AS MALAS DOS MALAS!

-Querem um brinde? Qual a sua bandeira?

A princípio, eu os conheci num shopping da minha cidade e não demorou muito para entender que eles estariam por todos os lados desse país continental!

Antes de contar o causo, também digo que nunca mais os esqueci...

A estratégia funciona assim,ó,com uma perguntinha animadora mas capciosa:

“oiê, bom dia, você já ganhou seu brinde hoje?”.

Obviamente que num mundo como esse em que “presentes” de verdade sempre levantam uma mescla de alegria e "suspeita de grego" (afinal só vi isso no Brasil!), conto que na primeira e única vez que parei para ser presenteada percebi logo de cara o interesse comercial daquela dinâmica.

Vou lhes contar.

Depois que você se interessa pela alegria do brinde, lhe vem a segunda parte da pergunta suspeita:

“ah, certo, então vamos lá, você tem cartão de crédito; e qual é a sua bandeira?”

Ok perfeito, você fica feliz, porque, afinal, você é um ser importante! Você é uma relíquia que tem crédito no mercado falido!

E eu devolvo a pergunta ao mundo: “ e quem nesta vida próspera ou não, haveria de ser um herói e não ter unzinho cartão de crédito de todas as bandeiras do mundo?

Ok. Daí a sua armadilha bondosa recomeça com aquela conversinha lustrosa: “ah, olha aqui, temos várias revistas que você já pode levar de brinde e....blá blá blá... desde que possamos ver o seu cartão de crédito e fazer o seu cadastro”.

Já aviso: Perigo a vista! Com uma vantagem: para ser financiado em várias vezes a perder de vista!

Então, você receberá uma ficha para cadastrar todos os seus dados e, como você é um pato do mercado, também será avisado de que ganhará uma belíssima mala de bordo, ali mesmo, “cara-a-cara”, na prateleira da venda, já para sair usando, confeccionada no mais fino "design" italiano de última vanguarda, feito em todas as "cores fashions" mas ...”made in china”, a tendência universal da moda globalizada e inexorável, algo que com certeza já será pago por você, não ali obviamente, só depois que sua fatura do presente for lançada no seu cartão de crédito.

Crédito aos desavisados.

Assinou o cadastro? Nessa hora você já se danou!

Sinto dizer, juro, sinto mesmo: Não tem mais saída para você , mesmo que você esteja no aeroporto.

Você sairá dali, esteja você onde estiver, com um montão de revistas do século passado, com notícias dos vips desinteressantes, e uma mala a bordo de você, como se fosse uma sem alça mesmo, para você arrastá-la pelo seu caminho minado dos reais perdidos...

Agora é você o mala!Pode acreditar!

E um mala lesado, que acabou de contratar uma assinatura de revista “x” por “y” tempo, cujo preço total compraria dez malas daquela que você acredita que ganhou, mas comprou.

Você poderia ao menos ter comprado uma mala de melhor qualidade, seu mala!

Me fiz entender?

O último aviso aos leitores: onde estão os malas das malas?

Ah, fácil! Atentem!

Estão por todos os lados de todos os lugares desse imprevisível Brasil das falcatruas: Shoppings, aeroportos, instituições, escolas, simpósios, feiras... e dias desses eu os encontrei até no meu CONGRESSO PROFISSIONAL!

Os malas estavam logo ali! "Quem permitiu?"-me perguntei.

Já na entrada ouvi a pergunta: ”oiê, já ganhou seu brinde, hoje?”.

"É comigo, mesmo? Obrigadíssima!"

No evento, nunca mais entrei por aquele lado daquela entrada fatídica e me cansei de fugir deles durante o tempo todo.

Até decorei a sua localização para não ganhar brinde algum!

Um sufoco estressante!

Mas não adianta se esconder, eles sempre lhe acham em qualquer cantinho!

Mesmo tentando, ouvi dez vezes a mesma pergunta pelo meu caminho.

Parecem que se multiplicam como vírus!

“Obrigada!”

“Como assim, mas você não quer um brinde, mesmo?”

Resolvi fundamentar-de vez!- minhas insistentes negativas.

“é que já tenho revistas , tenho muitas malas com e sem alças e, ademais, não tenho cartão de crédito de bandeira alguma e tampouco quero comprar algo...”.

Nessa hora eles raivosamente desistem de você , mas imediatamente partem para uma outra vítima de boa fé mais ambiciosa.

No final do evento, numa última tentativa de fugir das e dos malas, resolvi sair pelas portas do fundo...tipo, à francesa.

E qual não foi minha surpresa quando eu os encontrei também na saída, do outro lado do pavilhão? Eu me senti como se lacrada na mala.

“Oiê, já ganhou um presente hoje?”

"já, obrigada!"

"Não quer mais um brinde?"

Quero sim. Um último brinde do dia!

Que me digam, qual a via de saída para se fugir definitivamente das malas dos malas sem alça... do mundo?

Difícil essa, hein?

Meu consolo: nunca caí nessa cilada sem alça. Fica a dica, então.

Minha bandeira?

Quanto menos malas nessa vida ... melhor!

Mesmo que sejam malas de grife.