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Amélias Modernas

Dona Amélia* é uma vizinha. Eu diria que deve ser uns quinze anos mais velha do que eu. Outro dia, nos cruzamos em frente aqui de casa. Como o dia estava bonito, fim de semana, finalzinho de tarde, ou seja, não havia mais tanto assim para se fazer naquele dia, ficamos batendo um papo assim gostooooso... O supra-sumo da nossa conversa foi esse aqui:

- Virei dona-de-casa. – começou Dona Amélia - Nada foi planejado. Fui virando devagarzinho e quando dei por mim, já era! Bobagem mulheres pensarem que é perfeitamente “natural” unir uma carreira com uma vida familiar, tradicional. Uma hora ou outra a gente tem que pender pr’um lado. Mesmo que se digam “modernos”, alguns homens nem sequer pensam em deixar suas carreiras, nem que seja só por um tempo e, um dia ou outro ficarem em casa administrando as tarefas do lar, cuidando dos filhos. O governo? Esse só sabe “discutir”. Creches e incentivos, que é bom... Esquece! É tão bom se abrir o armário e tirar de lá peças limpas e bem passadas pra vestir... Dormir numa cama arrumadinha, cheirosa... Mas quando não se tem ajuda, é evidente que essa vida perfeita (estilo “propaganda de margarina” ) é coisa muito difícil de manter. Por vezes, inviável. O tempo, esse voa! Quem trabalha, trabalha, digo: fora, né? Quem estuda, estuda... E quem fica em casa... acaba ficando - e às vezes até perde a noção do tempo! A comida tem que estar sempre pronta. A roupa, lavada e passada. O lar, limpo e organizado. Tudo tem que funcionar direito. Flores na janela, no jardim... Cuidar de casa, família... ah, isso é coisa muito difícil. E ainda tem os bichos de estimação! Por que será que tantos desvalorizam trabalho doméstico?

- Sei lá, dona Amélia, será por que aprendemos a não valorizá-lo? Até eu mesma, vez em quando, me pego pensando, após um dia cheio: “Meu Deus, o que foi mesmo que eu fiz hoje, o dia todo?” Outro dia eu vi o filho da menina aqui do lado, o mais velho - acho que deve estar já com uns dezessete, não? - Sim, bem no meio de uma briga ele lhe jogou na cara: “Meu pai é gerente não sei das quantas lá, executivo, e tu, tu é só uma dona-de-casa.” E ela falou pra ele: “Troca uma semana só que seja de lugar comigo, tenta fazer tudo o que eu faço, com a mesma destreza e qualidade, depois voltamos a falar no assunto.” Ele, ao que parece, não aceitou a proposta não... Também não creio que tenha mudado de opinião pois, mais tarde, conversando com ela, ela me disse: “Ah!... O que mais me dói é ver que foi nulo o esforço de criar esses meninos com uma cabeça boa, torná-los conscientes do valor do ser humano (homem e mulher), do valor do trabalho... E o resultado? É esse aí que você viu...” Eh, Dona Amélia, somos um ou dois gatos pingados contra o resto do mundo! Porém, há lugares em que as coisas são muito piores para as mulheres. Só sei dizer que gerenciar uma família - de quatro pessoas, que seja - está exigindo cada vez mais “qualificações”. A senhora já ouviu falar aí de um “MBA” para “Home Organizing”? Conheço uma mulher na internet que fez disso um negócio, e parece que bem lucrativo! (1). Não que isto “só” agora tenha virado um desafio, né?

- Que nada, minha filha... Vem do tempo em que cobra tinha pata, como você gosta de dizer... Aliás, nunca havia ouvido tal expressão antes de você chegar por aqui. – Dona Amélia deu uma gargalhada gostosa, contagiante.

- Isso é coisa lá da minha terra, Dona Amélia, pouca gente conhece.

- Achei isso muito engraçado. Pois é, minha filha, o maior problema que eu vejo é que muitos esquecem que agora “executivas do lar” também têm que encontrar tempo para serem médicas, cientistas, escritoras, o diabo-a-quatro. Homens não... Homens, muitas vezes, podem se dar ao luxo de serem “só” executivos, ou cientistas, ou médicos etc. Aos homens ninguém pergunta se “teve” que escolher entre “querer ter filhos” e “desenvolver uma carreira”. Naturalmente, não? Pois muitos contam com a ajuda das que ficam (na penumbra)  em casa, das que são “apenas” ou “também” donas-de-casa, das que preparam boa parte da infra-estrutura por trás do “grande profissional”. Há homens que se dizem dispostos a entender essa mudança de papéis e pê-pê-pê. Ah, minha amiga, mas há uma diferença enorme entre “falar” e “fazer”... A coisa, por aqui, ainda tem que mudar muito!

-  Olha só! E eu pensava que certas coisas fossem diferentes aqui, na Alemanha, um pais que se diz tão desenvolvido... Que nada! Em alguns aspectos, as mulheres no Brasil parece que têm muito mais vantagens do que as daqui.

- É mesmo? Pois me conte...

- Primeiro que é muito difícil encontrar por lá (nos lugares que eu conheço), hoje em dia, mulheres que sejam “só” donas-de-casa (fora os ricos, claro!). Muitas talvez até quisessem ficar só em casa, mas creio que a situação econômica de muitos não permite. Quase todas as mulheres que eu conheço trabalham fora e ao mesmo tempo têm filhos, papagaio, cachorro etc. Uma diferença talvez seja que, no Brasil é muito mais fácil encontrar uma babá, uma creche ou um maternal, ou mesmo ter ajuda de alguém da família, pais, avós, tios, primos etc. Sem falar que a mentalidade parece estar mudando rapidamente. Em uma das vezes que estive lá vi uma entrevista com crianças num jardim de infância. A maioria das meninas disse não querer casar-se quando crescesse e sim, “ter um trabalho, uma carreira”. Casamento, por incrível que pareça, foi citado mais pelos meninos. Também, com as mordomias de muitos dá até pra especular o porquê. Lembro de muitas mulheres da minha infância reclamando: “Casamento é coisa boa para o homem, não para a mulher”. Na época eu não entendia nada disso. As menininhas da entrevista mostraram-se bastante realistas. Ao serem questionadas por que não queriam casar-se muitas declaram coisas do tipo: “Pra quê? Pra depois meu marido me deixar sozinha, arrumar outra mulher na rua e eu ter que ficar só, trabalhando e cuidando dos filhos? Eu não!” Achei essa resposta muito pertinente. Talvez reflita a realidade do lar de muitas delas. Teve até uma que declarou que não queria casar e sim ter dois cachorros, um grande e outro pequeno, o grande para protegê-la e o pequeno para dormir com ela, na cama... Doce, não? Pois é, Dona Amélia, eu fiquei surpresa com o resultado dessa pesquisa. As coisas estão mudando, mesmo que seja num ritmo “devagar, quase parando”...

* Mudei o nome aqui para preservá-la.

1 - http://organizedhome.com/

Nota da autora:

Embora tenha ficado com ar de “discurso” (sei lá!) esse foi basicamente o diálogo que tivemos. Achei a experiência boa e por isso compartilho aqui. Até mesmo porque muitos se iludem com a idéia de que, pras bandas de cá, as mulheres são mais emancipadas que em outros lugares. Conversa! Confesso que estou vendo minguar minhas esperanças de um dia encontrar um lugar em que as coisas sejam, de fato, menos “desiguais” entre homens e mulheres. Enquanto houver coisas como desigualdade de salários, não tem quem me convença de que “o tratamento é igual para todos”. Se duas pessoas fazem o mesmo trabalho, com a mesma produtividade, por que um recebe menos do que o outro só por ser do sexo feminino? Alguém aí me explique a lógica por trás disso? (Esse negócio de menor disposição para correr riscos é conversa mole**). E por que não se conseguiu até hoje mudar isso? Sou muito burrinha pra entender... “Assim não pode, assim não dá!”, né não? Penso em um dia poder conhecer a Finlândia, isso, pra ver se é mesmo verdade a história de que, por lá, mulheres se fazem tratar como seres “iguais”, e em vários sentidos. As mulheres da minha geração (penso eu) questionam e não aceitam mais ter que “escolher” entre isso, aquilo e aquilo outro. Nós queremos “Tudo!” É nosso direito e ponto final. Quem não se der conta disso - seja homem, mulher ou híbrido - só tem a perder. “Tô certa ou tô errada?”*** :-)

Um abraço fraterno.


** Leia o artigo Uma Mulher Que Perdeu (Cedo) O Medo de Voar
*** Inspirado em fala do personagem Sinhozinho Malta, de Dias Gomes.

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 30/06/2009
Código do texto: T1674814
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Helena Frenzel
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