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Sobre lançar um livro de forma independente

Entrevista para a jornalista Enize Vidigal, do Jornal O Liberal, de Belém do Pará, quando do lançamento do livro Enfim, separados! no mês de agosto de 2017.


1) Como se dá o seu processo de criação? Você é inspirado por fatos do cotidiano reproduzidos na mídia, relatos de terceiros, acontecimentos pessoais?

O meu processo criativo é o mais variado possível. E eu sou adepto do processo de transpiração. Ou seja, crio mecanismos para alavancar as ideias. Muitas vezes, ao acordar, preparo a minha mesa de trabalho. Coloco um papel em branco lá e vou fazer as tarefas do dia e sempre que pinta algo, vou rabiscando no papel. Tem dias que preencho uns três papéis e a coisa não para. Então, desde uma notícia de jornal pode servir de base para um texto, como algo lido na timeline do facebook. E procuro ouvir muito as pessoas. Quando alguém conta alguma história interessante, falo que vou “roubar” aquilo e transformar em alguma coisa. Meus amigos riem e, no fundo, torcem para que aconteça isso. E, claro, acontecimentos pessoais servem como ponto de partida para as criações. Tem coisas que escrevo que são 70% baseadas em fatos reais e pessoais.


2) Como surgiu a vontade de ser escritor, de lançar livros?

Eu comecei a escrever poemas aos 11 anos. E sempre fui acostumado a ler muito. Devorava todos os livros que pintavam pela frente. No fundo do corredor da minha casa tinha uma estante de livros. E eu tinha uns dardos. Às vezes, sorteava que livro ia ler, lançando o dardo. E passei a me imaginar sendo autor de um desses livros da minha estante quando entrei na faculdade de ciências sociais, em 1993. Cheguei a fazer o primeiro livro na máquina de escrever e ainda acrescentava coisas feitas à mão, criando algo diferente e com estilo. Cheguei a apresentar para uma amiga da minha mãe que editava livros e que deu uns toques bem legais. Neste mesmo ano de 1993, minha mãe comprou um computador. Por conta dele, vendo a coisa quase pronta ali, bem na minha frente, veio uma primeira possibilidade de fazer um livro por conta própria. E o fiz, utilizando o paint brush. Assim nasceu o Indecências um livro de poemas. E seguindo a linha dos poetas marginais da década de 70, que faziam uso do mimeógrafo para lançar os seus livros, eu fazia os meus livros, utilizando uma impressora, um estilete para cortar no formato que eu queria e levava para encadernar. Na época, vendi uns 60 exemplares. Hoje tenho apenas um exemplar deste livro como relíquia. Recentemente a microsoft anunciou o fim do paint brush, então, este livro virou uma peça de museu que vou guardar com muito carinho.

3) É muito difícil publicar livros hoje no Brasil? As editoras não abrem as portas para novos autores?

Logo que fui morar no Rio de Janeiro, há vinte anos, eu cheguei a escrever mais dois livros. E não sabia como chegar a uma editora, como apresentar isso. Então, fui escrever para teatro, porque eu conseguia levar para o palco mais facilmente as coisas que eu escrevia. Tinha um resultado imediato. Há pouco tempo, coisa de dois anos e meio atrás, quando comecei a escrever em um site literário, vieram alguns convites de editoras para eu participar de coletâneas ao lado de novos autores. Eu pensei, pensei, mas vi que, talvez, não fosse esse caminho que eu gostaria de traçar. Porque em muitas coletâneas - geralmente as edições que vi eu não curti - você reúne estilos muito variados e a obra acaba não tendo um conceito, apenas satisfaz a vontade de escritores de se verem dentro de um livro. Por isso, continuei estudando outras formas, pesquisando pequenas editoras que pudessem fazer alguma tiragem de um livro meu com preço acessível e tal. Mas sempre no meio do caminho eu desanimava por achar bem difícil chegar a uma editora ou as propostas que me ofereciam não eram interessantes, o custo era alto. Com a plataforma da Amazon finalmente eu vi um caminho viável, que me interessava e assim eu percebi que poderia concretizar novamente a ideia de um livro e atingir um público bem maior.

4) A publicação em meio digital veio impulsionar o mercado literário?

Totalmente. Essa questão do autor se autopublicar é uma tendência do mercado atual. Eu fiquei um tempo estudando e vendo como o leitor brasileiro estava buscando os seu livros. Como era o consumo, por exemplo, de e-books. E vi que é algo que vem crescendo muito nos últimos anos. E isso é tão forte que a Amazon estendeu a sua plataforma para o Brasil. Ou seja, lá você pode encontrar diversos livros digitais. E funciona também como uma netflix do livro, porque você, pagando uma taxa fixa, tem direito a ler quantos livros digitais você quiser, de forma ilimitada. Você faz o download do livro e lê no dispositivo que achar melhor. Isso é incrível! Ou seja, hoje, se você tiver um livro, você tem essa possibilidade de lançar pela Amazon. Rapidamente, o teu livro digital vai estar lá para quem se interessar. E se você souber fazer um marketing em cima disso, através da Internet, você pode alavancar a venda desses livros e criar um público que começa a se interessar pelo que você escreve. Infelizmente, na plataforma brasileira da Amazon, você, no momento, tem só essa possibilidade de lançar o livro digital. O físico é através da Amazon de outros países, como França, Espanha, Itália, Japão, EUA e outros. O meu livro, por exemplo, veio dos EUA. E eu cuidei de todo o processo, desde a capa/contracapa, passando pela diagramação e escolha das imagens que o ilustram. Tudo foi concebido por mim. Só enviei o arquivo para a Amazon e o processo final é deles. E o bom que o livro sai sob demanda. Você não precisa fazer uma tiragem de mil livros, por exemplo, e o livro ficar na estante porque não vendeu. Outra vantagem é que você pode modificar também o conteúdo do livro na hora que você quiser. Em suma, é algo muito interessante e uma tendência que está dominando o mercado literário atual.

5) Lançar o livro na sua cidade Natal traz que sensação?

É uma sensação que eu não tenho nem palavras para descrever. Porque, quando eu pensei no livro, eu acreditava que ele existiria ali, no lance digital, nessa coisa quase fria do público comprar o teu livro, através da Internet, baixando no computador dele e só. Como o meu livro é em português, eu pensei: “Como eu vou conseguir vender lá fora? Quem vai se interessar por isso?”. Daí, uma certa noite, eu fazendo umas lives (o famoso “ao vivo”) no facebook para divulgar o livro e outros trabalhos meus, conversei com uma amiga paraense que mora nos EUA, e ela, naquele momento da live, entrou na Amazon e comprou o livro físico. Eu mesmo não tinha ideia de como havia ficado o livro, assim, fisicamente falando. Eu só tinha visto, através do computador, a simulação de como seria o livro. E essa minha amiga que comprou o livro nos EUA fez um vídeo do marido dela folheando o livro quando chegou lá e mandou pra mim, dizendo: “Olha, não é photoshop não, eu comprei”. Aquilo já foi uma emoção muito particular. Então, como eu já vinha a Belém para fazer um show de humor, pensei: “Caramba, eu posso levar o meu livro pra lá e fazer um lançamento”. Daí eu fiz também um teaser do livro com a o vídeo da minha amiga e postei no facebook, isso acabou gerando um interesse enorme das pessoas. E vi mesmo que tinha que fazer esse lançamento aqui. E, a cada dia que posto algo do livro mais interesse as pessoas tem. Então, estou bem ansioso para chegar o dia em que as pessoas terão esse livro em mãos aqui em Belém, porque serão amigos, parentes, os fãs que tenho aqui. Pessoas muito especiais. E eu, no local onde uma parte dos textos que estão no livro foram criados. Isso não tem preço.

6) Qual tem sido a resposta do público paraense ao seu trabalho?

Como eu cheguei com uma certa antecedência aqui, pude fazer diversas divulgações nas redes sociais e marquei as pessoas de Belém. A cada dia me surpreendo mais com o carinho e com os compartilhamentos que todos tem feito, seja do livro, seja do show de humor, em suas páginas pessoais do facebook. Uma divulgação espontânea e maciça. Tanto que já estou estudando a possibilidade de voltar a Belém logo, logo. Porque tem sido, antes de mais nada, dias de sonho. Encontro as pessoas e vejo o quanto elas me acompanham e eu não imaginava. Muitos me viram na novela A Força do Querer, onde fiz participação. Outros me acompanham pelo meu canal no youtube. Pela minha página do face. Todos conectados comigo de alguma forma. Tem gente que me falou que quer o livro novo e me lembrou que tem o meu primeiro livro, o Cicatrizes. Isso dá uma alegria enorme e vejo o quanto somos calorosos uns com os outros. Isso é muito bom, afinal, a questão de ser nortista, amazônida, é minha digital no mundo. Eu levo isso pra onde eu vou. O público daqui tornando os meus eventos um sucesso é uma forma de incentivo e estímulo para que eu continue, principalmente, a levar o nome da minha região mundo a fora e incluir sempre Belém no meu roteiro. Como diria Tolstoi: “Se queres ser universal, começa a pintar a tua aldeia”. É isso! Um beijo aos paraenses e espero todos no lançamento.
Raul Franco
Enviado por Raul Franco em 20/09/2017
Código do texto: T6120112
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Sobre o autor
Raul Franco
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 43 anos
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Raul Franco