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É para consumo próprio!

Dia desses, quando bebia uma garapa numa pastelaria, pude ver sobre o balcão um frasco de alguma coisa sem identificação com a ilustração duma baleia sorrindo. Ela segurava garfo e faca com as nadadeiras, tinha a língua para fora da boca e os olhos arregalados e projetados à frente, como se estivesse vendo chegar uma deliciosa refeição. Naquela hora me lembrei do Herman Melville e da sua baleia branca. Entretanto, aquele lugar com chineses me fez também lembrar um terrível acontecimento…

Trate-me por Douqep; acho que é bíblico. Hoje estou aposentado e enfiado no desgosto da viuvez; filhos criados e bem casados. Naquela época – já conto qual – começava a vida na cidade grande. Tentava. Jamais me esqueci da Guadong, mas quem é capaz de se esquecer duma coisa como a que vi? Nenhuma criatura, a não ser ratos; pois em todos os lugares, estes, são de juízo fraco; diferentemente das baratas, de ideia fixa, elas sim, desconfio que ainda se lembram.

Começo minha história com outra. Curta. Só o tempo duma lembrança da minha infância, mas logo me acerto com a cronologia das coisas…

No meu tempo de menino, lá em Brejo Santo, nunca vi chinês. A pastelaria, aliás, a “venda” (única da cidade àquela época) só tinha pastel doce, coxinha de pato, cachaça, uns poucos artigos de mercearia e aviamentos. Coisa pouca. Só para atender a clientela. O dono era o Seu Oliveira, Manuel das Oliveiras como ele mesmo gostava de dizer. Português da Ilha da Madeira que atracou no porto de Ilhéus junto dum punhado de sentimentos e duma negra angolana de fala mansa. De lá, depois de três anos, subiram para o Ceará. Isso quem contava era o próprio Seu Oliveira. O negócio na Bahia ficou preto depois que ele matou um “salafra” pela honra e pelo ciúme; já isso quem explicava – e com detalhes –, era Dona Galinda, a negra angolana. Falava sem o conhecimento do marido que estourava à toa. Da boca dele nunca se ouviu esse desfecho, se pegasse a mulher em fuxico, capaz de lhe arrancar os dentes. No mais não era mau, gostava do certo. Nem sei se já morreu ou se continua a encher coxinha com pato selvagem. Mas esse remendo de história antiga tem pouco a ver com a história que será protagonista daqui pra diante. E digo de coração: se não fosse o homem de barba falhada e desdentado que comia uma coxinha apoiado no balcão da Guadong, juro que não tinha trazido Seu Oliveira, nem D. Galinda para o papel. O diacho do banguela segurava uma sacola de palha com um pato amarrado dentro; só a cabeça do bicho pra fora. Não achei jeito de omitir minha nostalgia e o Portuga de bigode grosso. Adiante! Ao que interessa! Botemos a história no miúdo…

A Guadong era uma conhecida pastelaria do centro de São Paulo, a mais movimentada e suja do Ocidente. E a mais antiga, diziam. Naquele tempo, eu não passava de um recém-chegado nordestino; meio matuto, meio estudado, mas disposto a progredir na vida e a encher o bucho; quase sempre vazio desde criança. Levara na bagagem quase nenhum sotaque lá de cima por causa da tia que me hospedava em São Paulo e me visitava com constância no Nordeste. Achei bonito o jeito dela falar e me esforcei na imitação.  Pouquíssimo e, às vezes, nenhum dinheiro no bolso me obrigava a procurar locais bastante baratos pra comer. Locais onde, a julgar pelo preço, a comida só poderia ser reciclada ou de outra origem tenebrosa. Fazer o quê! É a vida!… Assim, quando fazia uma ronda pela cidade, deparei-me com um letreiro grande e vermelho: GUADONG. Gente saindo pelo ladrão: artesãos, pedreiros, mestres de obra, alfaiates, jogadores, vendedores e por que não punguistas? Deviam existir punguistas lá com certeza.  Entrei. Empurra daqui, empurra dali, enfim, com muito custo cheguei ao balcão; ombreado com o tal homem do pato.

– Moça, moça! – chamei pela chinesinha que atendia por trás do balcão. Não me ouviu.

– Ei, moça! – dessa vez falei mais alto. Estava faminto e perco a calma quando estou com fome.

– Não adianta amigo, chinês é tudo surdo – disse o banguela do pato. – Quer um conselho? Grita e bate no balcão, aí ela atende; se não…(fez gesto de negação com a cabeça) come hoje não!

Antes que eu pudesse decidir, tornou ele a falar:

– Vai… Vamos… Bem forte!

Com a fome que estava, segui o conselho. O arrependimento veio logo em seguida.

– Pala! Pala! Doido! Qué queblá tudo? – disse a chinesinha com decisão.

Mais dois chineses que também atendiam se viraram para mim, e olharam com cara feia. Um era magro e ossudo ao extremo, o outro era louro (o primeiro chinês louro da história, depois vieram outros, evidentemente) e tinha uma cicatriz em diagonal cruzando todo o rosto. Dos três era o único que usava avental, o mais encardido e sujo de todos os tempos.

O banguela do pato riu e se retirou rápido, com sua sacola de palha, sem falar nada. Em poucos segundos driblou todo o tumulto e quando dei conta lá estava ele no caixa pagando. O debochado fez de maldade para me deixar mal com os chineses. “Maldito banguela!”, pensei, “Na certa já sabia no que ia dar”.

– Desculpa, desculpa! – apressei-me em responder; as duas mãos erguidas e espalmadas para frente simbolizando calma. – Desculpa, moça!

Ela não recuou na irritação.

– Não tá vendo a confusão? Muito balulho! Muito balulho! Só tem tlês (fez sinal indicativo com os dedos) aqui dentlo plá atendê. É doido, você? É doido? – e me deu as costas.

Ainda muito irritada falou – na língua dela – um monte de coisas (xingamentos na certa) com os outros dois atendentes. De repente os três começaram a falar juntos de uma maneira escandalosa e me lembraram um bando de araras ou maritacas em revoada.

Fui ignorado completamente. Outros que chegaram depois foram atendidos na minha frente. Dez minutos a coisa andando desse jeito. Minha fome só aumentando e meus nervos se abalando com todo aquele burburinho e aquele buraco no estômago. Quando, por fim, decidi ir embora, o chinês da cicatriz me entregou um prato com uma esfirra e outro salgado quadrado que até hoje não sei o que era; acompanhando: um copo grande de caldo de cana quente.

– Come lápido e libela o balcão – o tom era ameaçador.

Olhei surpreso para o oriental. Não tinha feito pedido nenhum, não me deixaram, aliás. Então lembrei, novamente, do homem do pato: “Maldito banguela, um dia ainda me paga essa brincadeira infeliz”. Em todo caso, não me fiz de rogado, ergui os ombros e devorei tudo com rapidez; comi sem tirar os olhos do chinês louro com medo que ele me apunhalasse a qualquer momento.

– Plonto! Pode sair agola! – disse a chinesinha antes mesmo que eu terminasse de beber a garapa. Por sorte já havia acabado com os salgados, pois ela tirou, rudemente, o prato e o copo da minha frente.

– Quanto custa? – perguntei temerário, já com o dinheiro na mão.

A chinesinha não me deu atenção. Nem olhou pra mim. Agiu como se eu não estivesse ali. Só vi suas costas.

Minha natureza sempre foi muito pacata. Nunca fui de briga ou escândalos; razão pela qual, até ali, engolia tudo a seco. De repente um lampejo, coisa tola: “Mas é claro!… Por isso não aceitou o dinheiro… Pagamento é só no caixa, evidente!”, concluí satisfeito com a dedução. Encaminhei-me para lá.

No caixa, para meu desgosto, a coisa piorou.

– Não, não, não, não! – gritou o chinês por trás do caixa quando lhe estiquei o dinheiro pra pagar. – Seu dinhelo não tlaz boa sorte! Suma com ele daqui.

– Meu… dinheiro… o quê?! Mas que lugar assombrado é esse? É alguma piada? Se for quero rir também – disse, verdadeiramente, irritado. – O que fiz de tão grave para ser tratado dessa forma? Quem é o geren… Melhor: quem é o dono desse buraco infernal? Tragam o homem! Tragam o homem aqui, pois quero lhe falar. Ou será o Satanás o comandante desse cabaré?

Tudo tem um limite e a minha reputação de homem calmo já tinha ultrapassado esse campo minado.

– Pla fola, já! Vamo, vamo que tá atlapalhando meu movimento. Desordelo, desordelo!

– Desordeiro?… Desordeiro? – Eu repetia aos gritos. – Entrei apenas pra comer alguma coisa, mas desde que cheguei, só fui maltratado e ofendido. Humilhado! Humilhado é o que eu fui! E por quê? Por quê? Por nada! Vocês todos tinham é que ser presos. Tinham que estar apodrecendo em algum hospício; de preferência bem longe, na China. Gente dos infernos! Malditos “chinas”.

A julgar pela proporção de suas atitudes depois do “chinas”, o oriental do caixa conhecia muito bem o uso pejorativo da palavra; também pescou a ênfase que imprimi. Com certeza o tempo aqui no Brasil já o tinha tornado bastante sensível ao idioma e seu alcance, apesar de sua fala, tipicamente, patética e caricata.

– Abusado, abusado! Clia desordem na Guadong! Fola, fola! – disse com a veia do pescoço prestes a estourar.

Nisso já foi me empurrando em direção à porta de saída, sem me dar tempo de dizer gato. Tentei me desvencilhar. Em vão. Era um homem com o tipo físico bem avantajado para um chinês ou mesmo para qualquer outra raça. Tinha ar de autoridade, gestos e cara de patrão. Alto, largo e com uma trança grisalha que se estendia até a altura do quadril; no rosto rugoso (confessando uma idade adiantada) e ligeiramente oval, ostentava um único pelo grosso do tamanho de um lápis que lhe valia a alcunha de Fiapão. Em suma, um homem impressionante pela força e robustez.

Graças a Deus não tive oportunidade dum enfrentamento físico; tão nervoso fiquei naquela hora que teria me jogado nessa empreitada sem futuro se tivesse tido chance. O homem me agarrou pelos dois braços e me arrastou com a mesma facilidade que se arrasta uma criança franzina e mal criada.

– Ora, mas o que é isso?! – berrava. – É assim que tratam os fregueses?! Me larga… Me larga, seu demônio!

Minhas reclamações de nada surtiram efeito e fui arremessado na calçada. Ali gritei e esbravejei, porém achei mais prudente não entrar novamente, não estava disposto a pleitear uma desforra. Confesso que, após sentir a força de Fiapão, acovardei-me. Optei pelo orgulho ferido à surra garantida. “Meu Deus!… Logo comigo que detesto confusão. Com certeza aconteceu alguma tragédia na vida desses filhos da puta depois de alguém ter batido no balcão desse covil; e toda vez que alguém repete a cena, algum maldito chinês morre ou a china inteira pega fogo; do contrário não tratariam assim nem mesmo um inglês”, pensei, e de repente mudei de pensamento, voltei a um antigo: “Maldito banguela! Maldito seja! Que o inferno queime sua alma.”

Minha vingança contra os “chinas” não tardou a chegar. Ainda na calçada, quando me recompunha da vergonha e da quase sova que levei, passou ventando minha vingança: Carla Alhó, a “Carlão”. Mulher matrona, encardida, braço de caminhoneiro; impreguinada da mais pura morrinha de cachorro. Toda ela determinação e coragem. Entrou na Guadong tal qual uma força da natureza. Teria espantado muita gente do lugar, caso as pessoas que lá estavam não gostassem e não previssem um escândalo garantido, escândalo este que já não precisava de previsão alguma.

– Branquinho!…Branquinho!… – eram os gritos espaçados de Carlão dentro da Guadong.

De tão fortes que de fora ouvi. Entrei, imaginando ser ocultado pela briga que se anunciava.

– Branquinhooo!… – em seguida um estalo de língua. – Branquinhooo!… – outro estalo.

A maioria, nada compreendia; vi nos olhares e nos ombros erguidos. Também ergui os meus e torci a boca. Mas gostava da cena. Alguns ali davam sorrisinhos e pareceram habituados à cena.

– Cadê o Branquinho, Fiapão?

Um mundo de ameaças na pergunta.

Alguns, muito provavelmente frequentadores mais assíduos, cochichavam algo sobre um tal boato; saiu de um pequeno grupo essa palavra: “boato”. Bem que tentei esticar os ouvidos para ouvir coisa mais reveladora, mas de nada adiantou; ficou só no “boato” mesmo.

– Calalho, por favor lespeita cliente de Fiapão! Ninguém aqui viu o Blanquelo.

– Não é “blanquelo”! – berrou Carlão. – O nome dele é Branquinho. Não me faça perder a paciência, Fiapão.

– Calalho, Fiapão não sabe desse aí que Calalho falou. Se Calalho fica aqui pla chatear cliente, Fiapão chama a poliça.

– Ora, ora, ora! Então quer chamar a polícia, não é mesmo?…

Depois de pensar um pouco, Fiapão recuou:

– Calma, calma, Calalho! Fiapão exagelou, Fiapão plefele lesovê tudo numa boa – desconversou o chinês.

– Semana passada foi a mesma coisa… –  a mulher parou para recuperar o fôlego, em seguida prosseguiu.

– E vem sendo assim há três semanas… Primeiro foi o Cocada, depois o Malhado e agora o Branquinho…

– E é Fiapão que dá conta de Blanquelo e da cacholada toda? Daqui a pouco Calalho vai dizê que foi Fiapão que cliou o mundo.

A mulher estava tão vermelha que vi a hora dum infarto matá-la instantaneamente ou o sangue lhe estourar os miolos.

– Não se faça de desentendido, seu maldito – disse Carlão com os punhos cerrados. – Não banque o engraçadinho comigo!

Como a discussão prosseguisse sem evoluir e não achasse caminho para recuar, encontrei tempo, junto a outro grupo um pouco maior e mais informado, de averiguar sobre Carla Alhó. Descobri, sem demora, que era conhecida no pedaço. Os “chinas” (e isso achei realmente extraordinário) tinham medo até de ouvir o nome Carla Alhó.

A mulher possuía seis casas, quatro delas alugadas (todas em bairros distintos) e duas contíguas situadas a dois quarteirões da Guadong. Numa destas, caindo aos pedaços, morava com uma mãe muito velha, prisioneira duma cadeira de rodas; somente as duas habitavam a casa e até onde se sabia, não tinham mais parentes. Na outra casa – bem mais ampla, reformada e com fachada apresentável – abrigava qualquer cachorro de rua que encontrasse pelo caminho. Dividia todo o seu tempo em três partes desiguais: a primeira, menos importante, dedicava à mãe; a segunda, de elevadíssima relevância, era dedicada à briga com os chineses sempre que sumia um cachorro da “fedorenta” (assim se estabeleceu no dito popular o apelido da casa de cachorros); a terceira parte e a de maior vulto era, sem sombra de dúvida, dedicada aos cachorros que tanto amava. O amor era maior do que o de uma mãe por um filho, se é que isso é possível. Escovava- lhes os dentes e os pelos, vestia-os (em acordo com a estação e a moda nos pet shops), podava-lhes as unhas e os maus costumes; remédio e veterinário a tempo e à hora, rodízios de massagens e conversas aos cachorros estressados ou de temperamento bipolar. A alimentação canina obedecia a um rígido e imutável cardápio: a primeira refeição diária – pontualmente às 9 da manhã – era duma ração exclusivíssima; a segunda, às 4 da tarde, unicamente de filé bovino; e a terceira e última, em torno das 10 da noite, era uma mistura de patê e biscoito caninos, sendo as duas iguarias encontradas unicamente no Mercadão dos Cães; casa muito conhecida situada no bairro de Pinheiros. A mulher, pelo que compreendi, era uma espécie de São Roque moderno.

O pouco já contado e  o que ainda contarei a respeito do caso foi colhido no dia do escândalo, talvez alguns pequenos detalhes sejam por mim ignorados ou esquecidos, o que não trará, absolutamente, nenhuma inconsistência ou prejuízo à ação em curso. Na verdade, quase todas as informações pertinentes circularam, na época, em toda a mídia falada e escrita de São Paulo, alcançando, finalmente, o país inteiro devido ao seu desfecho impressionante. Nota-se que o caso, em algumas passagens, inclina-se, verdadeiramente, à comédia. Conforme a sua progressão, ele tomará sua verdadeira natureza.

– Por favor, por favor, Calalho… Tenha calma, nada de poliça com arma aqui na Guadong…   Venha… Polaqui – e esticava os braços, indicando a direção para Carla Alhó – , acompanha Fiapão pla salinha.

A“salinha” em questão era um reservado ao lado do caixa onde Fiapão resolvia uma eventual… complicação. Um cubículo hermeticamente fechado, sem ventilação alguma, apenas com uma porta de aço bem menor que o padrão. Quem passasse por ela teria de abaixar, a não ser que sua altura fosse inferior a um metro e meio.

– Não vou pra salinha nenhuma – gritou a mulher. – E só saio daqui com o Branquinho.

– Mas Blanquelo não tá com Fiapão, Calalho – disse o chinês gesticulando de forma cômica, como faria um louco se descabelando.

– Não adianta mentir, Fiapão. Viram ele entrando aqui quando a loja fechou ontem à noite…

– Mentila, mentila… – interrompeu, Fiapão, cheio de tiques; prosseguindo após andar de lá pra cá como uma barata tonta.

– Pla quê Blanquelo ia entlá? Fiapão não deixa animal entlá na Guadong. Não tem nada aqui pla Blanquelo, Calalho.

Carla Alhó já não aguentava mais ouvir o jeito patético de Fiapão falar, isso a deixava cada vez mais irritada; e quando ouviu “aquele cacholo chuju” da boca do chinês, não se segurou e partiu pra cima disposta a tudo. Fiapão deu um passo atrás, assustado e amparado pelo chinês da cicatriz e pela chinesinha agitada.

Logo apareceu a turma do “deixa disso” para impedir Carlão.

– Esse chinês desgraçado fez ele entrar com um pedaço de carne – desabafou a mulher apontando para o louro da cicatriz. – Enganou o pobrezinho.

– Eu também tinha um cachorro! – disse uma voz entre os clientes.

– E eu! – outra voz.

– Mas que ladainha é essa? – falou à meia altura um negro forte de uniforme azul; acabara de chegar e estava alheio a tudo.

O chinês da cicatriz olhou para Fiapão e para a chinesinha agitada, e os três  se olharam, espantados e surpresos, como se descobertos num segredo que imaginavam ser ocultíssimo.

– Quem falou essa mentila, Calalho? – revoltou-se, Fiapão, muito vermelho e alvoroçado.

Mas havia uma sombra, algo de teatral em seu comportamento.

– Isso não lhe interessa… – disse Carlão com o dedo na cara do chinês.

Depois de uma breve pausa, durante a qual soltou um suspiro profundo, ela continuou:

– Agora o problema é seu, vai ter que explicar para as autoridades o sumiço do Branquinho… E também de vários outros cachorros do bairro que andam sumindo do nada.

– Calalho não tem plova, fala besteila…

Antes mesmo que Fiapão pudesse concluir a frase, entrou no estabelecimento um homem com colete preto aberto na frente, nas costas lia-se VIGILÂNCIA SANITÁRIA em amarelo.

– É hoje!… Agora a coisa ficou feia, ninguém mais come aqui – comentou com certa revolta um sujeito gordo que gostava muito de comer; era baixo e tinha suor escorrendo do rosto. Falava a outros dois trabalhadores da fábrica de cadeados vizinha da Guadong.

Ao entrar, o homem de colete foi seguido de perto por mais dois que constatei, também pelas roupas, se tratarem de força policial competente. O agente sanitário, com um papel na mão, parou de repente e perguntou sem rodeios:

– Quem é o dono do lugar?

Fiapão não respondeu, apenas assentiu, lívido, com um gesto submisso entendido pelo agente.

– Existe uma denúncia contra esse estabelecimento – prosseguiu o homem com o papel esticado na frente do chinês. – Preciso dar uma olhada no local.

– Denúncia contla Fiapão?! Elado, muito elado isso… Fiapão faz tudo que manda a lei do Blasil.

– É o que vamos ver… É o que vamos ver, senhor.

O agente falava de um jeito firme e mantinha uma postura segura que intimidava. Parecia estar convencido de que a Guadong revelaria uma surpresa de grande proporção.

Carla Alhó, quieta até então, resmungou qualquer coisa contra os chineses, mas os agentes lhe deram pouca atenção; o líder da diligência fez apenas um sinal com a mão direita para que não se envolvesse. Ela obedeceu, confiante no rumo em curso; pressentia uma vitória.

Fiapão ficou de repente vacilante; olhava para os lados… Abaixou e coçou a cabeça. Pareceu sem saída. Só conseguiu pensar na solução de sempre.

– Fiapão pode falar uma palavla na salinha pla autolidade?

Os três homens protestaram contra essa ideia, mas, por fim, decidiram seguir o chinês, prometendo não mais que um minuto de conversa.

Mas dez minutos foi o tempo aproximado na salinha, depois do que se armou a confusão.

– Pesseguição! Pesseguição! – saiu gritando o chinês.

Os três agentes  deixaram a salinha furiosos e pelos comentários que faziam notava-se que Fiapão já  tinha aprendido o jeitinho brasileiro de resolver as coisas.

Iniciou-se um falatório geral, quase uma gritaria num idioma sem classificação, uma mistura incompreensível de chinês com português. Os fregueses já se envolviam no caso e Carla Alhó se mostrava a mais alterada. De todo lado brotou chinês, até um bem velho, bem velho mesmo surgiu – ninguém viu de onde –, para engrossar a confusão. Acho que não falava nada do nosso idioma, pelo menos até o momento. O atendimento parou de vez na pastelaria, todos os fregueses, sem exceção, pararam de comer, absorvidos com o caso. Muitos, todavia, se retiraram da Guadong, pois estavam no meio do expediente e ali entraram apenas para almoçar. Uma boa parte ficou no local, preferindo assistir ao tumulto a voltar para o serviço. Eu não tinha emprego e queria minha desforra; e ela se reproduziria contanto que aqueles malditos chineses não se safassem. Evidente que nada me tiraria dali.

A verdade é que até o momento ninguém, a não ser Carla Alhó, sabia ao certo o motivo daquela fiscalização. Alguns viam naquilo uma simples inspeção de rotina, comum em locais de alimentação; houve, por parte dum grupinho isolado de mascates que tinha os chineses como clientes, um princípio de solidariedade a estes ameaçando ganhar terreno, mas logo o levante foi, antes que encontrasse coro, suprimido com veemência por Carla Alhó. Mas a maioria que ali estava supunha aquela visita da vigilância sanitária como sendo, de fato, destinada a investigar o sumiço do tal cachorro chamado Branquinho, de posse reclamada pela brigona Carla Alhó, unanimemente reconhecida pelos mais assíduos do lugar como Carlão. O agente chefe, com boa rotina, passava na Guadong para comer um salgado, ficava sempre surpreso com os preços muito baixos, extraordinariamente baixos. Quando ouviu o denunciante relatar sobre o sumiço de cachorros nas proximidades…

– Revistem tudo, não deve ficar uma única gaveta ou mesmo um buraco de rato sem ser vasculhado – ordenou o fiscal chefe a seus subordinados.

Aí o negócio engrossou. Já descambava para o confronto físico, pois os chineses aumentaram muito em número. Saíram quais formigas por trás de uma porta localizada na parte de dentro do balcão de atendimento, bem ao centro. Da forma que se puseram à porta, estavam dispostos a tudo pra resguardar a passagem por ela. Pagariam com a vida se fosse preciso.

Começou um empurra-empurra e o  agente, temendo o pior e acuado pela inferioridade numérica, pediu, pelo rádio, reforço urgente. Mais cinco minutos de empurra-empurra e seis policiais chegaram; já com cassetetes nas mãos. Tomado de súbita e oportuna coragem, ele disse que entraria à força, se preciso fosse, na parte da pastelaria oculta ao público, nos bastidores, caso os chineses não saíssem da frente. Então veio o clímax. De repente, com os olhos vidrados, a chinesinha que me atendeu se posicionou a frente de todos os outros chineses, ladeada pelo velhote e por Fiapão. Queriam deter a todo custo a invasão policial. Ficou a indecisão por um breve minuto e, enfim, por não haver outra forma, os nove homens da lei abriram caminho por entre os salgadeiros orientais. Por sorte, uma cacetada certeira na cabeça de Fiapão, o tirou de combate logo no início do confronto, pois do contrário não se pode afirmar o tamanho do estrago que faria à força policial.

Foram muitos empurrões, socos e cacetadas até a entrada numa parte parecida com a ruína de uma cozinha. Nessa altura, a curiosidade excitou o ímpeto dos fregueses que, até então, destacados a um canto da pastelaria, pegaram carona na invasão. E digo, leitor ansioso, se não tivesse visto com meus próprios olhos um repórter e um câmera-man naquela hora crucial, descredenciaria e poria sob a fama de mentiroso qualquer um que me tentasse convencer de tamanha singularidade. De onde veio aquele repórter? Vê que não sou exagerado ao falar que a desgraça e a tragédia sobrevivem a qualquer soldado armado!

Os chineses estavam, todos, com escoriações e fora de combate. O chinês bem velho estava estropiado, sentado a um canto da “cozinha”, consolado e acarinhado por uma chinesa bem velha como ele. Eu ainda não tinha dado conta daquela mulher de rosto parecido com papel amassado e corpo ressequido. Do que ela falou na hora, só entendi: “Guadong, Guadong, quelido!”. Percebi que os dois deviam ser os patriarcas da família e também fundadores da pastelaria. Ali não existiam funcionários, eram todos familiares: irmãos, tios, primos, esposas, maridos, etc. Os policiais também tiveram sua parcela de lesões, mas nada muito relevante.

A cozinha!…

A cozinha era algo sobrenatural. É preciso dedicar este longo parágrafo exclusivamente a seu estudo. Paredes negras e revestidas por uma camada espessa de gerações de gordura, o chão, também enegrecido, parecia terreno estercado para alguma horta comunitária; os mais exagerados diriam ser solo perfeito para o estudo de agronomia. Restos de alho e cebola temperavam toda essa área pantanosa. O cômodo não possuía janelas, apenas um pequeno basculante, e ficava no fim de um estreito corredor. A luz fraca combinada ao ar enfumaçado do ambiente realçava ainda mais seu aspecto fantasmagórico. Copos, talheres, panelas e outros utensílios domésticos amontoavam-se, sujos, por todo lado. A decoração do recinto ficava a cargo duma mesa sem cadeiras bastante grande, de um fogão industrial em estado de decomposição avançada, dos restos mortais de uma máquina de caldo de cana e de dois freezers, estranhamente limpos e conservados; um próximo à pia e o outro no meio do cômodo, este ligado à tomada por uma extensão que serpenteava todo comprimento da mesa.

Caríssimo leitor, caso tenha espírito fraco, peço que aborte a leitura nesse momento… Aborta? Não?! Então és louco ou um leitor compulsivo! Já deve, inclusive, estar sentindo o mau cheiro no ar; e foi esse mesmo mau cheiro que senti assim que, juntamente a outros fregueses, entrei no ambiente: um cheiro de carne em putrefação, talvez em estado inicial. Enquanto todos observavam, atônitos, os desvarios do cenário, eu tentava contornar as dificuldades de logística para chegar até um canto, fracamente, iluminado do chão ao lado da pia. Ali, ao estacionar, choquei-me por encontrar, empilhados, couros de cachorros de variadas pelagens: pretos, brancos, malhados, marrons. Soltei um grito de terror, assombrado que fiquei pelas cabeças dos animais agarradas ao couro. Cenário mórbido como jamais tinha visto ou imaginado ver. Toda a atenção das pessoas se voltou, instantaneamente, para minha direção. O agente, na liderança da invasão, e mudo em face do que via, seguiu minha trilha, sombreado pela figura expansiva do repórter; este, após deparar-se com o amontoado de couros, manteve o sangue frio e chamou o câmera-man para filmar tudo, já o agente sanitário ficou branco como cera. Toquei a sua pele e ela estava gelada. Nem piscava. Um dos policiais que havia saído do ambiente retornara com uma lanterna muito potente e iluminou toda a área da pia. Todos no local viram o horror da coisa. Algumas mulheres tiveram crises nervosas, outras e alguns homens mais sensíveis desmaiaram. Muitas pessoas taparam as narinas e saíram da cozinha correndo. Carla Alhó, muda, ajoelhou-se diante dos couros. Seu rosto não tinha expressão. Foi o próprio agente, tão logo retirou de perto dos couros o fantasma de Carla Alhó (sem emoção, sem reação) com a ajuda de um policial, quem abriu o freezer vertical do lado da pia e dos couros. Estava lotado dos corpos dos animais, já congelados e devidamente limpos, estripados (todos em sacos plásticos) e sem as quatro patas. O agente não aguentou e vomitou ao pé do freezer. Três dos policiais também vomitaram. Logo o recinto se encheu de líquidos estomacais, impregnando o ar com um odor mestiço de podre com azedo.

Quase a totalidade das pessoas que ali estavam tinha consumido algum salgado na Guadong e demonstrava uma revolta incontida por ter ingerido, bem provavelmente, carne de cachorro. Os ânimos começaram a se exaltar de uma forma alarmante. Um homem baixo e atarracado, com pescoço de Hércules passou a mão num ferro de enrolar e desenrolar toldo e partiu para cima do chinês mais próximo. Por sorte, um policial magro e ágil, já atento aos seus movimentos suspeitos, saltou com rapidez em cima do agressor e jogou-o com força contra parede, impedindo-o que desferisse qualquer golpe contra o chinês. Contudo, o homem era tão robusto e tinha tanta força que foi preciso mais três policiais para dominá-lo completamente.

Ao avistarem as pelagens dos cachorros, várias pessoas haviam abandonado a pastelaria e espalhado a notícia da matança aos quatro ventos. Logo, à frente da Guadong, aglomerou-se uma verdadeira multidão enfurecida. Gente gritando por linchamento, pedaços de paus e ferros sendo erguidos no ar, pessoas segurando cartazes de “JUSTIÇA”, “ASSASSINOS”, “CHINESES MALDITOS”. O caos estava formado, a multidão só não invadiu o estabelecimento porque quatro viaturas policiais chegaram para proteger a integridade física do local e dos proprietários. Rapidamente arriaram-se as portas do local e puseram uma corrente de isolamento, limitando e impedindo o avanço da turba. Vinte policiais, entre soldados e oficiais, alguns com fuzis apontados para baixo, outros com cassetetes à mão, se acotovelavam na calçada em frente da Guadong. Do lado de dentro, todos os chineses foram postos na parte da frente da pastelaria, onde os fregueses são servidos. Vários deles, de cabeça baixa e mãos cruzadas na altura do umbigo. O velho Guadong e o recém-acordado Fiapão (este, o dono e filho daquele) portaram-se, com indisfarçada altivez, à frente dos compatriotas. Nessa hora decisiva, nós, os fregueses, e alguns somente curiosos, fomos convidados a nos retirarmos. Sob muitas súplicas e bons argumentos como: “O senhor não pode impedir o trabalho da imprensa, ela não pode se calar”, o agente permitiu que repórter e câmera-man ficassem para registrar as últimas formalidades legais para o encaminhamento dos chineses até uma delegacia. Pouco antes de sair, eu passei bem perto do velho Guadong que, por sua vez, estava olhando fixa e diretamente nos olhos do agente sanitário; ouvi, e também todos os presentes, a seguinte frase repetida várias vezes e com histeria pelo velho chinês: “É pala consumo plópio!”. Acho que foi a única coisa que ele falou do nosso idioma.

Saí e me apertei no meio do povo. Depois de breve palestra no interior da Guadong, os chineses saíram todos perfilados, protegidos por um corredor humano feito pelos policiais. Sob gritos e xingamentos, dividiram-se em três carros da polícia militar que já os aguardava. Contei onze chineses, incluindo a velha Guadong, sempre abraçada ao esposo. A sirene escandalosa abriu caminho por entre a multidão que, dali a quinze minutos, dispersou-se.

No meio do tumulto, não vi mais Carla Alhó. Mas passado dois dias li em algum jornal que ela tinha entrado em choque quando reconheceu o couro do pobre Branquinho; ficou uma semana hospitalizada. A mesma reportagem trazia também a notícia  de que a Guadong tinha sido fechada pela vigilância sanitária. Em vão, pois quatro meses depois, fiquei sabendo que o lugar foi reaberto e novamente uma pastelaria surgiu. Puseram um enorme letreiro luminoso onde se lia Tailong, e cada letra brilhava alternadamente e de maneira cronometrada. Na nova administração, naturalmente, via-se outra família de chineses. Uma mulher de larga idade, aparentemente um pouco mais nova que a velha Guadong, ficava o dia inteiro abraçada a um pinscher afetado. Quem comandava tudo era um homem gordo com um sorriso idiota no rosto; tinha os dentes curtos e espaçados, e seus lábios estavam sempre umedecidos, de maneira que a uma determinada fração de tempo sua saliva escorria pelo canto da boca. Chamavam-no de Michael.

Confesso que passado um ano, fui novamente até o local e entrei na Tailong. A esfirra era ótima e fui muito bem atendido. E como era noite, pude comprovar a beleza daquele letreiro; me fez lembrar os magníficos cassinos de Las Vegas.
Sales Ambé
Enviado por Sales Ambé em 19/06/2017
Reeditado em 13/08/2017
Código do texto: T6031170
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Sobre o autor
Sales Ambé
Barra do Piraí - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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