O Belo e o Feio no Avesso do Espelho

“Teriam mesmo meus pais escolhido a dedo esse nome?” – perguntou-me, certa vez, a doce Lindanaura – “Não, pois minha avó chamava-se Naura. Será?...”

Diz a lenda que a velha parteira caiu durinha e virada de pernas pra cima, morta, logo depois de ajudar Lindanaura a nascer. Dizem ter sido de susto que a velha morreu. Eu não sei, não vi. Só sei que teve um infarto fulminante. Esta parte da história contam os que acudiram.

Lindanaura ouvira por muito tempo que nascera num dos dias em que a beleza estava de férias. Os pais-coruja, literalmente, aceitaram-na e amaram-na do jeitinho que veio. Não dizem que “quem ama o feio bonito lhe parece?” Isso mesmo.

Criatura interessante essa minha amiga Lindanaura... Sua pureza, bondade e inocência eram exponencialmente maior do que a medida de feiúra que lhe atribuíam. Seus olhos, arrisco-me dizer, só eram capazes de ver o que era belo e bom.

E assim Lindanaura cresceu. Por muito tempo ignorou completamente a feiúra que lhe viam na cara. Achava estranha a maneira como as pessoas reagiam à sua pessoa, mas também era só isso. Achava tudo engraçado, interessante. Isso, porém, até aquele dia fatídico – ou o dia da revelação, como ela a ele se refere.

Por ser a adolescência uma fase de muitas, sucessivas e rápidas transições, não é de se estranhar que, nesta época da vida, aconteça de 'naturalmente belos' tornarem-se 'monstrengos', e 'monstrengos' tornarem-se 'belas borboletas' ou coisas do tipo, nem que seja só temporário.

Fato é que, durante o crescimento do corpo é perfeitamente natural haver desproporcionalidade, falta de simetria aqui e acolá. No caso de Lindanaura a adolescência foi-lhe muito, muito mais cruel do que a infância, acentuando-lhe ao máximo o feio do feio rótulo que lhe atribuíam.

Um dia, a caminho da escola - o dia da revelação -, lá se ia Lindanaura, no teor de seus 11 anos, contente e distraída, e cantando - como sempre fazia. Deste dia lembra-se bem, pois ia cantarolando uma de suas canções preferidas, na época:

“Lindonéia desaparecida

Nas paradas de sucesso...” (1)

Ia descendo uma rua estreita e longa. Sua escola ficava ao final. A poucos metros da entrada para o prédio da escola havia uma pracinha, em frente a uma igreja. Tanto a escola quanto a pracinha ficavam em paralelo com a rua que agora descia, interligados a essa por pequenas ruelas.

Numa das últimas, uma das ruelas que dava para a pracinha, Lindanaura avistou um grupo de meninos, todos aparentando serem mais velhos do que ela, rapazotes de 14, 15 ou 16 anos, talvez. Continuou seu caminho.

Porém, ao passar pelo grupo, um dos garotos separou-se dos demais – todos riam e falavam alto – interpelou o caminho da menina e começou a recitar-lhe um poema ou algo do tipo. Lindanaura, que tudo sempre engraçado e interessante achava, ouvia com atenção, encantada. Ao final, o garoto acrescentou:

“Se bem que nessa tua escola” – Lindonaura usava uniforme – “tem muita menina bonita. Mas uma coisa eu tenho que te dizer: “ – e aumentando a voz: - “Mas tu é feia pra diabo, hein?!” – e voltou-se para o grupo, dando sonoras gargalhadas. O grupo inteiro explodiu em gargalhadas junto a quem, ao que tudo indicava, era o palhaço-mor.

Lindanaura continuou seu caminho, meio trôpega, não sabe mais ao certo. Só é capaz de lembrar-se de uma sensação no estômago, inconfundível, uma que lhe acompanharia por muito tempo como parte inseparável do corpo, como se seu ser, todo, fosse só aquela região, encolhendo-se, diminuindo, retorcendo-se numa tentativa frustrada de desaparecer. Dias atrás, folheando uma enciclopédia, dera com uma gravura de Michelangelo retratando o que seria o inferno. Lembrou da figura que atribuía ao diabo. Lembrou do que há pouco lhe cuspira na cara o menino: “Tu é feia pra diabo!”.

Pela primeira vez via a reação 'estranha' das pessoas de uma outra maneira. Lágrimas irreprimíveis escorriam de sua face numa força e velocidade que até então lhe eram desconhecidas. Nunca, nunca antes havia experimentado aquele sentimento, a maldade humana em ação, tão gratuita, ainda mais quando partia de tão inesperado 'front'... Nunca poderia imaginar, até aquele dia, que alguém quisesse, propositalmente, fazer-lhe mal.

Naquele dia, pela primeira vez, interrompeu seu caminho para a escola e voltou para casa. Por um outro caminho, claro. Em casa, no aconchego de seu quarto, chorou muito, chorou tudo o que tinha que chorar para digerir esse episódio, quem sabe esquecê-lo, enterrá-lo. Seus pais, ninguém mais antes de mim, jamais souberam dessa 'revelação'.

Nem por isso passou Lindanaura a odiar as pessoas, a achá-las menos interessantes ou engraçadas. Com o tempo, aprendeu a sorrir desse episódio, embora só agora pudesse falar a respeito dele.

Mais tarde, riu também de uma vez em que foi a uma festinha de faculdade, acompanhando um amigo. Ao vê-lo chegando com ela, alguns 'colegas' começaram a cantar uma música do Jorge Ben Jor:

“Roberto, corta essa

Pois lugar de dragão

É na caverna!” (2)

E para lembrarem-na de sua longa solterice – do que muitos tentavam convencê-la ser conseqüência única de sua 'feiúra', algo no que ela nunca de verdade creu -, cantavam-lhe Roberto e Erasmo:

“Sozinha no silêncio do seu quarto

Procura a espada do seu salvador...”

(...)

“Você precisa de um homem pra chamar de seu

Mesmo que esse homem seja eu!” (3)

Lindanaura, não digo que não sofresse, mas aprendeu a rir, que era o melhor remédio. Levava tudo na esportiva, com muito bom humor. Às vezes até cantava em resposta às provocações:

“É que Narciso acha feio o que não é espelho...” (5)

Colegas aconselhavam-na a dar uma ajudinha na 'natureza', modificando aqui e ali. Afinal, como gostava de dizer uma das meninas da faculdade, uma que nas horas vagas trabalhava numa clínica de cirurgia plástica: “Ora, minha filha, não existe gente feia, existe gente pobre, isso sim!” Lindanaura sorria ao pensar nas reais chances de sucesso em casos de transplantes de cérebro.

Com o tempo, percebera que mesmo tendo nascido assim feia, como boa parte do mundo a via, conseguia viver muito bem. Ou seja, beleza não era algo de fato fundamental, como alguns poetas do passado cantaram e divulgaram.

Beleza não se lhe mostrou necessária para uma vida plena. Algumas pessoas, parece, estarão sempre insatisfeitas com os outros e consigo mesmas: “Fulano é muito gordo ou muito magro, genial ou patético, inteligente ou pangaré, muito alto ou muito baixo, um sucesso ou um fracasso."

“Um dos segredos” – disse-me ela – “é ser paciente com os menos evoluídos, os que não conseguem ver um palmo adiante do próprio nariz, mesmo quando alguém lhes mostra a direção. Isso, quando consegue fazer com que desviem os olhos do próprio umbigo.”

O Belo e o Feio parece que estão mesmo nos olhos de quem vê. O discernimento entre os dois é mais fácil para quem consegue ver com o coração.

“O essencial é invisível aos olhos” (4). Isso, confirmou meu amigo cientista, o inglês, em 1851, ao comunicar ao mundo suas descobertas sobre comportamentos de linhas de força em campos magnéticos.

Fiquei pensando também como seria viver na cidade descrita por Saramago em 'Ensaio Sobre a Cegueira'. No caso de estarmos todos cegos, o que muitos entendem por 'belo' e 'feio' faria ainda alguma diferença? Vai ver estejamos, de fato, todos cegos. Cegos, porém com a ilusão da vista. Quem sabe, não é?

1 – Trecho de Lindonéia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, na interpretação maravilhosa de Nara Leão.

2 – Trecho de 'Roberto, corta essa', de Jorge Ben Jor.

3 – Trecho de 'Mesmo que seja eu', Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

4 – Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe.

5 – Trecho de 'Sampa', Caetano Veloso.

Nota:

Não confundir 'autor' com 'narrador'. Este texto faz parte de uma série de contos de fantasia (não encontrei categoria melhor para expressar o que estou fazendo). Trata-se, portanto, de Ficção. Quando não explicitado no texto, pessoas, lugares, situações etc. são pura invenção.