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A Revolta dos Palhaços

Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu ludibriado por uma companhia “telecômica”. Principalmente quando o manso consumidor, todo mês, vê descontarem de sua conta o pagamento por um serviço que lhe é “entregue”, muito diferente do que lhe foi “vendido”. Com esse sentimento, - e contrariando o conselho bíblico: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira*” - fui para cama com o dia ainda claro. Queria ver se podia dissipar minha indignação durante o sono. Resultado? O que relato agora.

Sonhei que estava numa cidade muito parecida à retratada nos filmes do Batman. Na minha imaginação essa cidade assemelha-se também a Londres. Nunca estive em Londres, de forma que a imagino como um lugar em que num dia chove, no outro também. O céu, sempre nublado. O sol, esse parece uma pessoa que já não sai de casa há muitos anos, e que por isso mesmo perdeu a noção do tempo. Todo dia é feriado, nunca chega a segunda-feira para que ele (o Sol) possa voltar ao trabalho, iluminando e aquecendo um pouco as ruelas sombrias daquela cidade.

Bem no centro ficava o prédio mais imponente da cidade, a central da Companhia Telecômica. Eu tinha a impressão de que, dessa companhia, emanava todo o poder que fazia daquela cidadezinha uma escrava, prisioneira de seus caprichos. Pois, como bem dizia o Velho Guerreiro: “Quem não se comunica, se trumbica e como fica? Fica na saudade, fica”. Todo o poder de comunicação estava ali sendo representado por aquele prédio grandioso, cheio de cantos e pontas afiadas.

Ao mesmo tempo, nos subterrâneos, nas surdinas da cidadezinha, algo estava acontecendo. Uma revolução, lenta, estava se formando. Até que um belo dia, lembrando umas cenas do filme “V de Vingança”, todos os habitantes da cidade, aqueles que dependiam de alguma forma da Telecômica, recebem em suas casas, pelo correio, o kit palhaço: uma máscara com um enorme nariz vermelho e um sorriso aberto de orelha a orelha, uma indumentária com padrão de bolinhas coloridas sobre um fundo branco e babados vermelhos nos punhos da camisa, nas barras das calças e no pescoço. Ah, também uma peruca tipo “Bozo” – para quem não conhece o Bozo, pense num episódio da série Sex and The City, um no qual uma das “louquinhas”, para disfarçar os pelos brancos “na perseguida”, decide pintá-los de uma cor ruiva, bem chamativa. Se ainda não é suficiente, pense no palhaço dos Simpsons. Se mesmo ainda assim “estiver frio”, não faz mal, imagine a peruca como quiser. É um bom exercício tanto pra mim quanto pra você.

Sim, voltando ao sonho. Todos os habitantes vestidos então com o kit palhaço, puseram-se em marcha em direção ao prédio da Companhia. Cem mil? Duzentos mil? Um milhão? Não sei, só sei que era gente muita. Parecia até ataque de gafanhotos. Ninguém dizia nada. Todos se punham em marcha como um exército poderoso de zumbis. O comando não sei de onde vinha. Fato é que os grandes da Companhia - gente como aqueles generais de dez estrelas que Renato Russo bem definiu como os “que ficam atrás da mesa como o piiii!! na mão” - começaram a se perguntar porque o chão agora tremia. Olharam pelos olhos de vidro (sempre brilhando) dos mais altos andares do prédio e não puderam crer no que viam: tantos palhaços, tantos, e como se moviam rápido! Um temor e um tremor começou a tomar conta deles e suas pernas.

Não deu tempo de reagir, fugir nem nada. Quando deram por si os palhaços já haviam tomado o prédio. Um cheiro de dúvida intercalava-se como o odor de raiva que exalava dos palhaços, formando um gás pesado e impedindo o livre respirar. Depois de um longo silêncio, cara a cara com os grandes da companhia, um que parecia ser o líder dos palhaços ordenou aos colegas: “Preparem os instrumentos de tortura”. O pavor dos grandes mostrou-se ainda maior em suas pupilas, agora muito dilatadas. Um dos grandes falou: “Oh não, o que vão fazer? Oh não! Oh não!” E o chefe dos palhaços, para os colegas: “Tragam o contrato.” E agora, dirigindo-se ao grande-mor: “Assine, vamos! Aqui está estipulado: para cada reclamação de um palhaço a Companhia paga uma multa de 1 Milhão de Euros.” O grande-mor ainda sorriu desdenhoso, pois não podia acreditar naquilo. “Como? Nem morto assino isso!” E o chefe dos palhaços: “Como queira... Atenção, palhaços, começar tortura!” Enquanto uns palhaços tratavam de segurar os grandes, outros descalçavam-lhes os sapatos e meias “chulezentos” e outros vinham de lá com penas de ganso para fazer-lhes cócegas nos pés brancos e cheios de calos, dando início à tortura. Ao mesmo tempo, um outro palhaço de destaque - talvez o segundo chefe - trazia um aparelho, um tipo de modem, no qual uma luz amarela piscava indicando que não havia sinal de internet. O palhaço-mor falou: “Enquanto você não assinar o contrato e essa luz amarela continuar piscando vocês continuarão sendo torturados.”

O que se seguiu após alguns minutos, foram gritos de capitulação do grande-mor: “Oh, por favor, por favor, pare! Eu assino, eu assino e mando um técnico imediatamente para resolver o problema da falta de internet. Eu juro! Misericórdia, misericórdia, parem com a tortura.” Nesse momento os palhaços entraram em júbilo e começaram a gritar: “Palhaços, unidos, jamais serão vencidos! Palhaços, unidos, jamais serão vencidos!”

Nesse momento eu acordei. O sol, lá fora, ainda brilhava. É que nessa época do ano, por aqui, fica claro até por volta de 22 horas. Posso dizer que tirei um cochilo até gostoso. Acordei com a boca seca. Lembrei do sonho e comecei a sorrir. Fui até a cozinha beber água. A luzinha do roteador, a que indica “Sem Conexão”, continuava a piscar. “Fazer o quê, né?” – pensei – “Jogar uma bomba na companhia telefônica parece que de nada vai adiantar. Amanhã cedo acho que vou sair pra comprar um kit palhaço...”.

* Carta do Apóstolo Paulo aos Efésios: Capítulo 4, Verso 26.

Nota da autora:

Queridos recantistas, no momento estou tento problemas para acessar a internet. É um problema que já se repetiu tantas vezes que, de exceção está se tornando regra. Vi rapidamente que andei recebendo comentários, de novos e antigos colegas. Agora até tenho tempo - e estou "doidinha" pra contactar várias pessoas -, mas com o boicote da “Telecômica” fica difícil fazer visitas e trocar emails. Tão logo esse problema seja solucionado, retomo as costumeiras interações. Grata pela compreensão, um abraço fraterno :-)
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 09/07/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1690072
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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