Brincadeira de Criança

"Basicamente, somos lobos em pele de cordeiro. É por isso que os pais e as crianças confiam em nós e é assim que evitamos ser descobertos... Você ficaria impressionado em saber como é fácil enganar pais, adultos e crianças... Eles simplesmente não fazem ideia do que acontece."  
( C. Sanderson, A.S., M.Boocks)  
 
   Regina sentava rígida na cadeira de plástico, escovando os cabelos da filha. Estava com a cara formada em uma carranca enquanto segurava, com força, uma escova de cabelos quadrada. Passava as cerdas em movimentos ritmados nos cabelos armados de Manuela. Ocasionalmente, a pequenina soltava um choramingo, reclamando de dor. A mãe, irritada, curvava as costas, colocando mais força na escova de cabelos.  

   — Não adianta chorar! Se me deixasse pentear mais vezes, o seu cabelo não estaria nesse estado.  

   — Ai ai ai mamãe, meus cachinhos...  

   — Olha isso! - Exclamou Regina — Está repleto de nós! Eu deveria mandar cortá-lo bem curtinho.

   Manuela arregalou os pequenos olhos castanhos.   

   — Não, por favor mamãe, eu não choro mais!

   Uma lágrima solitária escorreu no canto esquerdo de seu rosto, e ela se prontificou rapidamente em limpá-lo: — Não quero parecer um garoto, não choro mais mamãe, eu prometo!

   Mas a mãe bufou, puxando um dos nós da nuca de sua filha. Sua mão segurou a escova com mais firmeza. A menina, com os olhos ardidos, não pode segurar o grito de dor, que surgiu automático.  

   — Mas que porra! Quieta Manuela! Assim os vizinhos vão pensar que estou matando você. Eu deveria chamar o seu pai para que ele visse o escândalo que você está armando!
 
   A garota, ao ouvir a ameaça, arregalou os olhos e fechou o rosto imediatamente, apagou-se como o sopro de uma vela. Mas Regina não deu-se por notar. Aceitou o silêncio de bom grado alisando as madeixas castanhas. Formou dois montes altos com a escova e o prendeu com elásticos coloridos, dando os últimos retoques nas Marias Chiquinhas.

   Regina sorriu, satisfeita com o seu serviço.  Levantou-se alisando a sua barriga inchada e beijou a testa da filha.
 
   Manuela guardou as banquetas no armário a pedido da mãe grávida. O quarto, antes rosa, agora estava um verdadeiro caos, pintado em um tom bonito de azul claro. Boa parte dos móveis da menina já estavam desmontados – além da cama e do armário, quase tudo estava encaixotado, afinal, com o novo bebê a caminho, eles precisariam de um cômodo próximo para alojar o pequeno Thomas. Consequentemente, a menina Manuela estava sendo mandada ao sótão. Fechou as velhas portas do armário e seguiu em direção à cozinha.

   Suas sapatilhas de couro preto faziam um barulho engraçado no chão, rangiam na madeira como sua mãe quando andava em salto alto. Naquela manhã, nenhum dos quadros com coelhinhos animou a pequena Manuela, que andava arrastando-se como um prisioneiro em direção à morte. Regina, na cozinha, irritava-se com a demora da filha.

   — Manu, o almoço está começando a esfriar! Venha comer antes que se atrase para a escola! – Gritou. Imediatamente, Manuela apertou o passo.

   Andou apressada até a porta de vidro da cozinha, ofegante enquanto escondia o seu tremor, torcendo com força os cantos de sua camiseta escolar. Tomou um longo fôlego e levantou o olhar. Não gritou quando Alfredo lhe sorriu, andando sorrateiro como uma raposa até ela.

   — Bom dia meu amor! Veja que notícia boa nós temos! Hoje é o papai quem vai te levar para a escola! – disse, e plantou um beijo casto na testa da menina. Manuela sequer mexeu um músculo, sentia-se incapaz de conseguir se mover.

   O pai se aproximou da filha sob os olhares calorosos da mãe, a raposa velha com o sorriso certeiro na menina. O relógio gritava na cozinha tornando-se, de repente, o único som do ambiente. Manuela enrolou as suas mãos em um punho apertado e, quando Alfredo finalmente a alcançou, a menina exaltou-se, sem controlar seu corpo rígido. Sob os olhares da própria mãe, Manuela urinou em todo o seu calção, formando uma poça mediana no chão. Automaticamente, Alfredo se afastou enquanto as mãos da filha voavam para os próprios cabelos.

   — Me desculpa papai, por favor por favorzinho eu juro que não vou mais fazer isso! – Um soluço escapou de Manuela enquanto a mãe, sem desconfiar de nada, foi até a filha a abraçando pelos ombros.

   —  Não precisa disso tudo meu amor! Isso acontece com as melhores garotinhas, e seu pai não tem motivo pra brigar com você. – Regina beijou a testa da filha. – Fred, enxugue isso e troque o uniforme da Manu, já estou atrasada para minha consulta no Dr. Vasco. Amo muito vocês dois, qualquer coisa que precisarem, estou levando o celular.

   O micro-ondas apitou ao mesmo tempo em que Regina deu um demorado selinho em Alfredo. Iluminada com um grande sorriso, ajeitou o seu cabelo castanho na tiara que usava, agachou-se com algum esforço em frente à Manuela, chegou ao seu ouvido enquanto acariciava as madeixas pretas e encaracoladas da filha a acariciando ternamente, sussurrou audível para a filha um breve “Obedeça o papai querida”. Então, com auxílio de Fred, levantou-se e pegou as chaves de cima do balcão. Vestiu o casaco de lã vermelha e pendurou a enorme bolsa de couro nos ombros. Acenou para sua filha e marido, andou animada enquanto acariciava a barriga inchada com seu filho sob o vestido longo. Foi até a porta da sala e então desapareceu.

   Alfredo esperou até que o barulho do Ford Ka – 2010 amarelo de sua esposa fosse silenciado, foi até a lavanderia e voltou com grande pano de chão. Jogou sobre a poça de xixi e voltou-se para a filha. Não havia mexido um músculo sequer desde que Regina havia fechado a porta da sala. O pai desligou o micro-ondas que reclamava enquanto caminhava até a menina e parou apenas quando sentiu-se satisfeito. Estava tão perto que poderia tocá-la apenas esticando os dedos.

   — A mamãe não vai mais te amar, sabia? Depois que ela ver o novo bebê tudo vai mudar. Vai querer devolvê-la pro orfanato sujo de onde você veio. Mas você é uma boa menina para o papai, não é?- Envolveu um dos cachos de Manuela entre seus dedos, alongando os fios, soltou com  muita delicadeza e foi até a porta da sala. Trancou e encarou a filha. – Eu posso protegê-la. Consigo convencer Regina a mantê-la nesta casa, mas vai ter que fazer um favor para o seu querido papai...

   — Não papai, eu tenho nojo dos seus favores! – Os lábios pequenos tremiam formando um beicinho. Manuela ainda estava molhada com a sua própria urina. Quando falou, sua voz não passava de um fino sussurro e o medo era a única coisa que preenchia a garotinha.

   — Shhhh! Não quer que eu fique com raiva, quer?! Você não quer, vai ser a boa menina que sempre é... Venha até mim – Manuela hesitou encarando o pai, o mesmo avermelhou-se e então repetiu em voz alta. – Venha aqui agora Manuela! Isso mesmo filha, obedeça o papai! Agora você vai ajoelhar-se em minha frente. Foi muito difícil? Claro que não, na próxima vez que me desobedecer eu vou castigá-la. – Uma lagrima escorreu dos olhos da menina de seis anos, e ela não respondeu o pai desta vez.

   — Você gostas de pirulitos? – A garota arregalou os olhos castanhos de corça e, então, negou com a cabeça, veementemente -  Sua mãe também não gosta mais, não depois que engravidou, mas acontece que o papai tem necessidades e você irá me ajudar com isso. E então, eu não a devolvo para o orfanato.

   — A mamãe vai brigar comigo. – O demônio em sua frente sorriu satisfeito, abriu o cinto de couro e o tirou jogando no seu lado.

   — Sim, ela vai ficar furiosa com você se acabar descobrindo, então a nossa regrinha de manter segredo ainda continua em pé, não concorda? – Sua voz soava rouca olhando Manuela, que chorava encarando o pai. Ela acenou com a cabeça, incapaz de responder. Abriu o botão da calça e desceu o zíper.

   — Agora você vai lamber o pirulito do papai, como eu te ensinei, e se morder o que acontece?

   — Você usa a sua cinta em mim. – Manuela quase não conseguiu falar, estava pálida como a morte e tremia violentamente.
  
   O grande demônio recostou suas costas na porta de cerejeira, puxou a menina para mais perto. Satisfeito, abaixou a calça e a cueca até os joelhos, e seu membro saltou para fora. A menina arregalou os olhos. Apenas o olhar ameaçador de Alfredo a impediu de gritar. Seu quadril gordo avançou até a criança, fazendo as partes íntimas roçarem na boca inocente de Manuela.

   Na segunda vez, Alfredo exigiu que a doce criança encostasse a língua em seu corpo, e então os instintos venceram Manuela. Seus olhinhos apertados com força não possuíam a coragem de ver o que acontecia ao redor. Abriu a boca e gritou com todo o fôlego que possuía.

   — Sua miserável! Agora me deixou furioso! Reze para que ninguém tenha ouvido, porque senão... – Seus olhos escureceram enquanto fazia a ameaça. Não havia medo no seu olhar, apenas ódio.

   Levantou as calças com um movimento rude. Abotoou a braguilha e, enquanto puxava Manuela colocando-a em pé, ouvia os passos de um dos vizinhos.
  
   Foram Manuela e Alfredo até o quarto rosa da menina. Alfredo trancou a porta e empurrou o armário de roupas em frente a ela, bloqueando o caminho.

    Andava pelo quarto como uma barata tonta, dando voltas enquanto pensava. No canto do Manuela observava o pai enquanto encolhia-se embaixo da penteadeira. Conseguiu ver o momento em que ele parou subitamente de andar, sorriu com seu ar escurecido de ódio e a encarou.

   Do outro lado da casa, o vizinho tentava achar uma porta acessível para entrar. Junto dele estavam mais três viaturas para assegurar o caso. Já haviam tentando por todas as portas e nenhuma mostrou-se fácil. O Xerife Gomes, já com as mãos brancas de tensão, levantou sua arma e atirou na fechadura da porta frontal. A entrada estava aberta agora e todos os policias entraram correndo dentro da casa, procurando o pai com a menina. 

   A cozinha vazia, com exceção do pano sob a urina, os banheiros intocáveis e cheirando a limpeza, o quarto do casal com a cama desarrumada, mas nenhum vestígio de Alfredo e Manuela. Xerife Gomes suava frio quando outra sequência de tiros soou do lado norte da casa. Toda a tropa de policiais correu em direção ao som. Era o quarto da menina. A porta estava inacessível e não haviam janelas de acesso. Foi preciso vários minutos para que a porta pudesse, finalmente, ser aberta.

   Um pequeno armário cor-de-rosa estava destruído no chão, o quarto uma bagunça. Xerife andou cauteloso adentrando o ambiente, mas ele não estava preparado para o que viu.

   No meio da cama, enrolada em uma boneca de pano, jazia Manuela. A criança de apenas seis anos estava nua e seu pequeno corpo preso nos braços de Alfredo que sorria. Ao ouvir a porta abrir e avistar o Xerife Gomes, sorriu em alívio.

   — Era apenas você ... – Alfredo riu, enquanto Gomes retribuía o sorriso. – Ajude-me a limpar a bagunça irmão, Regina chega em duas horas.

 
Temática : Família
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