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A garota e a depressão

     Todos nós desfrutamos de segredos e características únicas em nossos pensamentos e em nosso interior. Essa entrevista foi iniciada no dia 28 de abril e encerrada ao dia 30, nela nossa entrevistada no qual responde pelas iniciais de K.M. retrata alguns dos seus pensamentos e expõe parte do atual problema categórico presente em todos os aspectos, a depressão na adolescência.
Cabe lembrar que tudo que foi dito aqui foi por livre e espontânea pressão, digo, livre e espontânea verdade e que ela autorizou a publicação da entrevista desde que seu nome fosse preservado.
   D. A. : Nome e idade?
   K. M. : K. M. e tenho 14 anos.
   D. A. : Um sonho.
   K. M. : Viajar, conhecer países novos.
   D. A. : Por quê?
   K. M. : Eu tenho vontade de conhecer o mundo, de conhecer novas pessoas, novas culturas. Não me limitar a um só lugar entende?
   D. A. : Entendo. Um medo?
   K. M. ; Não tenho medo de nada, nem de morrer, de acidente, nem mesmo de ficar órfã. Não tenho medo de nada!
   D. A. : Você afirma não ter medo, mas não acha que a ausência de ter medo é o próprio medo de assumi-lo?
   K. M. : Não! Quem sabe? Talvez seja e eu não saiba não é?
   D. A. : O que você mudaria em sua vida?
   K. M. : Não mudaria nada.
   D. A. : O que o destino significa para você?
   K. M. : Sério? (Risos). Não sei responder essa pergunta.
   D. A. : Conte-me um segredo.
   K. M. : Eu não tenho, sério, não tenho nenhum segredo.
   D. A. : Todos nós temos um segredo. Segredos são apenas poeira que guardamos em nossos interiores. Conte-me um segredo.
   K. M. : As vezes eu tenho o desejo de cavar um buraco e me enfiar nele e esquecer todas as pessoas que conheci e tudo que vivi.
   D. A. : Por quê?
   K. M. : Porque eu queria recomeçar do zero. Sem conhecer ninguém e nem me lembrar de nada.
   D. A. : Qual foi o maior erro da sua vida?
   K. M. : Acho que foi não ter cabeça, e ter deixado me levar por influências e ter fumado, nem foi muito por ter fumado, mas por me deixar ser influenciada.
   D. A. : Fumar é um ato de vaidade. O que você fumou?
   K. M. : Maconha.
   D. A. : Qual foi a sua maior “viagem”?
   K. M. : Não viajo,  na verdade nem viajo.
   D. A. : Você acha que mentir é da condição humana?
   K. M. : Sim, quem não mente? Não mentiras grandes, mas pequenas mentiras todos nós contamos.
   D. A. : Qual sua opinião sobre a política atual?
   K. M. : Falar sobre política é uma questão difícil, porém temos que falar (risos). A política atual está péssima, não só no Brasil, vejo em jornais, nas redes sociais.. que outros países também  estão em crise. Eu não entendo nada de política, e não sei falar sobre, mas sei a situação não está boa, não precisa ser muito inteligente pra perceber que nós cidadãos estamos sendo passados pra trás, sei que querem tirar nossos direitos, reformar nosso ensino médio, tirar matérias que nos fazem pensar, matérias que nos fazem criar opiniões.
   D. A. : Sexo?
   K. M. : Falar sobre sexo, sexo é uma coisa tão boa, tão natural.. Muitas pessoas estranham quando uma adolescente de 14 anos fala sobre sexo, as pessoas logo já dizem "Ah essa daí é puta" "deve ter transado com vários pra estar sabendo tanto". Mas não, porque as pessoas julgam tanto o sexo? Criam esse tabu? Poxa se não existisse sexo ninguém existiria.. Sexo é uma coisa maravilhosa, seja lá feito com amor ou não. Uma vez fui falar sobre sexo com uma tia.. ela estranhou, disse que quando ela tinha minha idade se ela mencionasse a palavra "transar" na casa dela, ela apanharia, e muito. Eu fiquei chocada!
   D. A. : Celebridade?
   K. M. : Melanie Martinez.
   D. A. : Por quê?
   K. M. : As músicas dela, sempre tem algo a nos ensinar.
   D. A. : Você não a acha depressiva? Que as músicas dela incentivam essa depressão universal entre os jovens?
   K. M. : Não, não especificamente incentivar, mas sim nos falar sobre depressão, pelo menos é o que eu acho.
   D. A. : E você acha que ajuda?
   K. M. : Acho sim.
   D. A. : Vi uma publicação sua no WhatsApp sobre a atriz pornô Mia Khalifa, você assiste o trabalho dela?
   K. M. : As vezes (risos).
   D. A. : Gosta?
   K. M. : Mais ou menos.
   D. A. : E sobre o preconceito decorrente acerca do fato de mulheres assistirem filmes pornô?
   K. M. : Acho normal. Muita gente acha que pornô é uma coisa destinada somente para homens!
   D. A. : Padrões de beleza?
   K. M. : Padrões? Acho um saco!
   D. A. : Suicídio?
   K. M. : Já pensei e já tentei.
   D. A. : Qual motivo?
   K. M. : Infelicidade.
   D. A. : O que é Infelicidade?
   K. M. : Não sei.
   D. A. : O que é a felicidade?
   K. M. :Não sei.
   D. A. : Você é feliz?
   K. M. : Sim.
   D. A. : Então você deveria saber o que é a felicidade. O que te faz feliz?
   K. M. : Várias coisas.
   D. A. : O que você observa primeiro em uma pessoa?
   K. M. : Os olhos.
   D. A. : Traição?
   K. M. : Acho idiotice, atitude de criança. Se não tá feliz termina, e também  não tem essa de "ah eu estava bêbado" porque isso é desculpa, já fiquei bêbada milhares de vezes e nunca traí meu namorado, traição não tem justificativa.
   D. A. : Seu namorado?
   K. M. : Uma das pessoas mais especiais pra mim, já me ajudou a superar vários obstáculos. Sempre teve ao meu lado, demonstra que realmente se importa comigo, amo muito.
   D. A. : Amigos?
   K. M. : Pessoas mais importantes dá minha vida, apesar de serem poucos o que sinto por eles não tem preço.
   D. A. : Melhor amigo (a)?
   K. M. : Érica.
   D. A. : Quais os ensinamentos que você dará aos seus  filhos?
   K. M. : Respeito pelas pessoas, acima de tudo respeito.
   D. A. : O que é respeito para você?
   K. M. : Respeito é ter consciência de que ninguém é igual você , é respeitar as diferenças, as opiniões, respeitar as pessoas seja lá quem elas forem.
   D. A. : Faria alguma loucura por amor?
   K. M. : Lógico!
   D. A. : Qual?
   K. M. : Qualquer uma que estivesse ao meu alcance, não me importo do que seria desde que no final valesse a pena.
   D. A. : E por sexo?
   K. M. : Não sei, sexo é bom mas não é tão importante assim.
   D. A. : Homens?
   K. M. : Ah homens são complicados, nunca tive nenhuma experiência ruim até hoje.. então não tenho o que reclamar deles (risos).
   D. A. : Mulheres?
   K. M. : Mulher é problemática (risos). Falo isso porque sou uma, criamos coisas que não existem, temos um poder de persuasão, mentimos que é uma beleza (risos).
   D. A. : Qual sua visão sobre a religião?
   K. M. : Não sou uma pessoa religiosa de ir em igrejas, adorar estatuetas,  mas acredito em Deus. Na minha opinião religião é para unir pessoas, melhorar o mundo, nos ensinar valores, mas não é bem assim, grande parte das guerras e conflitos que tivemos e temos são por causa de religião.
   D. A. : A religião ajuda pessoas que pensam em suicídio?
   K. M. : Acho que mais ou menos. Muitas pessoas reencontram um caminho a seguir, através dá religião, muitas têm fé de as coisas vão melhorar, e melhoram. Mas as vezes pode piorar um pouco.. porque as vezes sofremos e recorremos a Deus, mas o sofrimento não passa e culpamos Deus pela infelicidade. Eu a um tempo atrás era ateu, porque eu tinha problemas em minha vida recorria a Deus e nada melhorava, até piorava. Então deixei de acreditar, e acabei pensando mais em suicídio. Então depende muito da pessoa se a religião irá ajudar ou piorar.
   D. A. : Deus?
   K. M. : Deus, questão complicada. Ás vezes acredito, as vezes não
Já amei, e já odiei. Hoje é um meio termo.
   D. A. : Seus pais?
   K. M. : Meus pais também são um meio termo, não sei se amo, se odeio. Ás vezes são a minha base, contudo às vezes também  é a base do meu fracasso. Ás vezes são tudo pra mim, ás vezes não são nada. Já quis que eles fossem eternos, já quis que eles desaparecessem.
   D. A. : Remédios para depressão?
   K. M. : Nunca tomei, já quis tomar para aliviar. Ás vezes acho que pode ajudar uma pessoa, mas ás vezes penso que pode atrapalhar e piorar tudo. Eles podem se tornar um vício, vai ser feliz através de remédios? A vida toda? Nunca vai parar de toma-los? Não acho que seja uma ideia tão boa assim.
   D. A. : Você se corta?
   K. M. : Não mais.
   D. A. : Qual foi a última vez?
   K. M. : Junho do ano passado.
   D. A. : Motivo?
   K. M. : Não me lembro.
   D. A. : Qual é a sensação?
   K. M. : A na hora é bom, mas tipo quando a raiva, tristeza ou o sentimento que te fez fazer aquilo passa, você  se sente pior. Se sente mais inútil ainda, um verdadeiro bosta.
   D. A. : Defina a vida.
   K. M. : A vida. Difícil, ela não vem com bula, você aprende sozinho. Aprende a viver, e isso não é fácil. A vida ela é um presente, e nem sempre gostamos dos presentes que ganhamos. A vida pode ser bonita, isso depende de você. Ela pode ser uma merda, mas isso também  depende de você e suas atitudes. Eu já desejei que minha vida acabasse, já desejei que fosse eterna. Temos tão pouco tempo, ela pode acabar em  um segundo. Então não façamos de nossa vida uma coisa tão simples. A vida não é simples, ela é complicada, viver é um desafio que somos obrigados a cumprir, gostando ou não.
   D. A. : De K. M. Para K. M.
   K. M. : Pare de se preocupar com quem nem lembra dá sua existência, sei é difícil pra você, mas esse é um dos maiores motivos que lhe deixa mal. Sei que não consegue sentir raiva de ninguém, mas se continuar perdoando todos assim as pessoas vão acabar se aproveitando disso. K. Tenta entender que pessoas são passageiras não se culpe sempre que alguém de afastar de você, não se culpe pelos erros de seus pais. Não tente se matar sempre que sua mãe disser que preferia ter abortado você. Sei que é difícil segurar, mas parabéns! Parabéns pelos dez meses que não se auto mutila, parabéns por ter superado essa fase. Tenho orgulho de você! Parabéns por ter sido uma aluna mais aplicada, parabéns pelo aqueles 10 que  andou tirando, sei que ninguém liga pra isso, mas sei que você  liga, e parabéns! Tenta seguir suas metas, aquelas que escreveu no dia 31/12/16 são metas que você  quer para esse 2017, desde pintar o cabelo até fazer aquele cursinho de inglês. Tenta pelo amor de Deus ser mais paciente com seus pais, sei que eles te julgam muito, mas você também não fica atrás poxa, só sabe reclamar. Lembra que queria ser mais dedicada? Cadê? Pois é né. E a sua árvore? Deixou ela morrer né? K. M., e as suas amizades? Toma cuidado, algumas não são boas. E por favor menina tente beber menos, você tem 14 anos e bebe mais que teu pai (sei que você, considera isso um elogio).Tenta mentir menos pro seu namorado, você mente que nem sente, e tenta ser menos trouxa amiga! As pessoas brigam com você e você continua atrás delas, sinceramente viu. E tenta ser mais compreensiva com seus familiares. Quando sentir raiva sai louca gritando mesmo, e daí? A dor é sua e ninguém pode julga-la. E por favor K., para com essa idiotice de que pessoas fortes não choram! Chora mesmo pô, depois vai lá e bebe uma aguinha pra hidratar. Não segura o choro não, faz mal pra alma e você  já está percebendo isso. Dê mais valor as amizades antigas, elas sempre estiveram ali e você está deixando elas de lado. E supera as perdas logo, seu travesseiro vai mofar de tanto chorar nele e eu sei que não tem dinheiro pra comprar travesseiro novo, e tu tem alergia a mofo, então pelo amor de Deus né, me ajuda a te ajudar. Sobre as coisas que tá planejando fazer, vai lá e faz. Se der errado, deu. Tenta não dormir na aula, tá fodendo contigo. Parabéns por ter superado a depressão. Parabéns por ter conseguido consertar o PC sozinha (risos) e ter economizado 200 reais. Parabéns por ter conseguido manter as coisas organizadas. Sei que são poucas coisinhas, mas as coisinhas pequenas também são importantes, né baixinha? Dê mais valor a sua vida K., quando alguém perguntar o que são as cicatrizes no teu braço, não fique sem graça. Apenas sorria e diga que esteve em uma guerra, mas venceu!
Wallisson Antoni Batista
Enviado por Wallisson Antoni Batista em 02/05/2017
Reeditado em 02/05/2017
Código do texto: T5987703
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Wallisson Antoni Batista
Orizona - Goiás - Brasil, 22 anos
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Wallisson Antoni Batista