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Crença e Saber

          O efeito de uma educação familiar moldada apenas na crença do certo e do errado tornou-me muitas vezes uma pessoa sem autonomia. Mudar alguns pensamentos a cerca dessas crenças é como tentar levantar hoje um trator de 4.000 kg. É impossível a menos que eu comece a compreender de fato quem sou eu e se o que eu faço é bom ou ruim para mim.
          Eu lembro que muitas vezes meus pais diziam que certas coisas são apenas para quem tem dinheiro, como fazer uma faculdade ou viajar. Eles sempre diziam que eram pobres e passavam isso para os filhos. Essa é uma crença dos meus pais, mas eu não preciso necessariamente crer nisso. Eu posso mudar a historia que eles me fizeram crer ser verdade.
          Crer em algo muitas vezes é cair na armadilha do erro, como quando me foi ensinado que TODOS os homens são seres perversos. Saber que não é bem assim me fez caminhar em busca de uma verdade dentro de mim: há também homens bons. Saber é também ir além dessa compreensão. É saber distinguir quem é bom e quem não é. A crença acaba por cegar a minha autonomia ao determinar quem eu quero que faça parte da minha vida. Não me permite distinguir quem é bom, pois se torna um determinismo e não uma verdade compreendida a partir das minhas experiências pessoais.
          Pelas crenças religiosas, minha mãe acredita que devo me casar, sendo que esse não é um desejo meu. Por muito tempo sofri com a impossibilidade de lhe explicar que não estava nos meus planos essa condição, ou às vezes por ela jogar na minha cara que minha irmã mais nova encontrou um bom rapaz. Penso: Por que ainda sofro com isso ao invés de concentrar-me em sentir felicidade? Ser feliz por ter outro caminho a seguir. Por não estar condicionada a um pensamento tradicionalista que impõe o casamento aos seres humanos. Por ter compreendido que o amor não está no casamento e sim nas relações que estabeleço com as pessoas a minha volta. Sempre quando sofro estou crendo que preciso me casar, ao invés de saber que não preciso necessariamente me casar para manifestar o amor.
         Temas como, “esse ou aquele merecem morrer”, discutidas no almoço em casa, são praticamente uma crença que dou graças a Deus por estar “vacinada” contra o ódio extremo. Não que eu não compreenda o sentimento dos meus familiares, mas quem sou eu para julgar o meu semelhante. Se for difícil ouvir tudo o que dizem, imagina ouvir em silencio.
          Reflito: Será que evito falar para não ser colocada a prova pela vida? Lembro-me que uma vez eu escrevia muito sobre como a educação inibe as chances da criança e do adolescente não cair na tentação do crime. Um dia qualquer fui colocada a prova pela vida sobre tudo o que eu escrevi, já que recebi uma educação moral impecável dos meus pais para me tornar uma pessoa correta. Nesse teste eu passei, mas e nas de mais provas como me comportaria? Como não sou mãe não saberia dizer como me sentiria se violentassem o meu filho.
           É verdade que eu tenho muitas teorias sobre os diversos problemas sociais. Praticamente a vida sempre me puxou desde a infância a olhar para os mais necessitados. Mas, e sobre mim? O que eu sei? Muitos dos meus defeitos eu desconhecia. Outros eu ainda desconheço, porque não os reconheço. Eu não irei então me estender em situações distantes da minha realidade.
          Percebi que falar sobre a guerra ou sobre a miséria por trás de tantas teorias é um tanto fácil mesmo que pareça um bicho de sete cabeças quando estou na frente de uma plateia. Reconhecer que deixo comida no prato ou que irrito a minha irmã de vez em quando é mais difícil, pois estaria desmascarando para mim mesma as minhas deficiências. Deixar a cadeira no quarto ou esquecer a porta do guarda roupa aberta irrita a minha irmã. Permitir que a Cisse entre dentro de casa e isso irrita o meu padrasto. Por menor que pareça esse detalhe isso contribui para que se reforcem as minhas imperfeiçoes.
           Entretanto, antes de reconhecer essas atitudes negativas eu preciso entender o motivo pelo qual tenho agido de uma determinada maneira. Eis que passo a trocar a crença pelo saber. Quando me esforço para perceber que não sou apenas a estudante que tem ótimos trabalhos sobre a miséria, mas também sou aquela que deixa a comida no prato. Por menor que pareça esse detalhe, imaginei todas as vezes que já deixei comida no prato e que isso poderia ter alimentado uma comunidade. Imaginei também todas as vezes que reclamei por não ser o que eu queria comer e que uma comunidade gostaria de ter aquilo para comer. Mais triste do que crer na miséria no mundo é me revelar a ingratidão que sentia.
             Naturalmente, me entristece ver o desrespeito do ser humano para com outro ser humano. Mas, e quando eu desrespeito o outro por que não reconheço que faço isso? E por tantas vezes por que me senti até feliz com essa atitude? Eu deveria no mínimo estar envergonhada. Eu deveria no mínimo me esforçar para mudar essa situação. E por que quase sempre repito o mesmo erro ao invés de ir contra a minha natureza ainda imperfeita?
             Eis que o saber é também responsabilidade. Como deveria prosseguir dentro de minha casa quando reconheço minhas atitudes que desrespeita o meu semelhante? Contribuir para a harmonia dentro de meu lar nunca antes me pareceu tão essencial. Insistir no erro a partir de agora seria infantilidade da minha parte.  Não respeitar o sentimento do meu padrasto ou de minha irmã. Logicamente que muitas vezes eles não respeitam o meu sentimento, mas eu sei que posso fazer eles me entender através do amor e não por infantilidade.
              Saber então, em minha opinião, é mais do que compreender a pessoa que sou ou o que faço de bom e de ruim. É também reconhecer minhas atitudes. Eu sou uma boa irmã, mas às vezes a irrito com esses detalhes. Eu sou uma boa filha, mas às vezes irrito meus pais. Eu sou uma boa aluna, mas às vezes não tenho boas atitudes em detalhes que fazem toda a diferença.
              Deste conhecimento, preciso admitir que o saber torna-se uma tarefa indispensável para a minha autonomia e a minha evolução consciente. Entretanto, trás consigo a responsabilidade do ser – ser melhor, ou então um pouco melhor do que já fui ontem. Isso porque quanto mais eu sei mais sou cobrada pela consciência uma atitude amadurecida perante o meu semelhante.
              Muitos ainda não chegaram a ter oportunidade desse conhecimento, como muito que conheço. Os que agora têm a oportunidade poucos são os que abraçam o saber por conta desse dever. Muitas vezes eu não quis abraçar esse dever. Mas, o saber tem me permito se libertar da condição inferior em que eu estava anteriormente, como o de não respeitar o próximo, em detalhes que fazem toda diferença. Por isso tenho assumido as consequências do saber. As vezes ainda tenho medo de assumir como quando não concordo com a pena de morte em quaisquer circunstâncias.
             Diante de um mundo onde o ser humano ainda se encontra em "desamparo mental", e por conta disso as vontades sãos submetidas muitas vezes ao desejo alheio, saber é um caminho mais árduo do que apenas crer sobre aquilo que nos é imposto. É abnegar das minhas deficiência em prol da minha evolução e da evolução do próximo. É assumir um compromisso com a vida sempre em acordo com as Leis do Universo. É não ficar em cima do muro diante das provas que nos testa a sabedoria já adquirida.
Cris Roberti
Enviado por Cris Roberti em 30/08/2017
Reeditado em 30/08/2017
Código do texto: T6099529
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Cris Roberti
Lontras - Santa Catarina - Brasil, 25 anos
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Cris Roberti