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Pelo Nexo e Meio Sem Fim

E de volta ao show:

Começo pelo meio, exatamente como nos relacionamentos da mulher do cabelo verde. Ela que quando conhecia um novo pretendente -- toda vez! -- ia logo pensando que chegara ao final da busca: “É ELE!”. Ô Coitada... A dona do cabelo verde passou por muitos momentos ‘blues’. E com ela aprendi a começar pelo meio. Não está entendendo nada? Eita gente mais sem paciência... Paciência, sim? Vou te contar, peralá...

E o filho da Puta, o que me dá de comer... Até agora nada dele! Por que será está demorando tanto? Teria acontecido alguma coisa, um castigo, uma blitz na escola? O que será que aconteceu hoje?

Não, ‘Puta’ não é palavrão. Como não sei o nome dele -- porque ninguém jamais pronunciou desde que estou aqui -- uso o nome da mãe. Sim, ela se chama Puta. Não, não é palavrão, eu já disse. Essa história já estou ‘careca’ de ouvir, pois é a que ela conta toda vez que se apresenta a alguém.

O pai da Puta era crédulo fervoroso, membro de uma seita ortodoxa, igreja do “Resíduo Digital”... Nunca ouviu falar nesta igreja? Pois é, dizem que existe. Eu só sei que existe, nada mais... Pois é, e nessa igreja as cerimônias eram em Latim, e ‘putare’ -- em Latim -- significa também “acreditar”. Imagine a cara de um visitante na hora do credo:
-- Você crê?
-- Ego puto! (Eu creio!) -- He He He ...

E o nome da Puta vem daí, do ‘putare’ latino. E aí, “me putas?” (“Me crês?”).

Se bem que a vizinhança comenta muito o entra-e-sai de homens aqui na casa da dona Puta. Ela diz que dá aulas de francês e sempre está às voltas com umas tabelas – quase sempre pelas tabelas! -- Bom, especulo então que ela ganhe a vida usando um sistema de tabelas parecidíssimo com aquele que Victor Hugo costumava usar... Quanto será que custa uma meia hora de ‘francês’ ou um “i-pisilone duplo”? He He He ... Tenho que oB-servar, oB-servar!

Sim, o filho da Puta chegou! Já era tempo... Ah, não! ‘A Caixa’ não! ‘A Caixa’ não! Scheiße, tarde demais... É hoje que eu passo mal...

-- Fome! Fome! -- gritava eu de cá e ele nem ‘tschuns’...  -- Hungry! Hungry! -- e ele nem se mexia -- Hunger! Hunger! -- Aí sim, o filho da Puta moveu o traseiro gordo da frente da ‘caixa’. Alemão. Pra desviar o filho da Puta da 'caixa' só mesmo usando a língua mãe... Abriu a porta do armário e me veio com um punhado -- um pu.NHA.do só -- de ração! É hoje que eu passo mal ...

Tomara que o dono do restaurante não demore a me apanhar. Estou aqui já há quase duas semanas. O dono e a mulher estão de férias. Parece que foram para uma ilha espanhola, chamada Palma de Mallorca. Se eu tirasse férias iria para um lugar onde houvesse muito poucos iguais a mim... Ouvi o vizinho do 318 -- o velho tarado -- dizendo que em Mallorca tem muito mais “alumão” do que espanhol. Eita que os “alumão” adoram essa ilha, viu?! Por isso mesmo é que não iria para lá nas férias! He He He ...

(Trim-Blon)
Chegou o amigo do cabelo vermelho, o do 206. Do cabelo, só metade era longa e vermelha. A outra metade era branca e cortado bem curtinho, como o rabo da “Sururina de Brasí”. Se "danaram" a jogar na frente da ‘caixa’...

Não entendo -- Nitendo -- esses dois. Eles não querem continuar obesos, mas passam todo o tempo livre na frente da ‘caixa’. Tudo é simulado: do jogo de Tênis ao Futebol... de Botão. Até a ‘Rayuela’! Vai ver esses dois nem sabem o cheiro que tem um punhado de grama ou terra. Eu, hein? Da ‘caixa’?! Tô fora! Tô fora!

(Trim-Blon)
Ah, tomara que seja o dono! O dono!
O filho da Puta foi atender.
Era a vizinha do 201, a cínica -- digo, Síndica! Síndica!
-- Meu filho, está sua mãe? – perguntou a síndica.
-- Não.
-- E a que horas vai chegar?
-- Sei não ... Disse que vai fazer um serão, com o patrão.
-- Serão? Trabalho extraordinário... NOTURNO? Como pode deixar o filho assim, sozinho em casa?!
-- Sei não, dona, e a senhora diz isso só porque não tem filhos ...

E eu, lá do meu poleiro, só de butuca na conversa, repetia o coro do condomínio:
-- Ela não PODE! Não PODE! Não tem porque não PODE!

Só pra contrariar me prenderam neste corpo de papagaio. Pois é, de uma forma ou de outra eu tinha que aprender a observar ... Ah se eu pudesse escrever!

“É a vida! E é bonita e é bonita.”

                                          *  *  *

Queria brincar e ao mesmo tempo ...

“… compreender por qué el principio de indeterminación era tan importante en la literatura”

Ai que 'sardade' de escrever... saudade mata, 'piquenos'*!

Um abraço fraterno :-)

(*) "piqueno", "piquena" ou "piquenos" - expressões muito utilizadas em São Luís do Maranhão, pelo menos na época em que vivi por lá.




Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 16/10/2009
Reeditado em 31/12/2009
Código do texto: T1869921
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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