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O homem negro no Brasil e a outra possibilidade de ser - 01

As palavras que advirão podem soar como um mais do mesmo, no sentido de que no mundo, já se escreveu sobre (quase) tudo o que se possa imaginar. Todavia, a sinceridade que marca este escrito é nascida da faca cotidiana que rasgou e rasga a pele da subjetividade que  o produz : no caso, eu.

Pois ao analisar alguns vídeos, comentários, escritos sobre o fato da grande mídia ter um papel importante, decisivo, no processo de construir um imaginário coletivo, que cria possibilidades da subjetividade ser, possibilidades estas restritas que colocam no horizonte das individualidades modelos prontos de ser, de atuar dentro do jogo social, verifica-se a urgência de externar uma sinceridade repleta de marcas e cicatrizes causadas por esta faca cotidiana.

Estas cicatrizes provocas por esta faca cotidiana que coloco de modo subjetivo a priori, é extensiva a um número considerável de indivíduos partícipes do jogo social brasileiro, certeza disto tenho. E de quais indivíduos fenotipicamente falo? Dos homens negros brasileiros, do homem negro brasileiro médio que, têm diante de si - se acaso viverem uma vida irrefletida - mínimas possibilidades de ser dentro do jogo social. Suplantar estas possibilidades de ser é o desafio posto ao homem negro no Brasil, todavia, não apenas a ele, mas, a todo aquele que deseja fazer do ato de existir algo interessante e diverso de tudo aquilo que está sobre a mesa.

I

No Brasil, a questão, de modo inequívoco, não tem ares de teoria conspiratória quando se pensa neste país em seu início de segunda metade de século XX, onde a mídia televisiva emerge como esta máquina produtora de consciências distintas, adequadas a cada manifestação fenotípica em solo nacional: produção esta de categorias conscienciais limitadas; talvez, num trabalho de desvelar quais são estas consciências - e não se trata do caso agora - não se chegue a um número de dez.

A mídia televisiva nacional, produziu (e vem produzindo, porém em menor escala) a consciência da mulher, do homem, do índio, do adolescente, e incluso daqueles que apresentam-se estranhos e marginais, de maneira que a majoritária parcela da população, acrítica, escolhe aquela que melhor convém e acopla.

Este acoplar é explicável por múltiplos motivos; culturais, psicológicos, por distinção de classes (se assim se quiser)..., porém, fato é que tal processo é importante na constituição das subjetividades existentes, incluso na atualidade, onde supostamente haveria uma abertura, uma amplitude maior jamais vista nas possibilidades de ser.

Tal suposta abertura nas possibilidades de ser além daquelas consagradas pelo projeto intencional midiático, apresenta-se justamente como um dos pilares característicos desta época, que tem na facilidade do acesso às informações esta confirmação: pois para além das pré-disposições pessoais, em tese, nos dias de hoje, seria muito mais fácil ser, atuar de modo distinto dentro do jogo social, suplantando as consciências e tipos clássicos criados pelo jogo midiático brasileiro de século XX.

Contudo, mesmo nesta era de "democratização da informação", de um modo massivo (pois é o massivo que me preocupa - os exemplos excepcionais são excepcionais) que tem na Internet, e todos os seus desdobramentos, seu símbolo maior, é perceptível que meia dúzia de modos de ser dentro do jogo social são aqueles que predominam, análise esta que antes de ser uma crítica, um sinal de declínio, é apenas uma constatação e, natural que assim o seja, pois, fundamentalmente, com ou sem internet, com ou sem aparatos midiáticos, os indivíduos que compõem um determinado agrupamento social, no sentido de se sentirem parte deste agrupamento, emularão modelos de ser preexistentes. Analisando os conteúdos presentes na Internet cotidiana - aquela que atende o massivo - será possível perceber, após olhar detido, poucas possibilidades de ser à disposição que servem, de modo inconteste, interesses: político-religiosos ou econômicos; talvez seja possível reduzir nestas duas vertentes, os interesses que estão em jogo.

 II

 Fugir, portanto, do esquema armado pelo jogo social e midiático que propõe→impõe→cristaliza modos de ser, deixando longe do alcance da visão outras possibilidades de ser, é mais difícil para os que carregam estigmas, para o homem negro, por exemplo.

 Pois os modos de ser que estão à disposição para as fenotipias privilegiadas historicamente pelo jogo social, são de bom grado abraçadas por estas: não há porque negar estes modos de ser positivos, benquistos,  se acaso o indivíduo neles se enquadrar - não há necessidade de se passar apertos na vida quando as condições, desde sempre, apresentam-se favoráveis.

 O homem negro no Brasil (hnb), todavia, tem reservado para si possibilidades de modos de ser dentro do jogo social brasileiro que, de modo evidente, a priori, não são favoráveis ao seu desenvolvimento dentro do jogo social em igualdade de condições em relação àqueles que têm em suas prateleiras sócio-ônticas, modos que lhes darão fluidez sem nódulos e estanques em boa parte do percurso no desenrolar deste mesmo jogo social.

 Os modos de ser que estão à disposição do homem negro no Brasil diretamente e sem entraves no acesso, são os da marginalidade e os da inseriedade: sair do perímetro criado por estas possibilidades de ser destinadas ao homem negro no Brasil é acessar a matéria escura do jogo social para si. As outras possibilidades de ser para o homem negro no Brasil, que não estão presentes no binômio marginalidade e inseriedade são a matéria escura do jogo social (para o hnb).

 Mas o grito liberal evocará o trecho da música do SNJ que diz “se tu lutas tu conquistas é tipo assim”... Luta, todavia, sempre existirá de acordo com a condição que o ser-social apresenta-se no jogo social: o homem negro que trafega cheio de expectativas, anseios, desejos e sonhos no perímetro estabelecido pelo binômio da inseriedade e da marginalidade, não tenha dúvida caro leitor, que lutará e, sem dúvida, alcançará, porém, alcançará no perímetro a ele destinado.

 

 Lutará e alcançará, porém dentro do perímetro destinado ao homem negro no Brasil ser. É possível acessar a Matéria Escura? Mas é evidente que sim e, exemplos temos aos montes. Contudo, a reflexão aqui não está preocupada com as exceções de uma dinâmica vigente.

 Pois para que o hnb rompa as paredes espessas deste perímetro, necessário que imprima uma força de vontade anti-natural para aqueles que estão neste perímetro. Pois nasce-se em determinadas condições, onde todo um esquema de condicionamento é existente no sentido de direcionar rumo a, quem sabe no máximo, às extremidades deste perímetro: o gerente do supermercado negro, dentro desta perspectiva, chegou às extremidades deste perímetro, assim como o cantor ou jogador famoso; o advogado ou astrofísico negro, entraram na matéria escura do jogo social, bem como um gerente de um grande escritório contábil; o logicismo matemático árduo se faz necessário neste último e tal, não apresenta-se no perímetro da marginalidade e inseriedade.

 III

 Porém, à parte as questões sócio-histórico-raciais prevalentes no jogo social brasileiro, salienta-se aqui que TODOS ESTAMOS NO MESMO BARCO. E o que isto quer dizer? Exatamente o que fora exposto na seção I deste texto: que boa parte das pessoas acoplam em sua existência, modos de ser que já estão prontos. Acerca da construção de
stes modos de ser no jogo social brasileiro e a quais interesses servem, diminuta faceta foi exposta na reiterada seção I e, existe uma vasta bibliografia à disposição (incluso de cunho conspiratório na internet) que se dão ao trabalho de tentar edificar uma gênese.

 A Matéria Escura do jogo social para o hnb, quando acessada, para ele, não perde de todo sua escuridão: o hnb que acopla em si o modo de ser que está à disposição nesta matéria escura, exercerá sua função social de modo turvo, cinzento, porém, jamais saberá como é exercer este papel social, este modo de ser outrora Matéria Escura, de modo absolutamente claro. Contudo, em escala maior, tanto o hnb, quanto todos os partícipes do jogo social, estão representando modos de ser estabelecidos como corretos, padrões, aceitáveis, palatáveis e, incluso os modos marginais (um sujeito imerso no vício e perambulando pela cracolândia, ou "desvios de gênero", por exemplo) servem a este padrão.

 O desafio colocado ao hnb (e não apenas ao hnb, mas, a todos nós, ou, pelo menos a alguns de nós) é criar novas possibilidades de ser dentro do jogo social.

 Contra-argumentaria alguém que uma outra possibilidade de ser seria justamente aquela que se aproximaria dos ditames da vida marginal. Outro diria que seria aquela em que o hnb consegue acessar e viver os modos de ser destinados àqueles que estão no plano da Matéria Escura (Matéria esta que é escura ao hnb). Uma outra possibilidade de ser dentro do jogo social, seria aquela em que o hnb (e não apenas ele, porém, todos nós) suplantaríamos os modos de ser propostos→impostos→cristalizados: estar além da Matéria Escura e do Perímetro destinado ao hnb e, por viver deste modo absolutamente original, tal viver, tal estado de ser no jogo social, proporcionaria livre trânsito ao hnb tanto na ambiência da Matéria Escura, quanto na ambiência do Perímetro.

Esta outra possibilidade de ser para o hnb, não estaria tanto fundamentada na função social que ele exerce, porém, na compreensão da dinâmica que cria e cristaliza modos de ser. Sabedor desta dinâmica, ele terá condições de, facilmente, criar para si esta nova possibilidade de ser dentro do jogo social absolutamente inesperada para a maioria dos partícipes deste mesmo jogo, ainda que seja um jogador de futebol, cantor, marginal, empacotador, recepcionista, enfermeiro ou astronauta. Esta nova possibilidade de ser se expressará através da linguagem que ele articulará em seu dia-a-dia: pois um hnb consciente da dinâmica exposta, exercendo a função social de mero empacotador de mercado, ao articular sua linguagem conscienciosa do fenômeno em questão, romperá na frente do interlocutor uma nova instância de ser que está além dos estereótipos consagrados; ele conseguiu e causou rubor.

 (Outras facetas desta temática, são discutidas e propostas em meu livro “O homem negro, no Brasil, não é levado a sério”.)
Cleber Caetano Maranhão
Enviado por Cleber Caetano Maranhão em 08/08/2017
Código do texto: T6077995
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Sobre o autor
Cleber Caetano Maranhão
Biguaçu - Santa Catarina - Brasil, 33 anos
3 textos (21 leituras)
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