - bem no meio do amor.
Mamãe demorou a acordar, voava, como flor levada ao vento, e pra não deixar papai dormir, fiz cócegas, dei beijocas, falei abobrinhas... papai riu muito dos meus risos.
Ele foi o primeiro a sair da cama e vi que algo bom aconteceu naquele momento. Mas é segredo, não espalha: ele guarda o silêncio de peixe na gaveta do criado mudo.
Eu me apressei pra chegar antes dos dois na cozinha e pra ver melhor sua reação, sentei bem pertinho dele e fiquei olhando em seu rosto calmo enquanto ele comia, e parecia que nada acontecia.
Mamãe murmurava uma velha canção pra me consolar.
Mas a quietude de papai era pra me torturar, ao sair da mesa ele deu um longo assobio de elogio e depositou cem estrelas no meu olhar.
Ufa!
Depois fomos todos pescar. Quando eu joguei um galhinho na água, pra espantar os peixinhos, papai me olhou de cara feia.
Eu tenho pena dos coitadinhos, cada glub glub na água me parece um grito de socorro.
Por esse motivo e pra deixar os dois um pouco sozinhos, por um pouquinho de tempo me afastei dali.
Montei num cavalinho-de-deus e parti num voo invisível, subi alto... muito alto, descobrir coisas no céu.
A certa altura do passeio, meu amiguinho sentiu cansaço, então nos sentamos em uma nuvem fofinha e ali ficamos, ele em posição de quem está orando, que é assim que ele descansa, e eu lá fiquei piscando, desenhando, batendo o lápis na nuvenzinha branquinha e estudando o sorriso das duas pessoas que eu mais amava.
E pensando... pensando... que não custa nada num gesto de esperança e fé enfeitar o amor.
A vida assim fica ainda mais bonita, ainda mais intensa.
Mamãe naquele dia não pegou nem um peixinho, mas sorriu o tempo todo com aqueles olhos de pedir “pra todos os anjos ajudar no amor”.
Matilde Diesel Borille
Enviado por Matilde Diesel Borille em 15/06/2017
Reeditado em 16/06/2017
Código do texto: T6028004
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Matilde Diesel Borille
União da Vitória - Paraná - Brasil, 58 anos
57 textos (2098 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 09:37)
Matilde Diesel Borille

Site do Escritor