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Uma língua ‘mela’ a outra, as duas se entrelaçam e dão um nó!

Isso mesmo! Portunhol’ e ‘Esparguês’ ou Português e Espanhol.

Avaliando meu nível de aprendizado da Língua de Cervantes, percebi o tamanho do meu ‘embananamento’ ao empregar certos pronomes. Fiquei pensando se isso seria pela idade —alguns especialistas dizem que perdemos muito de nossa capacidade de aprender à medida em que envelhecemos, e eu só comecei a estudar (pra valer!) Espanhol ‘isturdia’... —, ou seria pura falta de atenção, ou ambos. Notei que boa parte dos problemas aparecem em construções com ‘tú’, ‘vosotros’ e ‘usted’.

Por serem línguas irmãs, românicas, fiquei me perguntando se esse padrão de erro teria algo a ver com a morte anunciada do ‘tu’ e do ‘vós’ no Português coloquial do Brasil, e com a mistura entre o ‘tu’ e o ‘você’. Outro dia,  folheando um livro de Português para estrangeiros, soube da tendência para o ‘tu’ e para o ‘vós’: estas formas ainda sobrevivem em Portugal, mas estão com os dias contados no Brasil, segundo os autores da obra consultada.

Quando pequena, lembro-me de que se usava muito o “tu” no lugar onde nasci: São Luís do Maranhão. Está certo que muitos sempre conjugaram os verbos incorretamente: ‘Tu foi’, ‘Tu veio’ e ‘Tu deixou de ir’. Minha mãezinha, porém, e outras pessoas com quem aprendi a falar, e depois a escrever, não sofriam desse mal. De modo que, desde pequena, foram me acostumando a dizer: ‘Tu foste’, ‘Tu vieste’, ‘Tu deixaste de ir’, e eu não me equivocava com o ‘s’ no final de certas conjugações, indicador do ‘vós’, já raro naquela época: usado só na Igreja e em contextos muito formais (‘Vós fostes, viestes e deixastes de ir)’.

Como quem sempre manda é quem pode ($$$!), também impulsionado pelas grandes emissoras de rádio e televisão, não demorou muito para o padrão-Sudeste ganhar terreno e solidificar certas construções no terreno das falas de todo o Brasil.

Teve um tempo em que usar corretamente o “tu” e seus derivados era visto como coisa de pedante, de modo que, em certas situações, para não parecer um E.T., mais sociável era usar o ‘você’ e fazer a mistura peculiar (‘Ei, VOCÊ, tenho uma coisa pra TE contar!’). Já que todo mundo fala errado mesmo, pra quê correr o risco de se tornar impopular? Problema é que quando se começa a falar errado, os erros vão se solidificando e não é fácil corrigi-los depois.

A confusão só cresce com os imperativos. Quem não recorda da canção que lançou a dupla Leandro e Leonardo para todo o Brasil? “Em vez de você ficar pensando nele, em vez de você viver chorando por ele, pensa (tu) em mim, chore (você) por mim, liga (tu) pra mim, não, não liga pra ele, pra ele, não chore por ele...”

Eu arriscaria uma correção que, talvez, tivesse acabado com todas as chances desta canção ter se tornado sucesso nacional: “Em vez de você ficar pensando nele, em vez de você viver chorando por ele, pensE (você) em mim, chore por mim, ligUE (você) pra mim, não, não ligUE pra ele, pra ele, não chore por ele...”

Com o ‘tu’ então... imagina!

Só passei a observar melhor meu próprio jeito de falar e escrever (em Português) quando comecei a estudar outras línguas. Algumas pessoas poderão dizer que esses detalhes são bobagem. Minha experiência, no entanto, só tem me provado o contrário: dominar a própria língua é uma grande vantagem, em qualquer área ou situação.

Ah, um lembrete: não sou especialista em Português ou Espanhol, apenas uma pessoa que se interessa por línguas e gosta de pensar sobre elas de vez em quando. Se encontrar algum erro, agradeço se me informar. Um abraço fraterno!

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Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 16/02/2011
Reeditado em 16/02/2011
Código do texto: T2796267
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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