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Sonhos bobinhos, piche e muito azar

Certas lembranças, seria bom se pudéssemos guardá-las para sempre. Sabendo que isso é impossível, confiando apenas nos arquivos da memória humana, escrevemos. Sim, vai ver por isso escrevemos tanto: para não esquecer! Situações como, no meu caso, por exemplo, o show de despedida de uma banda querida.

Difícil explicar em poucas linhas o que se sente ao realizar um sonho, por mais bobinho que seja. Vi-me com quatorze anos, vivendo em São Luís do Maranhão, louca por criar asas (um dia só!) e poder voar para o Rio de Janeiro, cidade em que essa banda querida se apresentou numa de suas raras visitas — talvez única — ao Brasil. Lógico que se eu morasse no Rio, na época, dificilmente conseguiria permissão da mãe para ir ao show, e como desobediência é parte de muitas adolescências, talvez tivesse ido assim mesmo: com ou sem consentimento. Se bem que sempre preferi o time dos ‘caretas’. Vai ver por isso mesmo ainda estou por aqui “vivinha e bulindo”, como diz a minha tia.

Pois bem, passados mais de 20 anos, vi esse meu sonho se realizar naturalmente, ano passado, e com que emoção! Pena que foi o último show da banda, que, depois de 25 anos de existência, decidiu se separar, e em grande estilo. Estive em um dos shows da turnê de despedida, na cidade mais antiga da Alemanha, Trier, fundada pelos romanos com o nome de Augusta Trevorum no século 16 a.C. Resquícios dos romanos estão ainda por toda a cidade: restos de Termas e o mais famoso monumento da cidade, o imenso portal denominado Porta Nigra.

Da primeira vez em que estive lá, uma senhora contou uma lenda sobre o significado da expressão alemã ‘Pech haben’ (ter azar, má sorte). Antigamente, quando a cidade era protegida por muros, os soldados de Trier deixavam o primeiro portal aberto, se posicionavam no alto das torres da Porta Nigra e ficavam esperando os invasores se amontoarem na parte interna rente ao segundo portal, daí fechavam o primeiro e jogavam piche, resina negra e pegajosa derivada do alcatrão ou da terebintina (segundo o Houaiss), substância que, em Alemão, também se chama ‘Pech’. Para os invasores que recebiam o piche (borbulhando!) na cabeça, era preciso mais do que sorte — um milagre! — para sair vivo dali. Daí o povo passou a usar “Pech haben” (levar piche) para situações em que alguém teve muito azar.

Pois bem, comecei lembrando da minha banda querida e acabei nos portões de Trier... Desculpe, estou num momento de escrever aqui só para relaxar, sem pensar muito. Quanto à lenda do piche, se é mentira, culpa da senhora lá! Apenas recordei aqui o que ela contou.

A você que me leu, boas companhias e muita sorte ao longo do dia, pois piche na cabeça (ou azar) ninguém merece! — se bem que, no caso de ditadores e políticos bandidos... "Cala-te boca!" Um abraço fraterno!



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Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 23/02/2011
Reeditado em 23/02/2011
Código do texto: T2809483
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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