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AMOR, ESTRANHO AMOR

   Não. Esse texto não é sobre o filme erótico da Xuxa lançado nos anos 80 que usa o mesmo título de abertura qual escrevi. É uma crítica a forma estranha de amar de alguns cristãos da atualidade, em que inconscientemente ou de forma consciente apoiam o “amor” apenas aos que são do seu grupo, ou de sua linha de fé trazendo divisões ao invés de união, e vivendo uma ideia exatamente oposta Àquele que dizem ser seu fundador. Convido ao que ler a refletir, e em último caso, leiam este texto do mesmo modo que costumam ler a bíblia: fiquem apenas com a parte que te infla o ego e te conforta e desprezem todo o resto. Assim não se ofenderás com o conteúdo.
Leiam este relato e me digam se existe uma forma mais estranha de se amar alguém:
   Uma certa pessoa, religiosa, de muita fé, que não perde um culto, que fala línguas estranhas, que vive no manto e no mistério 24hs por dia, estar vindo sozinha da igreja depois um “culto abençoado” e faltando poucos metros para chegar em sua residência é abordada por uma marginal já conhecido naquela localidade que lhe anuncia assalto. O marginal, a encurrala, pede seus pertences, e ao notar que esta pessoa trazia poucos objetos de valor, desfere um soco na cara desta abençoada, e cobre-a de chutes e ponta pés, enquanto esbraveja milhares de palavrões pelo infortúnio de não conseguir mais objetos de valores daquela pobre dizimista que acabara de fazer todo seu investimento numa campanha de prosperidade recém lançada em sua igreja. Quando o marginal estar a se afastar, a pessoa levanta-se do chão, sacode a poeira, e fala para o ladrão em voz alta: “Ei, Jesus te ama! Ele quer te salvar, te curar, te batizar e te levar para os céus! A partir de hoje eu vou te botar nos joelhos, vou levantar um clamor por sua vida, vou fazer campanhas por ti, e tenho certeza que um dia você vai ser meu irmão em Cristo. Tenho certeza que logo vamos sentar juntos no mesmo banco da igreja e sair juntos a evangelizar...” Então essa irmã abençoada vai pra sua casa, no dia seguinte vai a igreja, conta o grande livramento que recebeu e como ainda teve “amor” por aquela alma a ponto de evangelizar o próprio bandido que a martirizava. A irmãzinha depois daquele dia, toda vez que recebe algum tipo de oportunidade cita aquele marginal em suas orações públicas e pede para Jesus salvá-lo, e trazê-lo para o seu redil, se referindo a própria igreja que esta frequenta. É sabido que aquele marginal já praticou os mais diversos crimes, naquela comunidade, inclusive homicídios e estupro de vulneráveis, mas aquela irmã desenvolveu um enorme amor por aquela criatura e ama-o do fundo do coração a ponto de desejar sua conversão (apenas) em sua igreja.
  Poucos dias depois a mesma irmã sai a evangelizar no bairro. Toda empolgada, se preparou, orou, jejuou, não teve relações com o marido na noite anterior pra aumentar a unção, e diz pra todos do grupo que estar pronta pra enfrentar qualquer capeta que surgir na frente dela. Depois de muito andar, decide bater na porta de um conhecido cidadão do bairro. Professor, pesquisador, estudioso das mais diversas culturas e ciências, que não faz mal a uma mosca, e dedica a maior parte do seu tempo em pesquisas científicas ou em projetos sociais para o seu bairro, arrecadando alimentos, roupas e procurando meios para que os menos favorecidos tenham uma vida mais digna. A irmã bate em sua porta, pede pra entrar e disse que queria falar do amor de Deus para este. Ele muito educado, abre a porta, ouve com toda paciência sem interromper nem interrogar, em respeito a fé alheia. A irmã queria mais. Queria debate. Queria fogo. Queria mostrar que estava toda-toda no manto e no mistério. Queria algo pra falar durante meses no seu círculo de fé. Queria medir forças com aquele homem. Queria mostrar o quanto o seu Deus era poderoso e grandioso...Este queria apenas que ela encerrasse o seu discurso e fosse embora. Ela se alongava, se estendia, fazia perguntas ofensivas e da vida pessoal do sujeito, sempre levando as coisas ao lado pejorativo, desprezando-o por este não ter Jesus, segundo seu ponto de vista. Achando pouco, ainda chamou outros três “evangelizadores” de sua equipe para dar uma surra de bíblia naquele homem. O silencio e respeito dele em relação a ela, fez com que esta achasse que estava vencendo o discurso. Na verdade era um monólogo pois ela falava só o tempo inteiro e ele apenas meneava a cabeça em sinal de atenção e pra não descer ao nível dela. Depois de 20 longos minutos de discursos e insultos verbais, o educado professor pediu apenas que esta respondesse biblicamente duas ou três perguntas referentes a sua fé em textos que estavam escrito na bíblia. A senhora hesitou, ficou brava e disse que aquelas citações não eram bíblicas. O rapaz, calma e tranquilamente abriu os versículos na bíblia da própria crente e os leu para ela. Aproveitou, e em menos de 5 minutos explicou seu contexto histórico, cultural, sociológico, filosófico e fez uma comparação aos dias atuais utilizando o próprio texto lido, na bíblia da própria crente como base de discurso. Ela e seus parceiros ficaram furiosos. Chamaram ele de filho do capeta, enganador, endemoniado, anjo das trevas, que as ações de bondade dele no bairro era tudo farsa, e que no fundo Deus sabia que ele não passava de um herege destinado a perdição. Disse a ele que a partir daquele dia iria por ele “no joelho”, jejuar e orar para Deus fazer justiça, pois ninguém toca no ungido e sobrevive pois ele mexeu com a pessoa errada e quem meche com crente ou se converte, ou corre ou morre, e uma das três coisas iria acontecer com ele, e que Deus ia pesar a mão na vida dele pois ele rejeitou a “palavra de Deus”. Saiu da casa do sujeito, soltando fumaça pelos narizes, bateu o portão e relembrando ao sujeito que Deus iria entrar com providencia...O único mal que aquele homem fez, foi ler a bíblia e explicar para ela. Coisa que ela e o líder dela não faziam ou faziam de forma distorcida. No mesmo dia foi ao círculo de oração, apresentou a causa ao “Senhor” e desde então tem horado por justiça ao “Deus todo poderoso” para que aquele herege sofra as consequências. Em seu coração, alimenta uma certeza diabólica que um dia ainda vai saber que aconteceu uma tragédia na vida daquele homem ou de sua família e ela vai cantar o hino da vitória como Miriam cantou ao ver os egípcios mortos na beira da praia....
   Amor, estranho amor...Que abençoa quem lhe faz mal, e amaldiçoa quem lhe faz bem. Que roga benção ao que só traz mal a toda sociedade e que roga pragas aos que produzem o bem social mas que não concordam com a fé cega, desprovida de ações equivalentes. Amor estranho amor, que demoniza a ciência e o que de mais proveitoso o ser humano possa produzir, diz que o diabo é quem governa esse mundo, e apenas aguarda sem nada fazer pelo dia do juízo final. Amor, estranho amor, que o fanatismo religioso produz aos montes diariamente, convertendo pessoas a um discurso banal, e não a um estilo de vida equilibrada. É o Deus dessas pessoas quem produz esse tipo de amor, ou é o “amor” dessas pessoas quem produz esse tipo de deus? Faz anos que me pergunto isso e ainda não achei respostas, pois em ambos os casos vi casos e mais casos iguais, desde o servo que a tudo obedece até aos chefões que a tudo manda, dentro desses recintos, tidos como “casa de Deus” .
  Já disse em outros textos, que não temo a aniquilação de nossa espécie por pragas ou fenômenos da natureza, por mais poderosos que eles sejam. Depois de um cataclismo, as pessoas parecem se importar um pouco mais umas com as outras, nem que seja pelo prazer de ver que há outros em situações piores que a deles. Temo pela inversão dos valores, pela anarquia geral, pelo falso caráter, pelo falso moralismo, pela falsa espiritualidade, pela falsa religiosidade. Não temo no sentido de ficar preocupado ou apavorado. Temo no sentido de lutar para criar “antídotos” e “muralhas” sólidas para conter esses males. O melhor remédio ainda é a prevenção. A fé cega misturada ao desejo de ascensão entre os grupos tem sido a causa dos mais diversos males em nossa história desde os tempos mais remotos. A busca equilibrada entre ciência e espiritualidade tem feito coisas fabulosas pelo homem.
   Relatos como os que citei acima, acontecem diariamente em todos os cantos do planeta. Do subúrbio as grandes metrópoles. Em países onde o cristianismo gospel tem ganhado forças, esse fenômeno tem crescido de forma assustadora. Diariamente vemos crentes das mais diferentes igrejas convertendo cristãos ao cristianismo, trazendo pessoas de uma igreja a outras igrejas sem nada de bom produzir em seu ser interior. Levando evangelhos que se adaptam a todo tipo de gosto e estilos e todo tipo de bolso. Não há interesse em mudança pessoal ou social como um todo. Há interesse apenas no crescimento daquela agremiação qual se propaga e seus rendimentos financeiros. As grandes lideranças televisivas explorando seus fiéis com taxas insuportáveis cada vez mais pesadas, para que estes venham sustentar seus sonhos de grandeza, conquistar suas aspirações e influencias políticas, manter seus programas televisivos funcionado enquanto os tais programas servem principalmente para que os tais venha usufruir de bens altamente cobiçados enquanto os fiéis pagam suas contas. Iates, fazendas de gado, imóveis caríssimos e aviões particulares estão entre os pertence daqueles que vivem do comercio da fé e da ludibriarão alheia, tornando sacro qualquer objeto comum para ser arrematado nos cultos como em leilões, e tornando profana aquilo que há de mais sagrado entre os povos: a boa-fé nas relações pessoais.
    Como em um tráfico de entorpecentes, só há quem produza, por que há quem use, e só há quem use por que alguém produz ou comercializa. Assim segue lideranças e liderados, numa simbiose, num metabolismo doentio ao qual chamam comumente de corpo de cristo e santa noiva do cordeiro. Se esse título é verdadeiro, deve ter sido num passado distante pois do jeito que as coisas andam, estar mais para o inverso de noiva e esposa.
   O estilo de fé ensinado inconscientemente nas igrejas, tem ensinado aos seus fiéis a se opor e perseguir a tudo e todos que não concordem com sua linha de pensamento ou denominação a qual faz parte, e se juntar a qualquer pessoa que verbalmente diga aceitar seu modo de crença ou venha se filiar ao seu grupo, mesmo que esse venha ser um devasso confesso, um usurpador do patrimônio público desviando milhões de reais do dinheiro do povo e mesmo assim levantando algum tipo de bandeira denominacional dentro do congresso e púlpitos de suas igrejas. Julgam o caráter e a vida pessoal quando deveriam falar sobre fé, e usam a fé para esconder a falta de caráter mediante ações indecorosas na vida pessoal de seus seguidores. Se for do mesmo grupo e mesma fé pode tudo pois Deus perdoa tudo e entende tudo. Se não for do mesmo grupo ou mesma fé, se possível retiram até o ar dos pulmões do opositor.
  A coisa tem ficado tão séria, que em ambientes de fanatismo, é possível conseguir qualquer tipo de favor individual ou coletivo desde que você diga: eu creio e sirvo ao mesmo Deus que tu serves. Pronto! Essas são as palavras magicas para se conseguir o que se quer em certos ambientes públicos e privados nesse pais “laico”, desde favores sexuais de fiéis inadvertidas e também indecorosas, até conseguir um curral eleitoral inteiro por força de imposição do líder maior em períodos de eleições. Não importa se você já se envolveu em vários escândalos financeiros ou sexuais, se tem mandado de prisão em aberto, se a própria CIA, FBI ou KGB estar em sua cola. Quer obter algum tipo de benefício nesses ambientes? Diga em alto e bom som que serve a cristo, que aceitou a Jesus e que vai morar nos céus, que era um perdido e Jesus achou, etc, etc, etc.. Não importa o que você faça ou como viva sua vida. Em um estado “laico” como o nosso, um criminoso cristão, será muito mais bem aceito e recebido que um ateu justo e que respeita a todos. Nossa laicidade ensina que é uma ameaça gigantesca, semelhante a manter um terrorista em sua vizinhança estar com uma pessoa que não acredita no Deus cristão ou suas representações aqui na terra, apesar de este não religioso ter um estilo de vida integro superior a qualquer cristão. Esse povo acredita ser o quase o próprio Deus encarnado, qualquer pessoa que use uma bíblia, fale besteiras, engane o povo e tenha uma vida totalmente imoral. Não importa seu estilo de vida, importa a bandeira de fé que você decidiu defender ou não defender. Assim caminha nossa laicidade. Cristianismo com sinônimo de status e não como estilo de vida. Certos animais se conhecem cheirando o traseiro um do outro. Certos cristãos fazem a mesma coisa, pois se conhecem por meio das “cagadas” que fazem ou dizem e não pelo estilo de vida equivalente ao ensinado por Cristo.
  O que dizer das lideranças da bancada gospel em nosso planalto envolvidas nos mais diversos escândalos? Diga apenas que é mentira, que é perseguição do capeta e pronto! Ninguém vai ter a ousadia de comparar, investigar ou falar mal, principalmente se o tal for um “ungido” e tiver sido derramado sobre sua cabeça algum óleo de peroba barato. É carimbar passaporte pra o inferno, se falar desses homens. Assim os que votaram neste, diz entregar tudo nas mãos de Deus...
  De uns 20 anos pra cá, é sabido que tem aumentado cada vez mais o número de lideranças religiosas, inclusas em folhas de pagamento do estado, do município ou da federação, ganhando sem trabalhar como se fossem funcionários públicos ou ocupando cargos de confiança. Alguns desses, são tão cara de pau, que chegam a contar na própria igreja sobre a “benção” que ganhou de papai do céu, e que só vão lá assinar o contracheque e a benção cai na conta...Vagabundos!  Enquanto alguns de seus fiéis ralam o mês inteiro de sol a sol para deixar parte dos seus salários nessas igrejas, esses ainda tem a ousadia de debochar do povo dizendo que ganham sem trabalhar, usando do dinheiro público dentro e fora da igreja para ambição própria. É muita malandragem! Em algumas cidades pequenas, esses “ungidos” vivem a ameaçar candidatos, e dizer que tem o poder de decidir as eleições e virar o jogo, caso tal candidato não ceda alguns de seus caprichos em período eleitoral. Vermes disfarçados de santos! Para quem tiver a ousadia de pesquisar, verás que em todo município vai encontrar pelo menos um desses ratos inclusos na folha de pagamento ou usando terceiros para não serem descobertos. Além do que tira do povo na igreja, tira do povo nas ruas. A depender do estilo de hierarquia e ministério, em igrejas com até 200 pessoas, esses homens chegam a faturar mais de 12 salários mínimos por mês sem nada fazer, e mesmo assim ainda sugam das tetas do poder público, se beneficiando de tráfico de influência ou verbas imerecidas. Engraçado que os fiéis mesmo sabendo, desenvolve um amor, estranho amor, por esse tipo de gente e quando falam destes chegam enchem a boca, pois veem nisso uma prova de que Deus estar no negócio, fazendo prosperar seu ungido. Uma pessoa que se declara sem religião mas faz tudo corretamente o tempo todo, será hostilizado por esses fiéis e diz que este tem de aceitar Jesus e confessar seus pecados pra poder ser salvo. Dá pra entender? Melhor ver direito quem precisa confessar o que.
   Entre o habitual dizimo, ofertas diárias, ofertas para manter programas televisivos, ofertas para bancar viagens internacionais, venda quase forçada de bugigangas ungidas e até o TRIZIMO, já anunciado em alguns desses recintos, alguns fieis chegam a deixar quase 50% de sua renda mensal. Já não basta a alta carga tributária que pagamos em nosso pais, os coitados ainda deixam metade do que ganham com esses “ungidos” bem intencionados. Aos que não tem como pagar financeiramente, encube-se a este, trabalhos voluntários e a missão de trazer outros “perdidos” á casa de Deus. O estranho amor dos fieis impede que se veja isso, hostilizando qualquer um que até na própria bíblia mostre que isso não confere.
   Se algum dia acordarem, perceberão que rótulos e placas denominacionais são apenas meios para confundir os fies em meio a tanta oferta. Verão que não se precisa muito estar perto de do ser superior e que não é igreja que dar bom caráter a ninguém, mas qualquer pessoa comum pode mostrar um bom caráter em qualquer lugar em que esteja, se este for um dos seus princípios de vida. Boa fé e boas intenções estar mais relacionado a quem você é do que ao ambiente em que você frequenta.
   Num pais de cristianismo de amuleto e laicidade não respeitada, tem de usar o bom senso para não ser mais um dos que adotam a forma do amor, estranho amor.
Texto escrito em 7/1/2017
   *Antônio F. Bispo é Bacharel em Teologia, Estudante de Religião em Filosofia e Capelão Ev. Sem vínculo com denominações religiosas desde 2013.


Ferreira Bispo
Enviado por Ferreira Bispo em 07/01/2017
Código do texto: T5875083
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