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QUE SEJA FEITO

Noite normal cinza escuro, beirando a escuridão. O uivo dos lobos da floresta arrepiava os pelos da nuca de Christopher todos os dias, não conseguia acostumar-se com esse som.  Ele era filho único e cresceu sendo extremamente protegido por seus pais. Acostumou-se a ficar em casa todas as noites, eles não o deixavam sair depois que escurecia.  Não havia muito que fazer, moravam em uma fazenda a mais de quarenta quilômetros do centro da cidade e como não tinham vizinhos nem amigos próximos, divertiam-se contando histórias de terror na beira da lareira.
Sexta feira, 23 de abril, noite de muito calor, Christopher ligou o ventilador no nível máximo e foi dormir. No meio da noite os gritos de socorro o acordaram, eles vinham em meio aos uivos. As vozes eram parecidas com as de seus pais, na verdade ele tinha certeza que eram eles. Levantou-se, calçou os chinelos e foi até a porta. Quando chegou, os gritos cessaram, pensou que estava sonhando, virou-se foi até a cozinha e bebeu um copo de agua. Na volta para o quarto, mais uma vez escutou gritos e uivos. Correu para a porta, e dessa vez saiu na varanda, sentiu os pelos mais arrepiados que o habitual, mas encorajou-se e foram na direção as vozes. Os uivos vinham da floresta e os gritos do celeiro. Agachou-se e foi conferir, lembrou que não havia ido até o quarto de seus pais ”Mas as vozes eram deles”, sussurrou. Já estava indo de quatro pés de tão amedrontado que estava. Chegou ao celeiro e por uma fresta na madeira viu o padre da cidade com mais algumas pessoas da igreja que frequentava aos domingos. Viu seus pais amarrados com os braços para cima e chorando muito. Em frente a eles, no colo de uma mulher, havia um bebê que aparentava ser recém-nascido que chorava muito e às vezes parecia uivar. O padre então começou a dizer:
_Cidade maldita, o demônio manda o que não presta pra cá. É hora de matar mais uma aberração. Que seja feito.
E prontamente cortaram a cabeça da criança que já estava pronta em cima da mesa. Nesse exato momento os uivos começavam e juntavam-se com os gritos dos pais de Christopher que imploravam piedade ao padre.
_Não faça isso padre, o senhor não sabe se todos se tornarãolobos.
_Calem a boca, vocês são os únicos que são a favor dessas coisas. Tragam o próximo. Falou o Padre.
Um homem aparentando não estar certo do que fazia entregou a outra criança nas mãos dos responsáveis pela decapitação, mas ao virar-se, deixou uma triste frase escapar por seus lábios.
_Não acredito que permitirei que matem meu filho.
_Você está tendo uma atitude sábia. Falou o padre.
Christopher mantinha-se imóvel vendo seus pais inconsoláveis e todo aquele sangue que corria nas mãos dos assassinos. Não conseguia reagir, não sabia o que fazer. Fechou os olhos e abriu quando escutou mais uma vez:
_Cidade maldita, o demônio manda o que não presta pra cá. É hora de matar mais uma aberração. Que seja feito.
Era o padre ordenando mais uma execução, mais um bebê foi sacrificado. Os uivos começaram e Christopher agora ligava os fatos, quando algum bebê era sacrificado os uivos dos lobos aumentavam. Ele ouvia aquilo todas as noites, “Então isso acontece sempre? Talvez seja melhor para a cidade”. Os seus pais eram contra, isso ele ainda não sabia a razão.
O padre mais uma vez:
_Cidade maldita, o demônio manda o que não presta pra cá. É hora de matar mais uma aberração. Que seja feito.
_Mais um? Falou Christopher baixinho.
E mais uma criança foi executada, mas dessa vez, não se ouviu uivos, só o choros dos seus pais, mas não estavam sozinhos, dessa vez outras pessoas também choravam. E ouviu-se gritos da mãe de Christopher:
_Eu disse que não são todos. Eu já havia avisado.
O silêncio tomou conta do ambiente, Christopher entendeu tudo e sem perceber, começou a uivar sozinho. Todos que estavam no celeiro assustaram-se, pois o som estava muito perto. Alguns homens foram tentar captura-lo, mas ele escapou pela floresta.
Temendo ser um ataque de lobos, o padre ordenou que todos fossem embora e deixassem o casal amarrado para servirem de iscas.
_Os deixem aí, os lobos estão com fome, vamos facilitar o jantar deles.
Christopher esperou a saída de todos e entrou no celeiro. Assim que entrou, foi recepcionado pelos gritos de sua mãe:
_Saia daqui, eu não fiz nada contra eles. Saia daqui.
Seu pai estava desmaiado, havia apanhado muito.Christopher tentou acalmá-la, mas quando foi falar, apenas uivou suave e triste. Olhou para suas mãos e viu patas, deu uma passada de olhar no resto do corpo e só viu pelos. Tudo começava a fazer sentido.
Sua mãe percebendo os gestos do lobo perguntou?
_Christopher? É você?
Ele então foi em direção a seus pais, mas antes de chegar, algo passou cortando sua orelha e acertando o peito de sua mãe, quando virou para ver de onde vinha, mais duas passaram raspando seu lombo e acertando a cabeça de seu pai.
Christopher uivou alto, e partiu pra cima do padre que já estava pronto para mata-lo também. Desviou de uma flecha e saltou em seu pescoço e com uma só mordida quase arrancou seu pescoço. Os outros que estavam ajudando o padre correram, mas foram encurralados pelos outros lobos que estavam na floresta. Os lobos destroçaram todos que passavam por perto. Quando achava que tudo havia terminado e que todos os assassinos estavam mortos, eis que surge de trás de uma árvore um homem acertando a cabeça de Christopher com uma pá, fazendo-o desmaiar.
Ele acordou no outro dia, em sua cama, correu até o espelho e rindo muito gritava:
_Eu não sou lobo, eu não sou lobo. Foi só um sonho.
Foi até o quarto dos pais e os dois ainda estavam deitados, pulou de felicidade, os sacudiu e quando os virou, viu dois furos na cabeça de seu pai e um no peito de sua mãe.
Não chorou, nem uivou.Apenas os lambeu.
Cristian Canto
Enviado por Cristian Canto em 20/03/2017
Código do texto: T5946917
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Cristian Canto
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 34 anos
18 textos (1501 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/10/17 20:26)
Cristian Canto