Conversa com Ansilgus – 31.03.2016
 
Conversa com Ansilgus – 31.03.2016
 
Hoje, pela manhã, vi o meu pai choramingando num cantinho de seu quarto. Claro que fiquei muito preocupada com a ocorrência. Fiz de conta que nada acontecera. Não sei mesmo o que estaria acontecendo com ele. Pra início de conversa, como todos podem verificar em sua foto no perfil, vem deixando a barba crescer sem limite. Isso tem preocupado a todos, porquanto sempre fora cuidadoso com a sua aparência pessoal. Criei coragem e resolvi arriscar uma pergunta: Meu pai queira me desculpar, mas o senhor pode me dizer qual o motivo dessa barba tão grande?
Ansilgus: Sabe, querida filha, quando a vejo me vem logo à mente aquela batalha que travamos – eu e sua mãe estimada --, nos idos de 1966, quando pegamos você com menos de um ano de vida e corremos para o Recife, seu pai no volante de um velho “Vemag”, de quatro tempos, sem possuir habilitação; velocidade acima do permitido, a fim de chegarmos o mais rápido possível num hospital de emergência, eis que você estava com um quadro perigoso de “desidratação do terceiro grau com choque hipovolêmico”, muito mais pra óbito do que para viver, fruto de um péssimo acompanhamento médico na cidade onde seu pai trabalhava.
Sandragus: Mas o que tem isso a ver com a minha pergunta?
Ansilgus: É que na viagem eu e sua mãe fizemos uma promessa rogando ao nosso Pai Celestial que nos poupasse dessa que seria para nós uma grande perda; não é que ao adentrarmos no hospital Pronto Socorro Infantil Nossa Senhora de Fátima, logo que chegamos ao Recife, e eu que era de lá nunca havia sequer ouvido falar nessa casa abençoada por Deus; um médico de cor nem ao menos deixou fazer sua ficha de entrada, foi logo pegando você nos braços e subindo os degraus para o andar de cima numa velocidade fora de série. Dentro de mais ou menos uma hora sem notícia, eis que ele desce e vem ao nosso encontro para dizer que você estava medicada (soro) e fora de perigo. A melhor notícia que tal facultativo poderia nos dar, e a verdade é que você se criou e está essa bela mulher que se depara a minha frente. Hoje você é mãe de dois filhos lindos e maravilhosos. Olha, na oportunidade nos afligimos bastante, pois na portaria do hospital exigiram uma caução de oitenta contos. Seu pai não tinha esse dinheiro e nem sabia como arranjar tamanho valor, com o agravante de que havia saído do trabalho as pressas sem avisar quando e como voltaria. Lembrou-se que um seu irmão, José, que Deus o tenha, era um pequeno comerciante no ramo de farmácia, todavia ele também nada poderá fazer, até porque o capital dele talvez nem chegasse a esse valor. Daí criou coragem e foi à Agência do Banco do Brasil, aquela bem grande da Avenida Rio Branco, contou todo o drama ao subgerente, senhor Hugo, que imediatamente mandou que se fizesse um adiantamento do mesmo valor, debitando-se a minha agência de origem, que depois o seu pai teve de pagar. E, por força do destino, seu pai fora nomeado alguns anos depois para a gerência da filial em que o mesmo Hugo estava trabalhando, promovido que fora, eis que por doença ele falecera para tristeza nossa.
Sandragus: Mas ainda não entendi o que isso tem a ver com essa barba gigante?!
Ansilgus: Eu estava querendo lhe dizer que é fruto de uma promessa que fiz ao Senhor Deus no sentido de que não mande me buscar agora, que me conceda mais alguns meses de vida, mesmo essa que seu pai vive com tanta tristeza e aperreios, porque como diz o ditado: “Se a vida é um descanso, prefiro viver cansado”. Perdi doze quilos em seis meses, meus parcos músculos estão indo embora, não tenho me alimentado, falta-me o apetite necessário e imprescindível para reconquistar a massa perdida. Vou lhe contar uma coisa que ninguém daqui de casa sabe. A verdade é que o meu médico me falou que a probabilidade de um câncer no pulmão é muito grande, em face dos exames realizados. Também pedi pra ele não divulgar, e todos pensam que estou com problemas na “Próstata”, que no fundo é verdadeiro (não repare o trocadilho). Afinal, entre médico e paciente deve haver respeito à vontade de ambos.
Sandragus: Mas existe cura para o câncer de várias espécies...
Ansilgus: Filha, este velho fumou por mais de trinta anos consecutivos. Havia dias que passava de três carteiras de cigarros. E quando estava bebendo aí é que a coisa aumentava. Antes, sem filtros, depois, para esnobar apareceu tal marca “Charme”, da Cia de Cigarros Souza Cruz, com filtro, que era uma desculpa de que menos ofensivo aos pulmões. A verdade é que quando fui submetido àquela cirurgia cardíaca de quatro pontes de safenas, por conta do infarto que sofri nos idos de janeiro de 1985, o cirurgião foi bastante claro ao me dizer que eu deveria decidir entre fumar e continuar vivendo, pois meus pulmões estavam absolutamente pretos de nicotina, sem possibilidade de refluir, mas de estagnar por ali. Claro que resolvei pela segunda opção e eis-me aqui até hoje.
Sandragus: Estou sentindo o senhor bem cansado, vamos parar um pouquinho pra descansar?
Ansilgus: Era isso que eu queria lhe pedir...
Sandragus: Voltando a nossa conversa, gostaria de indagar se o senhor, dois dias depois, poderia prosseguir, eis que o momento nacional está cada vez mais fervente, e sua opinião sempre é muito bem vinda pelos seus leitores?
Ansilgus: Certo que podemos, mas esse assunto me é bastante constrangedor, de vez que nunca vi na minha vida nenhuma situação tão grave a envergonhar a nação brasileira. Aliás, você mesmo me falou que um dos leitores chegou a criticar que essas entrevistas poderiam até prejudicar a minha saúde (a grande poetisa Ariadne Cavalcanti). Porém, vamos continuar.
Sandragus: Claro, eu até deixei de agradecer a essa poetisa, como o senhor me recomendou, a propósito de sua preocupação, mas daqui peço minhas desculpas, e certamente ela saberá entender que sou apenas uma simples cristã, sujeitando-me a erros e acertos. Mas fala-me se o senhor acha mesmo que essa medida do PMDB ao desembarcar do governo foi de bom acerto, ou seja, foi a mais correta possível, em face do quadro desolador por que passa o governo?
Ansilgus: Preliminarmente, considero que o doutor Michel Temer (PMDB), presidente nacional do partido, foi eleito na chapa da Dilma, ou seja, os votos dele foram assim como por tabela, ou seja, figurou como acessório, pois os votos dela o aproveitaram; pessoalmente, ele não teve voto algum, mas como é a regra do jogo, terminou por ser emplacado na Vice-presidência da República. Aliás, sempre achei que os pretendentes ao cargo de vice deveriam ter os seus próprios votos e não vinculados, amarrados aos do titular da chapa. Sobre isso já houve precedentes no país, quando Jango Goulart (PTB-RS) derrotou o candidato Doutor Milton Campos, excelente homem público (UDN-SP), que Deus os tenha em bons lugares, isso em 1960, que foi então a última eleição livre antes da revolução de 31.03.1964, que hoje aniversaria. Sobre a matéria, todos se lembram de que o “homem da vassoura” Jânio Quadros, num gesto esquisito, praticamente nunca explicado (forças estranhas!!!), renunciou ao mandato sete meses após a sua posse, tendo sido bastante difícil à investidura democrática do Jango ao cargo de mais alto mandatário do país, por conta de movimentos militares, finalmente arrefecidos pela presença marcante do grande estadista Tancredo Neves. Engendrou-se o sistema parlamentar de governo, acalmando as forças armadas, de sorte que o Jango assumiu o poder. Todavia, pouco tempo depois houve a revolução já referida, que alguns a chamam de “Golpe” ainda hoje. Não pretendo enveredar por esse caminho, pois a história é longa. Não considero “desembarque” algum, eis que alguns ministros ainda permanecem no poder, mostrando que em primeiro lugar estão os interesses particulares (Matheus, primeiro os meus). Então o Doutor Temer deveria também desembarcar, se não agora, mas depois de o Congresso Nacional decidir sobre o “impedimento” da presidente. Ou seja, em caso positivo, assumir e marcar imediatamente eleições presidenciais dentro de noventa dias, todavia sem poder concorrer a novo mandato. Em caso negativo, renunciar e entregar seu mandato à presidente Dilma, posicionamento que o engrandeceria no conceito do eleitorado nacional.
Sandragus: Pelo visto, o senhor é contrário ao “Impeachment”...
Ansilgus: Não sou contrário, sou independente, dou a minha opinião sincera. Acho que ela não será afastada do poder, porquanto necessita de apenas 172 votos contrários na Câmara Federal. O que a mídia vem informando diariamente é que o Planalto está se movimentando como nunca para conseguir seu intento, dizem até que oferecendo cargos de primeiro ao terceiro escalões, e até mesmo ministérios, a quem interessar possa, e se isso ocorrer facilmente é de observar que mais uma vez o povo brasileiro vai pagar a conta. Há partidos que estão em dúvida (?) se acompanham ou não a debandada do PMDB, como por exemplo, o PP (Partido Progressista), que se não me falha a memória agora está com 66 deputados, sendo a segunda força política nacional. Fácil é deduzir-se que nem é necessário que parlamentares nessa fase inicial votem contra, bastando se abster de comparecer à sessão pertinente, que será convocada logo após o período de dez sessões, mais cinco para elaboração do parecer do relator da matéria. Verdade que está havendo muita liberalidade por parte do governo no sentido de soltar emendas parlamentares polpudas, e até mesmo outras regalias, próprias desses nossos representantes, infelizmente. Portanto, há uma diferença entre ser contrário, favorável, ou não acreditar no êxito. Agora mesmo está havendo as justificativas do governo federal, a propósito das irregularidades praticadas quanto ao orçamento, às pedaladas fiscais, etc. Não há falar em que não houvera crime de responsabilidade, porque os brasileiros não são analfabetos a ponto de não enxergar tais ilícitos penais. Aliás, dois dos signatários do pedido de impedimento compareceram à Comissão do Impeachment, em data de ontem, e foram bem claros em suas explicações. O de que estou tratando é que a medida não vai prosperar em face da situação de vulnerabilidades do nosso sistema político-eleitoral, do “toma lá da cá”. Não é necessário, por exemplo, ser formado em direito para entender que qualquer “saque” sem a necessária disponibilidade no banco resulta no pagamento de juros, logo, basta isso para dizer que houve sim empréstimos não autorizados, de responsabilidade da nossa presidente.
Sandragus: Sim, mas e agora...
Ansilgus: Sinceramente, agora é partir para 2018. As oposições, que para mim são bastante fracas, deveriam se unir em torno de um nome novo, o governador Pedro Taques (PSDB-MT), saindo desse tripé Alckmin, Serra e Aécio, que francamente para mim já cansou de tanto perder. Até no futebol existe uma máxima que diz: “Não se mexe em time que está ganhando”. A propósito, já ouvi comentários acerca da filiação do José Serra (PSDB-SP) ao PMDB, assim como a do Alckmin a uma dessas siglas, parece-me que ao PSB, a fim de abrir brecha para novas candidaturas à presidência da república, decerto mais uma derrota. Não é que seu pai seja contrário a esses políticos, mas tudo funciona em função do quadro tenebroso por que passa o Brasil. O que me parece é que como não se podem fazer milagres em questões de economia, ou o governo, se ficar, adota medidas “salgadas” para salvar o país ou jamais terá a oportunidade de fazê-lo, isso doa em quem doer.
Sandragus: Meu pai sinto que o senhor está bastante emocionado, suando muito, vamos parar por aqui.
Ansilgus: Teria muita coisa ainda pra falar, mas concordo... Aliás, ontem um dos nossos senadores dissera numa fala de ontem que todos os estados brasileiros estado em dificuldades financeiras. Eu morri de rir quando ele falou que quando uma pessoa perguntar a qual estado ele pertence respondera: Ao estado de miséria.
Sandragus
 
Sandragus
Enviado por ansilgus em 31/03/2016
Código do texto: T5590638
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