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FORÇAS OCULTAS...



Bom, dizem   /nasci bem depois/   que um antecessor professor de português citou negativas “forças ocultas”.  EU as citei positivas ao ser eleito professor improvisado, sem faixa... professoral.  O que fiz ante o convite?  Aceitei.  EU quis, pesquisei temas, entusiasmado:  fi-lo porque qui-lo.........  Ah, sem questionar correção gramatical, o uso da próclise, de que o ‘porque’ atrairia o pronome o - ‘porque o quis’ etc. etc. etc.!  Frase no mínimo bela e paulistanamente histórica!!!

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Como criar no aluno o hábito de LEITURA?  Aprende-se antes de tudo a falar, eterno instrumento de comunicação, e o lugar do aprendizado da escrita é a escola.  Disse o grande MONTEIRO LOBATO que “a nação se constrói com homens e livros”.  Acrescentemos bons jornais e boas revistas - para qualquer atividade intelectual é necessário ler e decodificar os textos.  Bom é ler, fazer exercício de debate oral e em seguida resumir, seja artigo ou capítulo, quiçá um livro inteiro, individualmente ou em grupos de estudo, meio seguro de mostrar entendimento.  Resumir é saber comunicar objetiva e corretamente a outro (professor ou não) o que foi “traduzido”, isto é, entendido - do texto maior, T1, surge o menor, T2, equivalentes (jamais acrescentar elementos inexistentes no T1);  resumir não é tão somente suprimir frases do texto-fonte nem  substituí-las e sim selecionar as unidades de significação nucleares dentre as acessórias.  Perceber as redundâncias (que podem ser suprimidas) e distinguir elementos reais de comunicação.

E a correção linguística?  MACHADO DE ASSIS observava que “...as línguas se alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes (...) não aceitáveis todas as alterações da linguagem (...) aqueles que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma”.  E o modernista MÁRIO DE ANDRADE opinava:  “Não se dirige uma língua viva”.  Multas para placas, anúncios e avisos (ou reportagens) com graves erros?!  O professor estuda o interior da língua para ensiná-la, nunca omisso.  O ENSINO DE LÍNGUAS  é classificado em 3 tipos necessários :  a) PRESCRITIVO (corrigir erros, substituindo certos hábitos linguísticos por outros);  b) DESCRITIVO (descrever o funcionamento da língua e compreensão da linguagem, sem questionar errado ou certo;  c) PRODUTIVO (acrescentar novos hábitos de fala e escrita, enriquecer vocabulário e sintaxe).  Falar em GRAMÁTICA não é ultrapassado, visão deformada do problema, e o objetivo da escola é desenvolver no aluno a eficiência linguística - ortografia, flexão verbal, regência etc., o que só é aprendido sob sistematização:  segundo MATTOSO CÂMARA, “ensino gramatical metódico”, domínio inexistente antes da escola.  //  O CORRETO e o INCORRETO se associam ao prestígio ou  desprestígio das variedades linguísticas, divididas em 3 tipos:  a) VARIANTES DIACRÔNICAS (fases da história - exemplos:  português arcaico, quinhentista, atual);  b) DIALETOS (variação em função do falante da língua - pode ser geográfico, etário, de sexo etc.);  c) REGISTROS (em função do uso - formalismo da situação, modalidade escrita ou oral e influência do receptor sobre a linguagem do emissor, determinando inclusive a escolha do pronome de tratamento e adaptação da linguagem ao nível do leitor ou ouvinte).  //  Nas situações formais de uso da língua, os membros da mesma comunidade linguística tendem a utilizar uma mesma variante chamada PADRÃO, cujo domínio a escola busca desenvolver (sem proibir o uso das variedades não-padrão).  /  A questão do correto / incorreto na linguagem, com base no conceito de variação linguística, deve-se entender como eficiência ou não da mensagem.  A COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA, segundo CHOMSKY, é comunicativa:  regra de artigo proceder o substantivo - “o menino” (não “menino o”) e o candidato a emprego não ter na entrevista a linguagem que usaria na conversação descontraída entre amigos.  //  Importantes as duas características do ENUNCIADO:  o que o aluno não deve produzir e o bom desempenho da função.  //  Em síntese:  Incorreto é o que compromete a eficiência da mensagem. / O sistema ortográfico é igual em todos os registros, ensino prescritivo.  / Um erro grave, como de pontuação, pode gerar outro sentido e comprometer a eficiência da linguagem.  / O emprego da coexistência de certos registros na mesma mensagem pode ter motivação estilística (estilo individual), não exatamente um erro. / Não confundir linguagem incorreta com variantes desprovidas de prestígio.

E as controvertidas questões de ORTOGRAFIA?  Mini-saia ou minissaia?  Consulte o AURÉLIO.........  Há eternos pontos de hesitação:  “agradar o cliente ou ao cliente?” - “incesto (ê) ou incesto (é)?” - “soprano grávida ou grávido?”  Para o leigo a função do gramático é decidir sobre os casos duvidosos contra a hesitação do falante, pelo menos o que mostra um grau mais alto sobre as questões de linguagem, por exemplo, oradores, advogados, escritores, jornalistas e repórteres de TV exigem DISCIPLINA GRAMATICAL, linguagem correta.  A hesitação proveniente da discordância de uso gera ansiedade:  registro coloquial ou padrão ensinado na escola?  “Hoje é doze” ou “Hoje são doze”?  Empregar neutralidade estilística:  “Hoje é dia doze”.  TRANQUILIDADE LINGUÍSTICA é, pois, a oferta dos gramáticos e dicionaristas - compete ao professor distinguir, nos livros, o que deve ser levado em conta.  A gramática normativa é dogmática e a flutuação é arbitrária.  Ensino prescritivo da gramática, faca de 2 gumes:  ou bem feito na “produção” linguística sem hesitações ou aluno acha que nunca irá exprimir-se corretamente.  Numa situação próxima do ideal, em matéria de língua-padrão, o registro formal tende a eliminar as vacilações, as flutuações...  Os falantes do português hesitam com freqüência nos verbos em -ear e -iar (aqui, divergência do português do Brasil e de Portugal):  este último apresenta formas em -eio:  verbo hastear”, por exemplo, “hastia ou hasteia”?  Verbo “negociar” no mesmo grupo de “copiar”?  Até a norma gramatical oscila.

Tipos de HESITAÇÃO:

1--Quanto à CAMADA ATINGIDA DO IDIOLETO, a hesitação pode atingir a linguagem TRANSMITIDA (1) ou a ADQUIRIDA (2):

(1) “Ruim”, palavra anterior ao ingresso na escola, é monossílabo ou dissílabo?  A repressão linguística tem caráter inibidor;  hesitação entre a variante de origem e o padrão ensinado na escola, mais prestigioso.

(2) “Incesto” (ê) ou “incesto” (é)?  Ítem lexical que o falante só incorpora ao seu idioleto através dos convívios mais formais da língua.

Comparação - camada transmitida /camada adquirida:  A atitude pedagogicamente mais válida é mostrar que existem as duas formas, “ruim e rúim”, por exemplo, sendo que uma mais coloquial que a outra.  Há casos concretos difíceis de decidir, se oferecer ao aluno duas opções, como em “ruim”, ou uma, como em “incesto” (solução é a forma prescrita pela gramática).  Mesmo na linguagem coloquial, vacilação entre “bolsos (ô) e bolsos (ó)”.

2--Quanto ao CARÁTER INTRA OU EXTRALINGUÍSTICO DO PROBLEMA, a hesitação diz respeito à escolha da variante a ser usada (aspecto extralingüístico) ou, dentro de uma mesma variante, á regra a ser aplicada ou o tratamento a ser empregado (aspecto lingüístico).

Hesitações:  (1) Relativa a aspectos extralingüísticos, escrever uma carta e hesitar sobre o estilo, se mais ou se menos formal (variantes dentro de um mesmo idioma).  (2) No caso da pronúncia “incesto” (ê) ou “incesto” (é), é um traço fonológico (de som), aspecto estritamente linguístico.

3--Quanto ao SUBSISTEMA DA LÍNGUA ATINGIDO, a hesitação pode ser ortográfica (imutável, não admite  graus de formalismo, seja num bilhete ou relatório técnico), a pronúncia  ou a morfossintaxe (detalhes de flexão e regência).

 

 

FONTE:

“Da palavra à palavra”, artigo de Célia Therezinha Oliveira --- ” O correto e o incorreto na linguagem”, I e II, artigo de Helênio Fonseca de Oliveira - Revista DIÁLOGO - Rio, Fundação Cesgranrio, exemplares de março-abril-maio/1976.

                                            F  I  M
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 07/03/2017
Código do texto: T5933770
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 50 anos
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