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Atos da Fala – os Dialógicos

Veja se você se encaixa em qualquer dos padrões de con.ver.sa abaixo:

PRIMEIRO PADRÃO: PELO TELEFONE

-- Alô! -- disse uma voz feminina.
-- Oi, minha querida! Aqui é Beltrana -- respondeu uma outra -- Semana passada eu te liguei porque queria te contar do Abelardo. Pois é, aquele cachorro que ...  -- E depois de quase uma hora de falação, e sem pausa (notável) para respirar: -- Pois é, Fulustreca, mas me conte alguma coisa de você, menina.
-- Aqui é a Fulana, Beltrana, não a Fulustreca. Estou tentando lhe dizer isso já faz mais de uma hora, mas você não ...
-- Fulana? Ai, meu Deus, que horror! Sim, mas como eu ia dizendo, Fulana, o Abelardo ... -- e continuou falando por mais uma meia hora. Estava tão envolvida na con.ver.sa que nem notou o silêncio metálico vindo em resposta do outro lado da linha.

SEGUNDO PADRÃO: PELO TELEFONE (O RETORNO)

Duas horas depois Fulana voltou ao aparelho e não se surpreendeu ao notar que Beltrana ainda estava lá di.a.lo.gan.do.
-- Pois é, Fulana, você foi tão paciente me ouvindo esse tempo todo. Sim, mas me conte alguma coisa de você! Agora eu quero saber de vo.cê!
-- Sério, Beltrana? Você quer mesmo sa.ber de mim?
-- Claro! Senão nem estaria perguntando, oras...
-- Faz tanto tempo que ninguém pergunta como eu estou... Eu nem sei o que responder... Acho que ...
-- Peraí que eu tenho que ir ali, bem ali acolá, viu minha filha, depois te ligo, sim? -- Truck! Tuuuuuuuuuu...

TERCEIRO PADRÃO: ENCONTRO PARALELO NA RUA PERPENDICULAR

Num domingo desses, ia Fulana caminhando pela rua. Manhã bonita, ensolarada, temperatura agradável -- nem quente nem frio, perfeito! --, quando avistou uma senhora que vinha. A senhora empurrava um carrinho de mão abarrotado de materiais de jardinagem e sorria.  Ao passar por Fulana, ela parou, deu bom dia e acrescentou:
-- Tão cedo e já fazendo caminhada, minha filha?
-- Ah, bom dia! Caminhada não, estou indo ... – tentou dizer Fulana, ao que a senhora:
-- Ah, mas isso não é assim tão ruim, não é mesmo? A gente faz o que tem que ser feito. E logo hoje que está fazendo um dia tão bonito! Tem nada não... Família a gente entende... Eu também já trabalhei muito hoje cedo. Graças a Deus me livrei de ter que cozinhar hoje que é domingo. Por causa do festejo da cidade vamos todos comer por lá. Pois é, e num dia tão bonito assim... -- Fulana continuava sorrindo, e tentava acompanhar o que a senhora lhe dizia. E ela, sem parar sequer para respirar: -- Eu não gosto de cozinhar. Graças a Deus por esta festa de hoje. Já preparei tudo o mais que tinha para preparar e agora estou indo cuidar das flores no ... – E continuou falando e falando. Fulana  ouviu atentamente até que a senhora decidiu encerrar a con.ver.sa: -- Pois é, deixa eu ir! Bom dia pra você, minha filha. Tchau! -- E se pôs de novo a caminho, empurrando seu carrinho de mão. Fulana não sabe dizer se a senhora sequer registrou quando ela lhe disse:
-- Tchau! Bom domingo para a senhora também ...
Fulana nem ao menos lembrava se conhecia aquela senhora. Devia ser por certo uma ‘vizinha’ um pouco mais distante, moradora da rua perpendicular à rua dela. Pois é, a vizinha perpendicular da Fulana passou-lhe em paralelo, sequer criando uma chance de descobrirem qualquer possibilidade de ponto comum...


QUARTO PADRÃO: AND THE OSCAR ‘SOFREDOR DO ANO’ GOES TO ..

-- Ai, menina, que hoje estou tão cansada! Passei a noite sem poder dormir ...
-- E eu, que faz três noites que eu não durmo?!
-- Uma dor-de-cabeça filha da mãe ...
-- E eu, com uma gripe de arriar os quatro pneus!
-- Eu não agüento mais meu emprego. O burro do meu chefe, a besta da supervisora ...
-- Pois é, e eu que trabalho por dois, pior que burro de carga! O salário que é bom ó, desse ‘tamaninho’...
-- Ainda tem o curso noturno. Semana que vem é prova final e ...
-- E eu, minha filha, tem o mestrado que parece não termina é nunca... Mas é isso aí! Tamos na luta, né?!

                                          *  *  *

Parece que a maioria de nós costuma di.a.lo.gar exatamente assim, seguindo padrões como os expostos acima. Muito pouca gente se dispõe a esperar o outro sequer terminar de formular suas idéias para poder emitir uma opinião. Eu também não sabia di.a.lo.gar. Tenho aprendido com meus jacarés, que não são lá muito de falar, mas pra morder...

Sim, eu tenho uns jacarés. O mais velho (e menor) deles vive comigo desde os tempos em que eu morei em Brasília. Mais tarde, quando viemos para a Alemanha, ele reivindicou a formação de uma família, dizia que se sentia só, que aqui fazia muito frio, que lhe faltava uma costela e pá-pá-pá... Resultado: agora, ao invés de um só, tenho três!

Eles andam sempre comigo e estão treinados a abocanharem-me um pedaço da bunda ao menor sinal de que eu esteja incorrendo em quaisquer dos padrões acima, ou parecidos...

Martin Buber, seguindo a linha de pensamento de Sócrates e Platão, definiu um DIÁLOGO como sendo “uma conversa, um encontro verdadeiro entre duas pessoas ' que buscam a verdade, e que por isso mesmo conseguem dizer o que realmente pensam, sem reservas e livres de ostentação, ou seja, sem querer causar ao outro qualquer impressão.' ” (*)

Pois é ... E é assim que eu tenho aprendido a di.a.lo.gar desde que vivo pras bandas de cá... E você? Em que nível está de aprendizado? Vai um jacarezinho aí? Mais uns dois invernos e dois deles estarão dando cria... He He He... Posso lhe mandar um via e-mail! :-)


Brincadeira, vice?! Um abraço fraterno e boa semana pra você que me leu até aqui!


(*) Citação traduzida livremente do original: “Zwiegespräch, als echte Begegnung von Menschen, ‘die sich einander in Wahrheit zugewandt haben, sich rückhaltlos äußern und vom Scheinenwollen frei sind’” --Revista Psychologie Heute, Oktober 2009, Título do artigo: 'Wie entsteht ein gutes Gespräch?', de Birgit Schönberger.

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 24/10/2009
Reeditado em 25/10/2009
Código do texto: T1884507
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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