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Sobre os Papais depois do Porre

                   Estavam os três: dois homens e uma mulher sentados à mesa do bar. Entre tragadas e baforadas nos pitos, já haviam consumido uma leva de cervejas e enchido vários cinzeiros. Trabalho não faltava ao garçom, que às vezes se metia na conversa.
                     Dia dos pais que se aproxima. O diálogo acalorado e sorrisos tomam assento. E o exercício da dialética resume-se em para toda sentença proferida, uma tréplica cabível.
- Filho é assim mesmo: nós não dependemos dele, mas eles sempre dependerão de nós.
- E isso faz com que, pais e filhos, estejam sempre unidos. Na alegria ou na dor. Tenho os meus e não os troco por nada. Como são amorosos.
                      Repentinamente, aparece um dos filhos. Cumprimenta os presentes e gentilmente, beija a testa do progenitor. Sorriem todos, Aproveitando o ensejo, o filho cochicha algo ao pé do ouvido do pai; que incontinente, cofia o bolso e de lá, trás uma nota de 50 reais:
- Devolva-me o troco.
                                        Os três continuam o cerimonial domingueiro. Mais uma rodada de tragos, sorrisos e informações familiares. O filho volta, abraça o pai e devolve parte do troco. Saindo, disse: "O macarrão da mãe está quase pronto; vá logo"!
         Contente, o pai fala aos demais: "como não amar um filho desses? Teve lá seus problemas, e quem não os tem? Fumou maconha, traficou, foi vendedor de drogas nas escolas; me deu três netos ilegítimos, de sangue duvidoso; roubava carros, mas se regenerou, foi para a igreja, segue rigorosamente a religião e hoje é o homem que vocês acabaram de ver. Está, inclusive, trabalhando. Atitudes como essas, são constantes lá em casa. Orgulho-me em ser pai e pertencer a uma família feliz!".
                      Ao que o outro respondeu: "Amém"! Virando à esquina, já distante do pai, o filho tece elogios rasgados ao pai: "Esse  meu pai, é mais do que um pai; é um pai com aço; é um paiaço! Otário, alimentador de vagabundos! Pai igual ao meu pai, o país e o mundo está cheio".
                            Fora ele, a família compunha-se da mãe, duas moças
 e mais quatro homens. Totalizando uma família de oito pessoas responsáveis, idôneas e felizes. Dando a entender que leram a crônica "Sobre os Papais depois do Porre", os três levantaram-se da mesa, apagaram a guimba, viraram o trago restante e em oníssono, sentenciaram:
                                           "Amém! Mas que é uma safrinha ruim, de grãos ordinários, carunchados, isso é!" E cambalearam todos em direção às suas casas, pois comeriam o macarrão domingueiro e assistiriam o futebol na Globo mais tarde. Óbvio que após um soneca relaxante, porque pai nenhum é de ferro; e merece como poucos, um descanso reparador. Segunda-feira é dia de pais brancos, negros, pardos, azulados, avermelhados e (ir)responsáveis pela prole.


P.S.: Como tudo na vida é crença e a maioria crê na família, que segundo o professado pelo espiritismo, não passa de resgaste ou sofrimento cármico entre os que se juntam para formar a célula-mater social.
   
 
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 13/08/2017
Reeditado em 13/08/2017
Código do texto: T6082203
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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