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À Tarde Entre Mulheres, à Noite Entre Homens

- Eita, que o dia hoje foi repleto de emoções! Pela manhã, pela tarde... Espero que consiga ter uma boa noite... – nisso pensava eu, escovando os dentes e preparando-me para ir para a cama. Olhei no espelho, acima da pia, e qual não foi minha surpresa a dar de cara com a imagem de meu amigo escritor, o brasileiro, que mirava-me sorridente, da porta.

- Vim para uma conversa rápida de fim de noite. – disse me - Hoje estou meio agitado. É que me mata essa vontade de escrever e não ...

- Dá pra me esperar lá na sala?- cortei-lhe a fala, séria, fitando-o bem dentro dos olhos mulatos - Detesto expectadores no banheiro!

- Oh, mil perdões! Esquecia-me de como o ser humano é cheio de pudores vãos. – Disse-me, fingindo afetação - Aguardo-te na sala então, sentado. Não demores, por favor. – Deu um de seus típicos sorrisos de canto de boca. Eu nem sabia mais se quem estava ali, diante de mim, era o escritor ou um de seus tantos personagens.

- Mas que atrevido! – pensei – Esses meus amigos... Tem horas que... Nossa, como são impertinentes!

Antes de dirigir-me à sala, dei uma espiada em meu marido, no quarto. Esse, há muito já deslizava nas ondas do sono profundo, ao certo embalado pelos braços vigorosos de Morpheus.

- Também, coitado... – sussurrei -  Estava mesmo cansado o meu bichinho – Despreocupei-me dele.

Caminhei até a sala onde meu amigo escritor já esperava, e muito bem acomodado num sofá. Trajava-se como ditava o costume em 1881. Sem esconder a curiosidade, falou calmamente:

- Que confusão foi essa aqui hoje à tardinha? Teu marido agora deu para expulsar visitas?

Respondi em tom alegre:

- Que nada! Ele só estava cansado. Aliás, as meninas não se ofenderam nem um pouco, pois sabiam que era brincadeira. Elas bem o conhecem, sabem que ele, quando está cansado ou com fome requer toda a minha atenção só para sí.

- Hummm...Sei. – fitou-me meio de canto de olho -  E as mulheres, quem são? Não as reconheci.

- Onde estavas que não te vi? – perguntei surpresa e logo notando a inutilidade do fato, segui: - Já sei, pouco importa...  A loura? Ah, uma amiga escritora, a nova-iorquina, uma de quem te falei outro dia. A outra, a morena, essa é professora. Conheci-a na Uni.

Lançou-me um olhar meio duvidoso.

-  A loura... ah, lembrei! Pensei tê-la ouvido chamando a morena de Marion... alguma coisa... Marion Goodman.

- Sim, verdade. Como ainda não haviam sido apresentadas, a loura confundiu a morena com a Marion, por causa da citação espalhafatosa que esta fez ao entrar. Porém, antes que se fossem, esclareci o mal entendido. É uma alemã, professora de literatura. Nos corredores da Uni é conhecida como Prof. Dr. Dr. Crítica.

- Humm... apelido pouco original, não? – disse com desdém.

- Pode ser... – o sono me impedia de querer pensar mais a respeito - Sim, mas isso não vem ao caso. – falei bocejando - Amigo, diz-me logo a que vieste, por favor. Adoro tua companhia, mas hoje estou caindo de sono.

- Pesquisas, minha cara, pesquisas... – olhava para a ponta do nariz, como lhe era bem peculiar... a ele ou ... ao espectro de Brás Cubas que parecia trazer impregnado no couro – Pensei que esse episódio de hoje, aqui em tua casa, pudesse nos dar uma boa história. Ah, e por falar em boas histórias, - virou-se elegante, inclinando o corpo em minha direção - andei trocando umas idéias já com a Sontag,  mulher inteligentíssima mesmo, tiro meu chapéu! Sabias que ela, assim como tu, costumava colecionar pedras? Essa mania, contou-me, adquiriu quando viveu em Tucson. Tinha tantas coisas mais para contar-te, mas como estás cansada... Melhor mesmo é que me vá agora.

- Ah não, justo agora que cheguei?... Esperai um pouco mais. Trago-vos algo interessante.

Isso falou meu amigo cientista, o inglês. Atravessou a sala em busca de um lugar. Quis sentar-se na cadeira do gato, porém olhando os pêlos no manto que a cobria, como que querendo preservar impecáveis os seus trajes finos, logo buscou e achou outro lugar para acomodar-se.

- Por favor, amigos, não me levem a mal. Podem voltar sempre que quiserem, porém hoje estou tão cansada... Amanhã pego cedo no batente e ... – e o brasileiro:

- Fazia já um bom tempo que não ouvia esta expressão: “Pegar cedo no batente...”

- E o que significa? -  perguntou o inglês.

- Significa: Amanhã começo a trabalhar MUITO cedo! – disse-lhes eu. Fiz questão de demonstrar impaciência.

- Minha cara, por favor – pediu o inglês – deixa-me somente compartilhar convosco com quem cruzei na rua, hoje à tarde.

- Ai meu Deus, certamente outro ou outra que não deve bater bem da bola... – pensei – mais um pouco e vão querer nos internar, a mim e ao meu marido, sem dúvida!

Ignorando minhas divagações, o inglês continuou:

- Querida, a pessoa com quem hoje encontrei disse-me ter tido experiências assim, com as tuas. Falava com personalidades e até mesmo com idéias abstratas. Contei-lhe de ti.

- Ai meu Deus, eu não disse? – nem sei mais se disse isso ou só pensei – E quem é? – perguntei por fim.

- Já leste “Les Miserables”? – perguntou-me o colega inglês.

- Não, mas já ouvi falar. – respondi desinteressadamente.

O brasileiro mexeu-se em seu assento, inquieto:

- Como? Ainda não leste “Les Miserables?” Como podes...? – disse o escritor.

Interrompi-os:

- Meus caros, não disponho de todo o tempo do mundo, assim como vocês... Leio coisas que me procuram. E vocês sabem muito bem disso.

- Sim, sabemos... – concordou o inglês – E o que sabes tu sobre esse autor de quem vos falo?

- Que ele era meio “pinel”? – arrisquei, numa clara provocação.

O brasileiro olhou-me meio torto e soltou essa:

- Ih, pareces estar mesmo cansada. – E olhando para o colega: – Não seria mesmo melhor que a deixássemos descansar?

- Já faz tempo que não sei o que é estar cansado... – suspirou o inglês.

Ignorando os últimos comentários dos dois, recomeçara eu a ladainha:

- Certamente terei grande prazer em ... – fechei os olhos levemente, num piscar um pouco mais demorado, e quando os abri não os vi mais. Chamei: -  Amigos? Amigos? – haviam sumido – É falta de educação deixar os outros assim, falando sozinho viu? – disse zangada olhando para o vazio.

- Ah, é sempre assim... – resmunguei a caminho da cama - Esses meus amigos são legais pacas, mas também são uns folgados, viu? Vou te contar, só vendo!


Nota:
Este texto dá continuidade ao conto Entre Mulheres.
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 14/06/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1648723
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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