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Um Dia Depois do Ano


Um dia depois do ano, nada mudou em absoluto, tudo continua exatamente como antes, a casa desarrumada, a grama por aparar, o carro de sempre, os mesmos vizinhos, as dividas a pagar,  sapatos velhos, roupas velhas, velhos amigos, os poucos que ainda restam; nem mesmo os planos, ou as idéias, nenhum indicio de ânimo em qualquer direção que seja pôde ser percebido.
Foi assim no dia seguinte, depois de uma noite turbulenta em que muitos se embriagaram, dançaram, festaram, se divertiram e até morreram, nesta noite teve de tudo, orquestra filarmônica, samba, brega, teatro, piada e poesia; os fogos aos milhões incendiaram as madrugadas nas praças e litorais, depois apagaram-se, cessaram, silenciados, deixaram as horas seguirem o crepúsculo em direção a madrugada.
O ruído dos carros-sons não deram trégua, tocaram noite a dentro, foi o paraíso para os brincantes e o inferno dos  apáticos abstêmios, estes lutaram vorazmente contra as baladas, um cochilo e outro e novamente o ruído estridente invocava a insônia, travesseiro, cobertor, tampão de ouvido...tudo era inútil diante de tal oponente, nem lei, nem policia, nem mesmo os santos podiam impedir a farra na alta madrugada, tudo é permitido diante da exigência anônima.
Mas findou-se, restou então a nova ressaca, os estragos dos excessos, os carros batidos, delegacias, IML (Instituto Médico Legal), nada que não seja verdadeiramente necessário a uma boa e completa diversão, nada que o tempo invisível e indômito não apague. Recomeça-se, refaz-se, e tudo torna misteriosamente como antes, mesmos sapatos, mesmos amigos, mesmos vizinhos... Ano após ano, o mesmo espetáculo, o mesmo ator, o mesmo palco, só o que muda mesmo a bilheteria, esta não deixa por menos, é pagar e levar, cartão, cheque ou dinheiro, a diversão é garantida, uma espécie de elixir da boa vida, rejuvenesce, da ânimo, e os riscos fazem parte do negócio, enfim um negocio em que ninguém perde, gera diversão, rendas, postos de trabalhos, cargos de chefia, e outros benefícios, neste jogo povo e poder andam de mãos dadas.
Mas ninguém é de ferro, um pouco de diversão faz bem e relaxa, ninguém é super-homem, que a vida siga seu próprio curso, deixem as coisas acontecerem depois a gente arruma como pode e se não pode é só esperar que tempo leva, ir para onde, se não há um destino certo? Tome seu próprio rumo, façam suas malas e partam em direção ao seu próprio Éden.
Mas não se esqueçam do dia seguinte depois do ano.
nelson rodrigues corrêa
Enviado por nelson rodrigues corrêa em 01/01/2011
Código do texto: T2703232

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Sobre o autor
nelson rodrigues corrêa
Belém - Pará - Brasil, 49 anos
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nelson rodrigues corrêa