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Pássaros

Dia desses, no meio da tarde, meu marido irrompeu pela casa, irritadíssimo. Quem conhece o mar de tranqüilidade que ele é pensa até que minto - e com exagero. Como ele mesmo diz, água é bicho traiçoeiro: por cima tranqüilo, mas por baixo .... Sério! É que ele estava levando uma surra de toalha molhada do computador, brigando já por horas com uma planilha eletrônica.

“Paizinho...” – eu lhe disse – “Aquieta, Bêbe! Vai lavar aquela louça ali que acalma. Deixa que eu dou um jeito nisso.” Por ele ser uma esponja de paciência, imaginei que a coisa era braba mesmo. Juro! Ouvi fazer chiiiiiiiiii quando suas mãos tocaram a água da torneira. Tadinho, tava mesmo esquentado o meu bichim. Interessante a convivência: tornei-me muito mais calma e ele, muito mais esquentadinho.

De fato, a tarefa que eu tinha pela frente não era nada agradável. Ainda bem que vivo aquele ditado que diz: “Quem canta seus males espanta”. Para não espantar os vizinhos, deixo outros cantarem músicas que – Psssst! Os autores não sabem disso! -  foram feitas para mim. E assim, entre outros, veio o Sabiá de Caetano e Marisa acalmar os ânimos lá em casa.

“O que tenho eu te dou
Que tenho a dar
Só tenho a voz cantar
Cantar, cantar, cantar” (1)

Magnífico! Não sei se veio voando pela beira do rio, como o Pássaro de Djavan, que também veio ajudar a me fazer deixar “de pensar no que é desengano” e reparar “só nos desafios. Com a graça de Deus menino é que eu me guio” (2). O mesmo Menino Deus que chamou a Sabiá Clara, aquela que costumava alçar alcionados corações.

“E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas” (3)

A vida é simples. Nóis é que cumprica ela!

Lembrei-me de coisas boas, muito antigas. Coisas de criança. Os mesmos “tamboretes de forró” (baixinhos) que me chamavam de “rolha de poço”, na escola, eram os que deixavam roxas de raiva as “olívias-palito”, apelidando-as de “pernas de maçarico”, pássaro esse tão típico das praias de lá, de riba do mar, como bem registrou Antonio Vieira (4).

E quando dei por mim, a tarefa colossal já estava terminada, as louças lavadas e meu marido, de novo, calmo e feliz. E de quebra, viajei por muitas letras, do gemido cortante da Ema (5) à pegada certa do Carcará (6). Viva João do Vale, talentoso conterrâneo! “Inda bem Deus te deu o dom de fazer Baião, vice bichim!”

Aliás, tarefa difícil é fazer uma pessoa que não entende Português captar, ao primeiro ouvido, a magia de nossa música. Logicamente estou falando aqui de nossa BOA musica. Se bem que, em se tratando de MPB tudo é como “escutar Gal e Tom: o que rolar é bom!” (7) É poesia pura, que quando traduzida vira outra coisa, perde a essência, a alma e a cor.

Mesmo assim é gostoso tentar traduzir um pouco que seja dessa magia para quem vive num mundo totalmente diferente. E com esse espírito primaveril, novo, veio cantar à minha janela à tardinha um passarinho preto. E tinha, ao redor do pescoço e no peito, uma mancha amarela - como aqueles babadores das primeiras e últimas idades, usados durante as refeições. Quase chorei, pensando no Assum Preto de Gonzaga.

“Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dô

Talvez pur ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió” (8)

Humanos, êta bichos marvados!

Não sou boa em identificar pássaros. Como os humanos os chamam, também não é coisa importante aqui. Lindo mesmo foi o canto que o meu pretinho entoou...  Ah! Aquele tom agudo, longo e preciso, num pianíssimo perfeito... Nossa, deu arrepio quando ouvi! Uma lufada de admiração soprando meu espírito. Fazia já um bom tempo não parava para ouvir pássaros. Vai ver foi efeito do Sabiá maritano (Marisa e Caetano).

“É só ter alma de ouvir
E coração de escutar
E nunca me farto
Do uníssono com a vida”

Eu também não me canso do uníssono com a vida, e como o Beija-Flor de Carlinhos também não me canso de “cantar pra ver o sol de todo dia” (9).

“Que maravilha,
Que maravilha,
Que maravilha”(10)

Olhei os lírios do campo, como nos aconselha Jesus e também Érico Veríssimo, em seu belíssimo romance.

“Por isso vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?
 
Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?

Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?”

(Evangelho de Mateus 6:25-27)

Se nós, humanos, voltássemo-nos para as coisas mais simples, talvez conseguíssemos ver além do alcance, viver melhor.

Sei lá...É só uma opinião. :-)

(1) Trecho de Sou Seu Sabiá, de Caetano Veloso, interpretada lindamente por Marisa Monte.
(2) Trechos de Pássaro, Djavan, grandiosamente (também) interpretada pelo Quarteto em Cy & MPB 4.
(3) Ser de Luz, de João Nogueira Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, homenagem a Clara Nunes, belamente interpretada por Alcione.
(4) Maçarico (canção), de Antônio Vieira.
(5) O Canto da Ema (D. Ayres Viana, Alventino Cavalcante e João do Vale), interpretada por Zé Ramalho.
(6) Carcará (João do Vale e José Candido), interpretada por Maria Bethânia.
(7) Trecho de Mal de Mim, Djavan.
(8) Trecho de Assum Preto, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
(9) Trecho de Beija-Flor, Carlinhos Veloz.
(10) Trecho de Que Maravilha, Toquinho e Jorge Benjor.

Feliz Páscoa (ou feriado, como queira) prucê!
Um abraço fraterno :-)

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 09/04/2009
Código do texto: T1530068
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Sobre a autora
Helena Frenzel
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