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Bons Conselhos Em Boa Hora

-- De onde vêem essas pessoas? Realidade? Imaginação? Alucinações? Visões? Depois do coma tudo mudou. Aliás, não consigo mais lembrar direito de como as coisas eram antes. Não tenho certeza de mais nada.

-- O que é sonho? O que é realidade? Tudo é uma questão de escolha. Lembra da história de Joana D’Arc? Dentre tantas interpretações para aquela espada no meio da floresta por que ela escolheu justamente a da “missão”? Eu sou real? Você é real? É tudo uma questão de escolha de interpretação. E se eu lhe dissesse que não sou uma pessoa real e sim o que chamam “consciência”, ou talvez o que Freud antes interpretou e chamou de "ego", ou  “super-ego”? Como você me chamaria se eu realmente isso fosse, e antes de Freud e outros me terem definido como tal? Escolher é uma questão de querer pensar. Só que pensar dá muito trabalho, requer muita energia. Por isso muita gente toma o caminho mais cômodo e aceita acreditar nas escolhas dos outros. Por que, ao invés de tentar descobrir o que é real ou não, você simplesmente não faz o que esses “seres imaginários” estão lhe aconselhando, já que não há nada de mal em tudo isso? Por que não tornar conhecidos os trabalhos desse “escritor” de sua infância? O que há de mal em concentrar suas energias nesse projeto?

-- Eu tenho pavor de me expor! Tenho muito medo da reação das pessoas. Além do mais, quem disse que eu tenho capacidade para escrever? Desde quando isso vem? Por que agora, de uma hora para outra, teria eu que me tornar escritora? Minha amiga nova-iorquina não vive me dizendo que já há muitos escritores, de que o que precisamos é de mais leitores, isso sim?

-- Talvez porque as suas histórias sejam interessantes? Porque talvez devessem ser conhecidas? Talvez porque as suas estejam fortemente intrincadas com as histórias do “escritor” da sua infância? Talvez porque tanto você quanto ele quisessem, sobretudo, fazer as pessoas felizes?

-- Fazer as pessoas... felizes?

-- Sim, o que há de mal nisso? O que Newton fez e descobriu mudou a vida de toda a humanidade, mas depois de ter escrito suas grandes obras não conseguiu produzir mais nada relevante. Passou sim o resto da vida disputando mesquinharias com contemporâneos. O caminho da Ciência não deu a você o alento necessário, o que a Literatura pode lhe dar. Teria  a Literatura menos valor que a Ciência? Talvez alguns grandes cientistas, como Newton, seguiram unicamente suas obsessões porque não tivessem mais nada a que se apegar. Talvez quem não consegue rir de uma piada, também não consiga contar uma. Fazer outros felizes não seria a prioridade delas, dessas pessoas. Mas o que há de mal nisso, em ser o palhaço, o bobo da corte, em levar alegria para as pessoas?

-- Querer fazer as pessoas felizes... Certa vez, no meio de um supermercado, uma mulher perguntou-me se eu estava feliz aqui, na Alemanha. Essa pergunta me tomou de assombro. Respondi rapidamente que sim, só para me livrar da mulher, mas ainda hoje penso sobre isso, sobre esse episódio e tento me responder, sinceramente, se estou realmente feliz aqui, na Alemanha. Considerando que Felicidade não seja um fim e sim um caminho, diria que sim, que tenho a impressão de estar no caminho certo, embora de vez em quando ele se mostre doloroso...

-- “O talento não está na cabeça, e sim na bunda. Se você não consegue sentar também não consegue escrever.”(1) Pois bem, se você já aprendeu a sentar-se, e assim por muito tempo permanecer, o que lhe impede então de começar, de verdade, a escrever?

-- Tenho escrito por toda minha vida.

-- Então é hora de tornar público seus escritos. Coragem! Lembra daquele sonho que me contou em que alguém lhe instruía a não ter medo da morte, pois não doeria, seria como um rápido piscar de olhos? Pois bem, e se você trocar a idéia do medo da morte pelo medo de publicar? Feche os olhos e deixe acontecer. Não tenha medo...

-- Tentarei, mas nada posso lhe prometer...

                                       *  *  *

Depois dessa conversa com a minha terapeuta, fiquei pensando sobre tantas coisas...

                                       *  *  *

O “escritor” da minha infância... Esse passou toda a sua vida com medo de muitas coisas e morreu lamentando-se. Jamais teve a coragem de tornar público seus escritos. E agora, sento-me eu aqui a ler o que escreveu e tenho essa difícil escolha diante de mim... Num de seus cadernos, que agora comigo estão, encontrei:

“Já faz um tempinho que deixei de citar poetas, filósofos ou ‘pensadores’. Também não finjo mais saber de tudo, começando as frases com expressões arrogantes, do tipo ‘na verdade...’ ou ‘a rigor...’. Eu era um comediante e nem sabia. Não. Eu te falo humildemente do que acredito e das coisas que consigo ver, de onde estou. Só isso. E, neste contexto, quero dividir contigo algumas idéias:
 
Teu compromisso não é com a humanidade. Teu compromisso é contigo. ‘Mas, amigo, é nesta sociedade em que eu vivo. Não posso ignorá-la ou fingir que ela não existe...’. Não se trata disso. Se, às vezes, for preciso fingir ser um deles, como naqueles filmes de mortos-vivos canibais, em que o personagem tenta imitá-los para não ser comido, tudo bem. Finja, se isso não for te agredir ou te macular essencialmente. Mas talvez chegue o momento em que o melhor mesmo é ser comido. Há coisas bem piores do que morrer.
 
O que estou te pedindo, e, por ainda ser muito ignorante, não estou conseguindo explicar como executar, ou implementar, é que não deixes de ser tu mesma. Acima de tudo, ouça a si mesma.
 
A vida ‘É’ assim? Não! A vida ‘ESTÁ’ assim, mas não apenas pela ação dos tolos, mas talvez, principalmente, pela omissão daqueles que já conseguiram abrir um pouco os olhos!! Não se omita.
 
Eu queria poder te dar um abraço, agora. Estou realmente emocionado, e não espere um discurso linear, bem organizado... também não vou voltar para editar o que já escrevi... Desculpa, vou respirar fundo. Mas, o fato é que considero esta uma questão fundamental, essencial da existência.

Uma mentira será sempre uma mentira, não importa se repetida por todos. Alguns assim chamados ‘pensadores’ adoram se entregar a longas sessões de masturbação intelectual, em joguinhos de palavras e labirintos lógicos tentando demonstrar como o bem e o mal são relativos... cuidado. O amor sempre será construtivo. A honestidade, a autenticidade, a verdade e a justiça sempre edificarão. Teatros, relações superficiais, frias e competição pelo progresso material sempre serão nocivos.
 
Tu és uma pequena estrela, brilhando em um pântano, com pessoas acostumadas com a escuridão. Lembra de Jesus? Quantos o entenderam, na época? Quantos o entendem, hoje, em sua mensagem de amor, tolerância, comunhão? Mas também não os queira mal... eles precisam de tempo. O tempo, eu repito, está do nosso lado.
 
Eu poderia escrever um livro, dizendo como me sinto sobre tudo isso, mas tudo se resumiria em poucas palavras:
Por favor, sinta, pense, fale, aja e seja honestamente você mesma. Seja coerente e lúcida com seus valores, suas crenças. Não cometa esse suicídio terrível. A alegria que te trariam a aceitação e a admiração dos ‘outros’ não compensaria. Lá, no fundinho do teatro, no escuro, sentarias tu, a protagonista, com lágrimas silenciosas, enquanto a platéia de bufões aplaudiria a peça. Não compensa, não adianta, não acrescenta...”

Para quem teria ele escrito isso afinal?

                                        *  *  *

Referências:

1 - Frase atribuída a Paul Schuster.

Nota da autora:

Não vá confundir “autor” com “narrador” :-)
Este conto está relacionado aos seguintes (por ordem de postagem):
- Histórias;
- O Cientista;
- Sobre Necessidade de Aplausos;
- Entre Mulheres;
- À Tarde Entre Mulheres, à Noite Entre Homens;
- No Bosque;
- Conversa Interrompida.
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 23/07/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1714815
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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