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Cama, discussões e 'otras cositas más'

“Para ela a vida girava em torno de uma cama.”

Perde tempo quem prossegue a leitura esperando encontrar aqui alguma coisa erótica. Está certo que esta é uma das associações adultas mais freqüentes à palavra 'cama'. Confesso que foi essa também minha primeira idéia ao ler tal frase, ainda mais porque se referia à pintora mexicana Frida Kahlo, uma de minhas preferidas, diga-se de passagem. E Rosa Montero, em suas Histórias de Mulheres, foi a autora de trocadilho tão, digamos assim, safado... ops!! quis dizer pensado, bem-pensado!

Rosa Montero é colunista de El País e por isso mesmo deve conhecer muito bem as estratégias para pescar leitores. Embora a tenha lido há mais de três anos, amanheci outro dia com a dita frase na cabeça. Lembrei de uma pequena discussão que tive com uma menina sobre a classificação das obras de Frida como surrealistas — uso ‘menina’ só por ela ser muito mais jovem do que eu, nada pejorativo.

Lembrei a ela, à menina, que independente de como os estudiosos de arte classificarem sua obra, hoje ou naquela época, Frida dizia que eram resultado do que via e sentia, e de olhos bem abertos, e não de coisas do inconsciente, uma das marcas d`água do chamado surrealismo de André Bretton, Salvador Dalí e outros considerados surrealistas. “Não se trata de discutir classificação”, disse-lhe, “e sim de lembrar o que disseram os artistas mesmos sobre suas obras”.

Discussões vãs, evito ir por esses pântanos. Em verdade, o que não é fato comprovado, é pura crença ou opinião. Quem sabe, mais adiante, eu venha a ensaiar uma análise buscando argumentos que fundamentem essa minha opinião sobre a obra de Frida. Não por disputas tolas, claro, muito mais pelo prazer de ocupar-me com alguém que admiro.

Na vida, assim como na ciência, é sinal de loucura ou imaturidade sair por aí repetindo teses próprias ou alheias sem antes havê-las sequer tentado comprovar. Tem gente (graças a Deus) que não vai engolindo logo tudo o que ouve, e sim que reflete, questiona e fundamenta suas idéias antes de soltá-las por aí. E neste ponto, penso eu, tropeçam e caem muitos inexperientes.

Ao ver alguém caminhando em direção a um abismo, sinto-me na obrigação de pelo menos avisar do perigo. Alegria pelo fracasso alheio é veneno para o próprio coração, e para ficar em paz com a minha própria consciência, tento manter afastada a couraça da arrogância —  muito comum no meio empresarial e acadêmico —, e tento dizer, em claro e bom tom: “Ei, tem um abismo enorme bem ali à sua frente”.

Se a pessoa se faz de surda, seja por insegurança ou imbecilidade, fazer o quê, não? Por falta de aviso ou não, quedas são parte da vida. Se sobrevivemos a elas, e conseguimos tirar algo positivo, tornamo-nos muito mais fortes. Fabulosos os mecanismos que a mestra vida usa para nos educar!

Como está na moda dizer que TUDO foi a Evolução que nos ensinou — Terá sido mesmo? —, e estando eu insegura sobre isso, não posso afirmar que a Evolução nos ensinou a ter CUI-DA-DO. Essa palavra, agora, me soa de modo bem especial, pois associei-a a uma anedota que García Márquez contou num evento.

Disse que, ainda garoto, ia tranquilamente pela rua quando um padre, do outro lado, vendo que ele estava a ponto de ser atropelado por um homem que vinha em uma bicicleta, gritou: “CUIDADO!!”. O homem levou um susto tão grande que caiu da bicicleta, livrando o menino do atropelamento quase-certo. O padre, então, gritou para o garoto: “Você sabe o poder que tem a palavra?” E García Márquez concluiu a anedota dizendo: “Naquele dia eu soube!”.

Adoro histórias deste tipo. São tão puras, simples, e têm uma força capaz de passar por séculos sem perder a vitalidade e a magia. E com CUIDADO, penso que, quando alguém tem uma crítica a fazer (construtiva, claro) só deve externá-la se tiver pelo menos um fundamento.

Já aconteceu de alguém chegar pra mim e dizer que não entendeu algo que eu disse ou escrevi, coisa perfeitamente normal. Fugindo do princípio Quintaniano que prega “Se alguém não entende um texto, um dos dois é burro: quem leu ou quem escreveu”, minha tendência natural tem sido sempre perguntar à pessoa o quê especificamente ela não entendeu.

Venhamos e convenhamos, para que um diálogo continue, necessária é a condição que venha uma resposta do outro lado. Não vindo pois qualquer manifestação, só resta ao autor fazer como Pilatos e lavar as mãos do sangue de (inocentes?!) interpretações.

Sim, e a cama? Onde entra a cama em tudo isso? Ler na cama é bom, desde que não sejam leituras que nos roubem o sono. Sim, Rosa Montero joga com essa idéia de que, para Frida, a vida girava em torno de uma cama pelos vários anos em que ali viveu, e morreu, por conta de um acidente que lhe marcou profundamente. Talvez sua obra não tivesse nascido se ela não tivesse sido condenada à prisão da cama. E nessa prisão, paradoxalmente, Frida sentiu-se livre para soltar as amarras de seu pensamento, perdendo (talvez) o medo de experimentar.

Numa cama, Frida passou muitos anos de sua vida. E eu estive presa a uma por poucos dias só. Já faz tempo. Poucos sim, mas que valeram por todos os outros vividos até ali; dias em que tive que me colocar no lugar de pessoas que têm uma cama como morada fixa; dias em que tive que reaprender o básico do básico; dias de recomeço.

Não sei se numa cama me conceberam — isto também não importa aqui, Helena! —, mas numa cama de maternidade nasci, e numa de UTI re-nas-ci. E é por isso que em janeiro passei também a comemorar aniversário: o renascimento que a cama me trouxe, uma nova percepção das pessoas, e da vida. Um desejo de fazer novo, tudo, tudo de novo e muito melhor.



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Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 09/01/2011
Código do texto: T2718469
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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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