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Éramos Cinco

Li hoje numa postagem do facebook que nossa mãe é o único despertador que a gente não xinga, porque mãe costuma acordar os filhos falando baixinho e algumas até com cafuné.
Minha mãe não me acordava assim não! Abria a porta com tudo e gritava:
_Vamos, vamos, vamosssssssssss  levantarrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!
Acendia a luz na minha cara, na minha e nas das minhas irmãs, e xingasse prá ver se a gente não dançava um samba logo cedo.
Era aquela fila pro banheiro, três meninas prá lavar o rosto, escovar os dentes, fazer xixi e outras cossitas mais...
Ai gente numa dessas manhãs apressadas, eu entrei no banheiro primeiro e estava escovando os dentes quando minha irmã do meio começou a bater de leve na porta e me chamar:
-Cássia me deixa entrar tô passando mal, tô com dor de barriga!
Preciso dizer que sou e sempre fui chata, e que com minhas irmãs e especialmente a Silvana eu era mais ainda e só respondí:
-Ah menina não me enche o saco logo cedo, aguenta que eu já tô saindo!
E a coitada começou a chorar na porta do banheiro, eu já ia abrir mas abrí a porta a jato quando escutei o berro da minha mãe:
-Abre essa porta gorducha!
Dois segundos porta aberta minha irmã entrou igual um tiro, sentou no vaso e eu continuei minhas higienes (a pia era bem em frente ao vaso sanitário), em dado momento minha irmã levantou, agachou prá vomitar no vaso e mirou o loves forever no meu pé que acabou recebendo o resultado da dor de barriga!
Gente, pensa no escândalo que fiz quando sentí aquela coisa quente no meu pé escorrendo pelos meus dedos! Eu era e ainda sou muito nojenta e fiquei louca! Agarrei minha irmã pelos cabelos, nisso minha mãe entrou no banheiro com a havaiana na mão, encheu minha bunda de alegria, me enfiou debaixo do chuveiro e foi acudir minha irmã.
Estou escrevendo e rindo aqui porque a cada vez que em família lembramos disso é só risada.
Mas nem de perto tínhamos e ou exigíamos essas frescuras da moçada de hoje.
A gente se arrumava prá escola e nem pensar em faltar ou ir sem o uniforme que aliás era outro detalhe bem caprichado da minha mãe.
Ela costurava nossas roupas e quando meus peitinhos começaram a crescer com nove anos de idade ela fez umas camisetinhas de tecido fino para eu usar por baixo da camisa de poliéster do uniforme e assim eu me sentia mais confortável e não chamava atenção para minhas alterações de corpo precoces.
Outra peculiaridade da minha mãe era quanto ao comprimento das minhas saias do uniforme, jamais mas jamais mesmo ela fazia uma barra abaixo do joelho, eu era gorda e ia de saia curta prá escola.
Minha mãe fazia até nossas calcinhas bem caprichadas e resistentes, a primeira calcinha comprada pronta ganhei de uma tia quando tinha oito anos e era azul escuro meio transparente e com renda na frente. Eu achei o máximo, minha mãe não aprovou muito porque o modelo era de mulher e não menina, mas mesmo assim fui com a calcinha nova na escola e estava toda faceira e cheia de trejeitos me sentindo uma diva quando sinto igual uma estilingada no lombo! Era o mardito elástico da calcinha que tinha arrebentado!
Meu Deus! O que eu vou fazer? Se levantar a calcinha cai e se ficar aqui uma hora ou outra vou ter de levantar...Que que eu faço?????
Tomei coragem e levantei o braço para pedir permissão de falar:
-Dona Leny...( minha professora)
Ela fez sinal para que eu fosse até sua mesa, fechei os olhos e antes de levantar disfarcei e segurei a calcinha na saia que era curta e fui até a mesa dela com a bunda quase de fora e quase chorando expliquei o que tinha acontecido.
Ela me levou a secretaria da escola e chamou uma substituta prá me ajudar e a primeira coisa que a moça me perguntou foi se eu tinha tomado banho naquele dia, ainda bem que sim e não estava cheirando tiotio sem lavar, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tudo resolvido, voltei a sala de aula e no recreio meus coleguinhas perguntaram o que tinha acontecido, eu inventei uma dor de barriga e confesso que por tantas vezes em minha vida dei essa desculpa que meu intestino ficou rebelde e me prega peças constantes.
Ela fazia nossos biquínis, roupas para brincar carnaval e vestidos todos iguais e a gente nem ligava, o que a gente queria era se divertir e achávamos tudo lindo!
Quando voltávamos da escola cada uma tinha que ajudar nos serviços de casa e depois a tarefa da escola, e quando a gente terminava tudo e dizia:
-Mãe, já terminei de fazer isso, aquilo e aquilo outro, ela respondia:
-Não fez mais que a sua obrigação!
E quando era época de piolho na escola? Senhor! Tenho trauma daquela bomba de detefon até hoje, e da latinha de neocid em pó também, kkkkkkkkkkkkkk
Ela levava a gente pro fundo do quintal e mandava ficar quieta e enchia nossas cabeças com inseticida e depois enrolava fraldas, mas o pior era quando o veneno começava a fazer efeito e os piolhos ficavam loucos naquela correria, a cabeça queimava, ficávamos desesperadas!
Depois para tirar as lêndeas aquele pente fino terrível arranhando nosso couro e quando a gente gritava levava um tapa, afinal quem mandou pegar piolho?
A comida da minha mãe era tão boa... A gente só comia carne aos domingos e olhe lá, mas nunca nos faltou o prato cheio na hora da refeição, verduras, legumes, ovos e miúdos de boi.
O arroz e o feijão dela eram demais, as sopas, polentas, o molho de tomate que as vezes era ralo mas era tão gostoso, sinto o sabor dele até hoje em meus devaneios.
Minha mãe fazia gelatina com a água do cozimento da beterraba e a gente adorava...
Quando ficamos mocinhas e ela começou a trabalhar para ajudar meu pai, foi quando também começamos a ter frutas em casa e bolacha maisena, iogurte experimentei o primeiro com sete anos de idade na casa da minha vó que minha tia Regina tinha comprado.
Depois da janta meu pai pegava o violão e cantava guarânias com minha mãe... Índia de Cascatinha e Inhana quando ouço é com as vozes dos meus pais, Nelson Gonçalves é meu pai cantando, Perfídia, somos nós a família cantando.
Confesso que em minha infância e adolescência nunca sentí falta do que existia além do portão da minha casa, eu era tão feliz...

Quando nasci minha mãe tinha quatorze anos, nasci em janeiro e ela fez quinze anos em maio, e era casada com meu pai na igreja e no cartório.
Meu pai morreu nos braços dela após vinte e três anos de casados, ela ficou viúva com trinta e seis anos.
Hoje tenho cinquenta e quatro e ela sessenta e nove anos, eu tive e tenho uma mãe menina!
No meu trabalho quando menciono minha mãe as vezes meus colegas se espantam por eu ainda ter mãe viva, pois muitos deles bem mais jovens já não as têm, eu respondo bem rápido que tenho sim!
E a cada vez que isso acontece eu estremeço por dentro de medo de perde-la, e ela continua a mesma mandona de sempre, graças a Deus!
Constelação Unica
Enviado por Constelação Unica em 13/09/2017
Reeditado em 14/09/2017
Código do texto: T6113406
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Constelação Unica
Bauru - São Paulo - Brasil
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