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Sobre O Peso da Sinceridade

Ensaio sobre um mini-conto e outros grilos literários.

Publiquei aqui no Recanto o mini-conto O Peso da Sinceridade. Hoje quero pensar um pouco (também) sobre algumas reações que ele suscitou. O conto tem por tema, óbvio, a questão da falta de inspiração, períodos ditos bloqueios, nos quais muitos escritores declaram não conseguir escrever (geralmente) por falta de motivação. Bem, este é um dos temas. O principal mesmo aparece já no título, mas não vou aqui revelar segredos - claro!

Quanto a bloqueios para escrever, sinceramente acho que ainda não experimentei disto. Pode ser que aconteça num futuro breve, quem sabe. Há períodos em que necessito ficar calada, fechada para balanço, mas esta é uma característica minha, eu sempre fui assim. Bloqueio de verdade acho que ainda não tive, pois me vejo escrevendo todos os dias, ainda que nem tudo o que escreva seja para publicar, e por vários motivos.

Primeiro, porque sempre me preocupo com a motivação que tenho para escrever. Segundo, porque às vezes só quero conversar com o papel, ordenar pensamentos e chegar a soluções para conflitos internos e externos. Na escrita desnudo minha alma e ela, fiel e boa companheira, até hoje jamais senti me deixar na mão.

Há dias que necessito mesmo xingar o papel em que escrevo, usá-lo como saco de pancadas, lavanderia da alma, papel higiênico, trata-lo como mero depósito de frustrações. E estes escritos 'sujos' no entanto, em sã consciência, jamais pensaria em oferecer a quem me honra lendo meus textos.

Não, para meus leitores quero oferecer o melhor de mim, ainda que o meu melhor esteja carregado de coisas aparentemente ruins, como frustração, medo, inveja, egoísmo e outros sentimentos humanos genuínos, ainda assim busco oferecê-los em recipiente adornado, respeitando sempre o princípio da boa motivação: boa intenção sempre que possível e o mal proposital jamais.

Interessante que sonhei (ou imaginei ter sonhado) estar conversando com um escritor já falecido e no meio de nossa conversa ele me disse: “Escritor que se preza não serve dejetos aos leitores, ou pelo menos se esforça para não servir...”. Compartilho o que ele me disse e guardo só para mim minhas interpretações.

Quando escrevi O Peso da Sinceridade estava pensando no tema segundo – aquele que me pareceu ter passado despercebido – e me propus deixar certas coisas em aberto exatamente para que o leitor pudesse continuar sua viagem sozinho. Gosto quando outros autores fazem o mesmo comigo e por isto, naturalmente, quis retribuir a gentileza literária.

Certa vez, lendo sobre teorias, encontrei que um dos diferenciais de um texto literário para outro tipo de texto é justamente a possibilidade de se tirar do primeiro várias interpretações, jamais esquecendo que literatura, em princípio, é ficção. Deixo a discussão deste ponto para um outro ensaio por não caber agora aqui.

Considerando várias teorias literárias – um balaio de gatos onde se encontra análise do discurso, estudos culturais, feminismo, colonialismo e estruturalismo (antes e depois!) etc. -, muitas vezes num texto se pode encontrar coisas que o autor talvez nem sonhou em dizer, mas disse! Um exemplo simples na literatura brasileira: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Há teses e mais teses que se estruturam tentando desvendar os mistérios só deste texto.

Há que se lembrar que autor e teórico literário são papéis totalmente diferentes. Autor deve ser bom em contar histórias e teórico em analisar as mesmas. E para que cada papel seja bem desempenhado, vejo uma certa distância como necessário. Por exemplo, em desenvolvimento de software, analista não deve assumir papéis de arquiteto ou programador, e quem testa os resultados é bom que desconheça a arquitetura interna do sistema, ou seja, quanto mais leigo, melhor.

Já literatura parece englobar tudo: o texto puro, o contexto histórico, bem como vivências e estados psicológicos de leitores e autores, uma visão inocente de autor porém maculada por noções de análises e críticas etc. Isso não soa magnífico?! Foi o que me atraiu, em primeira instancia, a este mundo 'letrístico'. Deixei os computadores falando sozinhos e aceitei o desafio de interagir com algoritmos muito mais dinâmicos, autônomos, vivos – de certo modo imprevisíveis - também rotulados 'pessoas'.

Definir literatura de modo satisfatório me parece difícil, pois implica definir 'ser humano'. Sendo assim, melhor parar por aqui essas divagações e deixar o leitor seguir livre suas viagens, com ou sem acompanhante, tudo pago, e na primeira classe das interpretações!

A você, prezado leitor, a minha mais sincera gratidão.
Não sei quando volto por aqui, pode ser que seja breve,
mas também pode ser que não... deixo em aberto! :-)

Um abraço fraterno e muito mais Luz para todos nós!

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 30/03/2010
Reeditado em 30/03/2010
Código do texto: T2167855
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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