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Entrevista: RAQUEL ORDONES (Literatura) - Uberlândia, MG

“Conheci o trabalho de Raquel Ordones no portal Recanto das Letras. Empresária do setor calçadista no Triângulo Mineiro, ela relata que “se encontra” na força persuasiva da palavra. E que, convivendo cotidianamente no mundo das letras, ousou criar uma forma poética precisa, o “ordonismo”, sonetos cuja peculiaridade é ter a última palavra do verso rimando com a primeira do verso seguinte. Este processo permite um texto vibrátil, de ritmo intenso (três exemplos no fim da entrevista), como um bebop jazzístico.
Esta “entrevista”, que avançou para diversas outras questões do mundo da literatura, foi feita durante algumas semanas por e-mail. Degustem-na!”

Quem é Raquel Ordones?
Raquel Ordones é alguém de bem com a vida, alguém que procura se esforçar em qualquer que seja a atividade, que busca viver a intensidade a qual foi proposta no estar aqui nesse plano terreno, acredita numa força maior, de origem humilde (infância na fazenda), primeiro poema escrito aos 9 anos.
Sem apego a bens, encanta-se com pessoas. É filha e mãe, é esposa e liberdade de alma, aprendiz de poeta e pé no chão. É responsável com algumas irresponsabilidades, uma quase senhora-criança! Humana, enfim!
Raquel gosta de natureza, de caminhar nos fins de tarde, futebol, livros, poemas, de noite estrelada, de pessoas interessantes, fotografia, gargalhadas, música, de salto alto, acessórios, cabelos naturais, perfumes; é uma quase formiguinha em relação a doces. Também é amiga, dessas amigas mesmo, gosta de olhos nos olhos, da sinceridade da criança; não se sente plural por esses títulos ou status. RO já foi doméstica, dama de companhia para idosos, jogo do bicho, catequista, jogadora de futebol, nunca foi nerd, mas estava ali bem juntinha. Cursou Magistério, Administração de Empresas, Marketing, Matemática Financeira. Fez cursos de locução, inglês básico e violão bem mais básico.
Atualmente trabalha com moda, na  Hattan Calçados – indústria de calçados e loja da fábrica – em Uberlândia, MG.
Escreve diariamente. Prefaciadora, orelhista, antologista, cronista, roteirista, pretende ser uma sonetista de verdade, contadora de histórias (grupo de teatro palavreado).
Sem publicações, por enquanto.
Com tantos "eus em mim", não sabe se definir... “até porque quem se define se limita".

2) Como foi a história de escrever um poema aos 9 anos? E como outros o sucederam?
Foi na escola: a professora pediu para escrever uma composição sobre a cidade, eu fui lá e enchi de rimas.
I
“Pra fazer composição,
De cidade como a nossa,
É preciso ter estudo,
Não é pra gente da roça.
(...)
VII
Uberlândia eu te amo
Com carinho que de mim emana
Para escrever sobre ti
É preciso uma semana.”

Estudava na escola anexa à Escola Agrotécnica Federal de Uberlândia, e lá tinha um jornalzinho interno... E esse poema foi parar no gabinete do prefeito, na época. Quase sempre ele visitava a escola, em datas comemorativas, e ele não tardou, veio me parabenizar pelo escrito. Eu quase emudeci, menina da roça, já viu! Fiquei bloqueada por algum tempo (foi um susto).
Mas, a poesia ressurgiu naturalmente depois, nos “cadernos de meninas”.

3) Por favor, discorra sobre esses "cadernos de meninas".
Bom, na minha época eu não tinha diário até mesmo pela situação financeira, só se comprava o essencial, o básico do básico.
“Cadernos de meninas” era aquela sobra dos cadernos da escola do ano anterior; eu arrancava todas as folhas limpas de diversas matérias (aqueles cadernos pequenos grampeados no meio) e a mamãe costurava na máquina de costura dela... Ali derramava tudo, coraçõezinhos, florzinhas, letras iniciais de nomes entrelaçadas quase em códigos, pequenas frases; trovas com rimas era o meu forte, e até cartas!

4) Fale agora de sua adolescência e juventude:
Quando vim da fazenda aos 11 anos, já vim encomendada para trabalhar na casa da minha tia, olhando o filho bebê meio período, (essa tia eu fui a dama de honra do casamento dela, risos) porque no outro eu estudava.  Sempre gostei da escola. Minto... Amava mesmo, nunca fui nerd, mas sentava atrás deles.
As minhas notas sempre foram boas, menina aplicada e responsável. Sem nenhuma repetência ou pendência.
A música desde sempre foi a minha fiel companheira.
Aprendi todas as brincadeiras de meninos, por que eu era a 4ª pessoa para jogar futebol com traves de lata de óleo de cozinha. Empinava pipa, roubava bandeirinha, carimbada, bolinha de gude, isso numa inocência até os dezoito anos, aquela meninada na rua nas tardes de domingo.
Frequentei muito o estádio de futebol, ia à igreja católica com meus pais. Éramos quatro irmãos, eu em meio a três meninos.
Adolescência bem cuidada, apesar de não ter muito a vigiar, minha criação foi na “rédea”, pai à moda antiga, e a mãe sempre apaziguava, mas só de olhar a gente já entendia tudo. Os irmãos não deixavam brechas, mas nos divertíamos juntos, me levava ao cinema, às brincadeiras dançantes que havia naquela época, nas casas das pessoas ou em escolas, uma música tocada em k7, embaixo de uma tolda, todos entravam ali e dançavam ainda que não conhecidos. Era bacana a interação.
Muitos “gatinhos” por ali, mas era só nas olhadas mesmo.
Sempre tive muitos amigos (as) e uns admiradorezinhos (rs).
O comportamento daquela época, em nada se parece com o da juventude de hoje.
Quanto a namoro, posso contar em uma só mão e ainda sobram dedos. O namoro era ali, no sofá, entre a família. Antes das dez da noite, encerrava-se a sessão namoro e despedir no portão, nem pensar, mas tinha as escapadelas.
Casei-me com meu terceiro namorado e 30 anos já se passaram.
Isso, entre uma poesia e outra...

5) E então, em algum momento, a poesia saltou das páginas dos “cadernos de menina” e inundou a sua vida? Como foi isso?
Desde que me entendo por gente a poesia é viva em mim, talvez eu tenha até deixado uns rabisquinhos nas paredes uterinas da mamãe (risos). Quando criança li muito Cecília Meireles, não sei se isso me influenciou; o meu pai também escrevia, um tanto sistemático, achava que ser poeta era mimimi demais para homem, tinha poemas de gavetas, lindos e é claro que eu li todos. Talvez ele nem soubesse disso!
Então, num primeiro momento, as poesias saíram pra fora do caderninho em forma de carta, escrevia algumas cartas atendendo pedido de pessoas conhecidas e até não conhecida, transcrevia ali o que me era passado, eu era a portadora dos sentimentos delas.
Escrevia uma coisa aqui, outra ali, nos cadernos dos colegas da escola, não mais que isso...
Mas o segundo momento vive até hoje, foi em 2006, quando entrei no finado Orkut, onde pude mostrar o que escrevia e aprendi muito, uma escola. Na verdade morei por muito tempo lá, por aquelas comunidades de poesias nas quais os poetas deixavam MOTES, adorava ir ali e escrever sobre o assunto deixado. Fui elogiada, mas também criticada... Até hoje, enfim!
Criei um blog mais ou menos nessa época, que alimento até hoje (https://raquelordonesemgotas.blogspot.com.br/), depois criei um perfil no Recanto das Letras, em seguida no Facebook,  onde também tenho uma fanpage; recentemente criei um humilde canal no Youtube com poemas declamados.
São nesses ventos virtuais que espalho meus escritos, além de 14 participações em antologias (enfim, pude sentir o cheiro de alguns poemas meus nos livros). Frequento saraus, bacana essa interação de poetas sem competição...
Sonho meu livro solo... Mas sei esperar!

6) Que considerações você faz do momento atual da literatura? A internet influencia “para o bem ou para o mal” a escritura de textos?
Tenho comigo que a literatura está em seu melhor momento... É tanta gente escrevendo e divulgando coisas ricas, outras nem tanto (risos) nunca se conheceu tantos escritores.
Há um ecletismo, uma união do literato com o popular, poesias intimistas, visuais e marginais até.
Há uma evolução do social, urbano e regionalista, há tantos experimentos, técnicas inovadoras, intertextualidade e metalinguagem.
A internet é um veículo de suma importância, pra ela são migrados livros inteiros e tantas preciosidades de gaveta que tocam, criam asas, ultrapassando as barreiras territoriais...
Para quem se interessar há uma facilidade gigante no acesso.
Assim como tudo têm os dois lados, a internet é ferramenta para uns e arma para outros.

7) O que você gosta de ler? Tem autores ou autoras preferidos (as)?
Leio de tudo, viciada mesmo (até jornal de ontem).
Quando pequena, a gente não tinha acesso a livros, alguns na escola que passavam de mão em mão. Ficava louca com eles, às vezes não saía para o recreio para ficar lendo ali, num canto e sossegada.
Quanto tive o privilégio de comprá-los, eu já era adolescente... Tinha paixão por gibis. Depois descobri os romances Júlia e Sabrina! Eu devorava.
Cheguei a colecioná-los em 136, depois passou aquela fase e fiz uma doação para o sebo. Gibis; ainda os tenho: muitos (Maurício de Souza / Carl Barks).
Amava de paixão ler aqueles livros extraclasse: Dom Casmurro, O Caso da Borboleta Atíria, da série Vagalume: A Ilha Perdida, O Escaravelho do Diabo, Coração de Onça, o Feijão e o Sonho – de autores diversos (me deu saudades... viajei!).
Eu era fascinada por Monteiro Lobato, li “n” vezes As Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho (o Sítio do Pica-Pau Amarelo era o melhor que havia). Adorava os poemas de Cecília Meireles: A Bailarina, Leilão de Jardim, Canção dos Tamanquinhos, O Menino Azul. (decorados até hoje).
No Recanto das Letras leio bastante, escritores ainda anônimos e por toda rede (mas gosto mesmo é do cheiro do livro físico – tenho uma pequena estante).
No mundo da “famosidade” gosto de um misto em vários gêneros: Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Agatha Christie, Lispector... Ah, ficaria horas fazendo uma lista, são tantos... Enfim, tenho mais afinidade, talvez tenha um pouco de mim, ou o contrário, não sei, tenho um pouco dela: Florbela Espanca é a minha preferida.

8) Sei que você também gosta de desenhar. Comente esta outra forma de expressão.
Parece meio clichê, mas a vida me move, tudo à minha volta, amizade, amor, ódio, a angústia, a natureza. Gosto desse movimento, dessa roda gigante que enquanto gira nos move. ora estamos no alto, ora embaixo. Meus motivos são cotidianos, são aqueles motivos que causam raiva, decepção, indignação e aqueles outros que causam alegria, paixão, esperança, paz (rs).

9) Seus trabalhos postados no Recanto das Letras, especialmente (mas não somente) os sonetos, revelam uma poeta de texto apurado, “burilado”, como queria João Cabral de Melo Neto. Como é seu processo de criação literária?
Bom, até então, eu só escrevia, colocava o USB da caneta à mente e pronto, mas sempre com sentido, conteúdo, mensagem e o mais claro que eu pudesse ser. Depois que conheci o soneto, sempre digo que ele se apaixonou por mim (pretensiosa). É que tudo que vou escrever já me vem dentro dos quatorze versos.
Passei a não somente escrever, mas me atentar às leis do soneto. A poesia é sim livre, mas o soneto requer regras.
Qualquer coisa e assunto é motivo de inspiração, sou bastante eclética; e vem assim do nada, sem ser forçado, flui (uma palavra numa conversa vira poema).
Antes, eu inventei um “soneto infiel” por ter dificuldades com relação à métrica, e fui estupidamente criticada por isso:
_“ Soneto é soneto, tem regras e se você não as cumpre, não é soneto; “infiel” é apenas uma adjetivação” (escrito em letras maiúsculas).
Guardei essas palavras comigo como uma crítica construtiva, me dediquei um pouco à teoria da poesia e poetas e hoje já arrisco escrever soneto decassílabo heroico (vivaaa!).
Ousei inventar o “Ordonismo”, assino assim os meus sonetos onde a ultima palavra do verso rima com a primeira do verso seguinte.
Gosto imensamente de rimas, talvez eu tenha certa facilidade, não sei! Há coisas que são inexplicáveis (frase clichê, risos).
Gosto de palavras diferentes, mas não de palavras difíceis. Acho pouco poéticas; também não gosto de repetir palavras nos meus sonetos. (coisas de Raquel).
Gosto de ‘exibir’ os meus eus dentro do meu eu-lírico. Sempre acho que caibo como personagem mesmo não sendo.
Não gosto muito de escrever poemas tristes e prefiro as metáforas.
Tenho cuidado sim com meus escritos, são filhos... Mas sei que não são perfeitos (ainda assim os defendo).
Escrevo diariamente e quando não o faço, falta algo; tenho comigo que “escrever é escreviver” (tenho necessidade do neologismo). Respeito ao máximo o meu leitor, sempre que posso gosto de agradecer as leituras e comentários... Creio que nesse ato alcança-se o objetivo poético... Quando a escrita toca quem a lê o ledor passa a ser extensão do escritor, aí ela cria asas, é do mundo do outro, voa fechando assim um círculo “infechável”, infinitamente mágico (acho que falei demais e não responde - risos).

10)  O que a sensibiliza?
Coisas simples... Demonstração pública de carinho sincero, uma florzinha perdida no meio do mato, a vastidão do céu, a lisura da criança, uma frase no meio de uma música, um “eu te amo” incondicional e inesperado, a chuva, o cheiro de um livro, um perfume, um poema de presente, pessoas que se doam, firmeza do olho no olho, o respeito...
Eu me sensibilizo sempre, sempre estou atenta às pequenas coisas que se fazem gigantes em mim, me inspiram e que se tornam “minha poesia”.
Ficaria aqui horas citando...

11) Onde você tem publicado seus textos?
Os meus textos estão por ai na rede, publicados até em outros espaços; estão também em algumas antologias, publico-os nalguns saraus...
Meus espaços poéticos:
Blogger: http://raquelordonesemgotas.blogspot.com.br/
Google+: https://plus.google.com/110426184910970095847
Fan page: https://www.facebook.com/raquelordonesemgotas/
Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=83659
Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCHPoPv2t9H9RcTqMAlniGTw

12) Tem alguma pergunta que não fiz e que você gostaria que eu tivesse feito? Se sim, por favor, faça-a e a responda. Obrigado por sua atenção.
Imagino que já exista aqui uma vista mais que panorâmica de Raquel Ordones e que os pontos principais estão ditos nos questionamentos anteriores. Agradeço imensamente pelo cuidado em formular perguntas direcionadas a mim com tanta pertinência.
Meu carinho e admiração!

Ordonismos de Raquel:

“Meu diário”
Hoje o dia despertou emburrado,
Nublado, o sol não quis sair da cama,
E fez drama; o bonito foi ofuscado,
Camuflado, nem tirou o seu pijama.

A lama jazer, pois o calor dorme,
Meu uniforme não secou no varal,
O meu jornal se molhou; sem informe,
E conforme estação não é normal.

Portal encharcou, tem uma neblina,
Na esquina um café, mas está vazio,
Frio corre solto a ferir a retina.

Menina nem respira em arrepio,
No fio, pio e pardal sem adrenalina,
Matina glacial, mas o sol nem viu!

“Sublimação”
A poesia vai além-composição,
Estação de quem chega e de quem parte,
Arte da essência, luz, coloração,
Comoção que na viagem é encarte.

Aparte o status se o poeta ostenta,
 E se inventa ser, foge ao natural,
Plural não vive; só alma sedenta,
Sustenta o encanto de jeito cabal.

Varal onde um alento se balança,
Trança pureza na singular teia,
Enleia-se; caneta, par da veia.

E semeia fascínio, afora lança,
Dança imaginação, afixo onírico,
Empírico do ser, ora em eu lírico.

“Fechando a porta”
Decisão: não quero ser observada,
Fechada, inda que dois olhos destacam,
Emplacam nos meus, à porta cerrada,
Ferrolhada de dentro, os eus empacam.

Achacam as emoções, imo se encolhe,
Que molhe em lágrimas, nada estanca,
Espanca a carne, que tudo desfolhe,
Acolhe-se à solidão de alma manca.

Desbanca-me o sentir, agora escuro,
Um muro eu criei; isolei o lá fora,
Chora a certeza, porque o medo implora.

Mora em mim um cruzamento duro,
Obscuro temor faz a vida morta,
Entorta o meu ser fechando a porta.

ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Escobar Franelas e Raquel Ordones
Enviado por Escobar Franelas em 25/03/2017
Reeditado em 03/07/2017
Código do texto: T5951186
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Escobar Franelas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 48 anos
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Escobar Franelas