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Quero ser Roberto Carlos

Foi como um chamado…

Ainda pequeno sentiu que tinha voz grande. Ninguém falou. Nem a mãe, boa, aliás, muito menos o pai, trabalhador, mas pequeno de visão e ganância. Para ele, criar a penca de filhos e ter o de comer era o bastante; nem que assim fosse para o resto da vida. Com a graça de Deus!

O menino do qual falamos foi acolhido no batismo como Sineval. Tinha só 10 anos quando estourou a jovem guarda. Todo aquele pessoal descolado, cheio de estilo e bossa… As mulheres eram as queridinhas, as namoradinhas do Brasil; e os homens, de jaqueta de couro, cabelos cheios (alguns, compridos) e costeletas maiúsculas, arrastavam muitas saias para aquela onda. A histeria era do tamanho do sucesso da turma.

Sineval encantou-se com a Jovem Guarda. Para sua sorte, no ano de 65, entrou no lar o bem mais precioso que sua família conheceu: a televisão; e isso foi a coisa mais improvável do mundo, pois naquela época uma televisão era mais que diamante.O antigo dono só se desfez dela porque calculou como inutilizada depois dum tombo.

– Fico com ela assim mesmo, se não tiver jeito, pelo menos servirá de relíquia.

Contudo, o dono não afrouxou no preço. Ainda assim ela foi comprada: de terceira mão e a duras penas; porque o pai, sujeito impressionável diante de uma inteligência superior, percebeu naquela caixa preta de imagens uma mágica indiscutível. Foi a única extravagância feita na vida por Seu Samuel, e dela resultara um ano inteiro de privações ainda mais severas para a família. Mas ninguém reclamou, pois a causa é boa!

Serafim, amigo muito jeitoso com máquinas, consertou o aparelho com uma rapidez que assombrou a todos, e, pelo feito, exigiu apenas entrada vitalícia para assistir as imagens impressionantes que aquela caixa produzia. Seu Samuel aceitou com prazer, não antes de apertar várias vezes a mão de Serafim.

Influenciado pela mágica das imagens, Sineval obstinou-se.

Passou a imitar o jeito dos cantores, nos mínimos detalhes: as frases, os maneirismos… E quis pulseiras, outras coisas de couro e cordinhas para pendurar no pescoço, ao gosto dos índios e da moda dos artistas. Mas isso não conseguiu ter, pois era criança demais, e criança não tem vontade própria para escolher ou decidir nada; isto sim! Ainda que não fosse, o dinheiro passava longe, mais ainda dos caprichos de um moleque com cheiro de leite.

– Não quero filho com costume feio, com o corpo coberto de enfeites de mulher! – dizia o pai com grosseria.

Sineval principiou também a evitar o barbeiro, desviando com tenacidade e muito choro do corte militar a que a família optava por gosto e por economia, mais por este que por aquele. Além do mais, os piolhos ficavam longe.

De tanta ladainha, amansou pai e mãe.

As meninas pareciam homenzinhos e graças aos brincos redondos e brilhantes que vinham nos chicletes, não eram. Os pais não faziam distinção alguma no tratamento aos sexos. E caso houvesse Natal naquela casa, o bom barbudo só deixaria bolas, bolas pretas e brancas para todo mundo chutar à vontade. Mas não havia, nem nunca houve, e as bolas bicolores não chegaram. Somente o velho pisca-pisca brilhava palidamente, a cada ano com menos luzinhas, sussurrando a única lembrança natalina. O importante é ficar vivo! Pensamento que serve bem aos ratos, baratas e soldados em guerra. Só a eles.

Um dia, à noite, depois de ver um programa de auditório na televisão, o menino decidiu toda sua vida de uma só vez. Não é artístico! Sineval não está bom, não presta! O nome que o batismo lhe dera impediria seu sucesso, ficara evidente. Já cantava bastante, a princípio por toda casa. Agora é questão de tempo! A Jovem Guarda que espere. Mas, enquanto o tempo criava lodo, já era cantor de verdade no banheiro. Somente lá passou a ser permitido; longe dos ouvidos dos irmãos e dos pais.

Em boa hora, chega-nos a casa paterna. Pequena e derrotada. Enfeitada de mofo, escamas de tinta desbotada teimando em cair dos lados e do teto; uma aquarela em alvenaria. Pelas paredes vacilantes passava um grande rio, com todos os seus afluentes e afluentes dos afluentes. E quanto a isso sempre foi difícil explicar como dali não saiu um surfista de renome. Talvez faltasse uma prancha… E a força de um sonho.

No entanto, naquele ambiente de águas indesejadas, nasceu um sonho de cantor. Um cantor formidável, formidável cantor! O maior que o Brasil já teve, vai começar no coral da igreja pra ter a bênção de Deus! Mas isso é coisa futura, bem pra frente.

D. Esmeraldina, a mãe, assim como o pai, não acreditava nessa baboseira de cantor famoso, rico, conhecido, blábláblá…Eram tacanhos demais para acreditarem; para sequer suporem a ideia de ascensão social, de sonho dourado. Contudo, essa mãe tinha o costume de falar aos filhos, quando via necessário, o que não acreditava ou achava impossível. Era o jeito de não desanimar as crianças – especialmente Sineval –, mas também mantê-los de rédea curta, dentro da insignificância doméstica a que ninguém pensava em sair. Não era maldade, na verdade nem sabia que havia alguma chance de fuga.

Mãe! Mãe é coisa boa, mãe pensa em tudo, mesmo quando sua visão é curta, turva, ela dá um jeitinho de clarear a vida dos filhos. O que seria deles, da sua felicidade, sem a figura divina da mãe? Com mãe sempre há alento e esperança.

Sineval não sabe que é criança e nem desconfia que faz sucesso apenas no banheiro de casa. Mas o que seria da humanidade sem um sonho, sem um ideal, sem uma ideia fixa? O que seria das pessoas que dormem emboladas como minhocas, sem perspectivas, se não fosse o enorme sonho de Sineval? Uma hora o desespero chegaria. E somente o desejo ferrenho em algo bom e grandioso pode fazer subjugar uma pobreza como a que tratamos aqui. Da alma.

Num lugar tão insalubre e faltando tantos recursos, a tragédia não passa longe. E um dia ela visitou a casa do nosso cantor…

Era frio forte dum inverno que parecia interminável, quando Valdinei, filho bem do meio, franzino e doente desde o nascimento, morreu em casa de pneumonia. Não foi morte tranquila, nem mansa. Tossiu como cachorro e engasgou a noite inteira; não chegava ar aos pulmões. Um martírio! A febre alta e constante fazia seus olhinhos ficarem brancos, revirados; e os pés e mãos retesavam nas horas de convulsão. Um martírio! Só vendo!

Bem cedo, pouco antes do amanhecer, os mesmos olhinhos graúdos penetravam nos da mãe; ela, desidratando na beirada da cama, se despedindo dele que se despedia dela e da vida pequena e vazia. Seu último som foi um gemido curto e baixo; algo como o vento soprando. Em seguida sorriu como criança desconfiada, flagrada num momento de travessura. Sua fisionomia também demonstrava surpresa, espanto e outros sentimentos mais que a mãe não soube dar conta naquela hora trágica. Foi realmente um sorriso difícil de entender e D. Esmeraldina se lembraria dele por toda a sua vida; e mesmo muitos anos depois, diante da hora final, ainda procurava decifrá-lo.

O mundo do franzino menino foi um vulto, uma sombra; pincelada com pouca tinta numa folha branca de papel. Não conheceu a vida o pobre menino, e nem se deu conta disso. Talvez não tenha sofrido além das dores da doença; é provável que não, pois Valdinei era somente água seguindo o curso do rio… Restou o retrato da morte sobre o colchão disforme: o corpinho magro, amarelado, uma perna fina como graveto saindo de baixo duma mantinha encardida e esburacada, em cima dos lábios superiores via-se catarro ressecado e verde descendo pelos cantos da boca até encontrar a gola alta da camisa que escondia o pescocinho fino. Usava o gorro azul que servia a quem ficasse doente na casa. Os irmãozinhos foram expulsos do quarto e choravam na sala, abraçados. Seu Samuel não chorou. Fez apenas um econômico sinal da cruz, com gravidade e resignação, saindo em seguida para acertar a papelada do enterro.

Essa morte precoce e sádica quase trouxe loucura à D. Esmeraldina, mas o total desespero pela perda do filho indefeso e amado encheu seu coração de raiva e, ao invés de levá-la por essa viela triste, a revolta lhe abriu os olhos e a fez encarar de forma diferente a dura realidade na qual sempre vivera. Diabo de vida desgraçada! Ainda se fosse menino gordo, arteiro… Mas tão desvalido, pobrezinho!… E o choro descia.

Desse dia em diante, esconjurou a pobreza familiar, passou a embalar (de maneira quase doentia) o desejo de Sineval em ser cantor famoso. Foi a única saída, o modo que encontrou para lutar, para viver. Via, pela primeira vez, a pobreza com a cara da pobreza. Passou a enxergá-la e a odiá-la. Antes achava que era somente vida, vida como tantas outras; não era farta, nem fácil, nem boa; mas outros também tinham vida assim. Ora!, era a vida que Deus deu e ela não podia reclamar, só aceitar.

Vida usurária.

– Meu filho Sineval vai ser cantor famoso e rico, custe o que custar!

Ao passar do tempo, um bigode ralo foi crescendo junto a envergonhadas costeletas no rosto de Rick Duran. A Jovem Guarda havia dispersado e todo aquele movimento cultural esfriara. O mais famoso trio, por exemplo, migrara para a carreira solo e assim fizeram outros.O cabelo crescera bastante; não era tão duro quanto o do Michael Jackson, porém meio fora de seus propósitos. Queria o volume, como pedia a época, mas nem tanto. O jeito foi apelar para o alisamento da palha.

Tem 19 anos. Foi um custo para a mãe livrá-lo do serviço à pátria. Ela teve que se desdobrar para montar a farsa de que o filho era arrimo de família. Mas como outras tragédias (e dessas não falaremos aqui) se abateram sobre a família até esse ponto, D. Esmeraldina foi enrijecendo o couro, ganhando, a cada nova chicotada da vida, força e determinação. A fraude colou e Sineval virou Rick Duran tão logo escapou do exército. Teve sempre vontade dum nome artístico, mas foi a mãe quem o escolheu. O pai torceu o nariz. Essa gente que canta na televisão é um bando de maconheiro e pederasta!

No entanto, depois que Rick Duran abriu o louvor de domingo na Igreja do Sétimo Céu, Seu Samuel, apesar de xucro e insensível ao chamado dum coração sonhador, acabou vencido por D. Esmeraldina.

– Pelo menos está cantando na casa de Deus – disse o pai sem nunca ter pisado na tal igreja ou mesmo em outra qualquer, e tampouco lido uma página sequer da Bíblia.

Durante muitos domingos o roteiro de Rick Duran foi esse: cantar louvor. No começo foi bom; mas não se pode dizer que bem. Pela primeira vez na vida era famoso fora do banheiro, pela primeira vez era visto com a importância que exigia seu insuspeito talento; e o prazer dessa fama discreta corrompeu por algum tempo sua pretensão maior.

Mas…

Deu-se, então, um belo dia, que alguém na platéia da igreja gritou:

– Como canta esse garoto!

Rick corou e riu com o canto da boca. Surge o primeiro elogio em público; antes do privado.

Com a mesma voz empastada, o homem prosseguiu, aos berros:

– Canta mais que o Caubi!

Rick se iluminou. O tom, ao microfone, elevou-se, o punho direito cerrou-se no clímax do louvor, a cabeça para o alto, o corpo tombado para trás e os olhos fechados numa atitude ensaiada por anos, por toda sua vida. Surgia o astro.

O homem sossegara de repente; cambaleante, algo sonolento. Deu as costas gesticulando com as mãos para o alto, contrariado com fantasmas que somente ele via e ouvia. Perto da porta de saída, tropeçou na própria falta de coordenação e caiu por cima duma senhora descascada com véu preto sobre a cabeça; e ali ficaram – revirando como insetos – até que vieram os mais próximos para colocar fim àquela cena cômica. O homem foi posto para fora levando ofensa e desaforo.

Canta mais que o Caubi! Nossa Senhora! Mais que o Caubi é coisa séria!O louvor do domingo ficou pequeno. Canta mais que o Caubi! A lembrança daquele dia sublime teimava em ficar, alertar, para que jamais se esquecesse, sobre sua enorme vocação. Ora, o mundo já sabia: ele era grande demais para aquele louvorzinho mesquinho. Não podia decepcionar o público, colhendo migalhas naquele lugar sem futuro. Canta mais que o Caubi! O tamanho do sonho não cabia na Igreja do Sétimo Céu da Graça Divina. Lembrava-se das multidões da Jovem Guarda, dos programas de auditório, das meninas enlouquecidas, dos carangos envenenados…Queria tudo aquilo para si e na Igreja do Sétimo Céu só haviam senhoras de idade adiantada, maridos sonolentos, mulheres novas e traídas, chorosas com suas crianças endiabradas. Existiam também alguns “ex” coisas ruins, no entanto todos eram ácidos ao ouvir Rick cantando. Não entendem nada! Bando de bostas!

Abandonou, por justo motivo, como já era de se esperar, o domingo na igreja e foi cantar num barzinho com oito mesas e dois garçons. Além das almas penadas, circulavam no lugar, sem nenhuma ansiedade ou constrangimento, as maiores baratas da cidade.

Chegou, então, outra tragédia (e dela falaremos): Seu Samuel teve um infarto fulminante na fábrica. Urinado, reduzido, tombou para frente – permanecendo de pé – e sua cabeça, na dianteira do corpo, foi esmagada pela prensa hidráulica; aquela que foi sua companheira de trabalho por mais de vinte anos.

O caixão ficou lacrado durante o velório. Choraram os filhos, uma vizinha viúva e carente (prestativa como nunca se viu), o vigia noturno da fábrica e D. Esmeraldina; esta desconfiada da vizinha carente, mas sem forças para averiguar. Não houve choro além destes, pois não havia mais ninguém na despedida ao defunto. Apareceu ainda um cão de rua com focinho de tamanduá; o animal se enroscava por entre os presentes e ria o riso dos cães com seu rabo fino e comprido. Seu Samuel passou pela vida. Não fumou, não bebeu, não xingou, não gritou…Não sonhou. Nunca! “É! Ninguém sabe o que ele trazia no peito!”, frase única do amigo vigia (benzendo-se), dita como sermão aos presentes. Todos o olharam confusos, esperando que prosseguisse, esperando por algo mais comprido, entretanto nem mais uma palavra chegou ao defunto.

Foi assim aquele enterro.

D. Esmeraldina, além do choro que traz o texto, desabou. Recolheu-se, exclusivamente, à casa. Doando cuidados, somente por força do extinto materno, aos filhos menores. Desgarrou totalmente da carreira do filho cantor. Como não tinha o seu próprio sonho, e sem um companheiro na vida, entregou-se à melancolia. Foi definhando, definhando… A cada ano, marcas mais profundas apareciam em seu corpo; sem trégua. Reproduzia-se nela, fisicamente, todas as mazelas da família. Todo novo dia uma ruga inédita, um osso mais saliente, uma pele mais flácida, uma dor mais crescente, uma senilidade mais presente, dentes mais ausentes; solavancos ao correr do tempo. E o tempo corria para ela; cansada, sem carnes e desgostosa da vida.

Quando a hora, enfim, chegou, num domingo qualquer, o pisca-pisca estava ligado, ansiando desesperadamente por um Natal, por um único natal que jamais existiu; ele queria falar do Cristo e das suas promessas de paz e felicidade eternas, mas tinha tão poucas luzes ainda vivas que a história sagrada ficou no escuro. Vieram à tona, isto sim, os acúmulos de desgostos, as desilusões, as tragédias… Um gemido rouco, indefinível, saiu dela ecoando pela casa vazia. Alguém dirá que esse gemido medonho foi o som da morte separando a alma do corpo para finalmente aliviar a pobre senhora da amargura que foi sua vida.

Tudo estava como sempre esteve naquele monumento à ruína: mofo, infiltrações, escamas, pedaços caindo… Sentiu-se, talvez, aliviada naqueles segundos finais. Estava sentada na cadeira de balanço em frente à janela da sala, olhando a rua barulhenta e os carros passando em alta velocidade quando fechou os olhos e a cabeça tombou para o lado; o gorrinho azul entre as mãos. Apertava-o.

Isso aconteceu oito anos após a partida do marido. Os filhos já estavam (mal) criados e esparramados pela vida. Teve sete: três meninas e quatro meninos. Destes, com exceção de Rick Duran e Valdinei, não se sabia o paradeiro; sabe-se que aquelas se casaram todas, cedo, junto com o primeiro sangue. E seguiam a vida miserável ensinada pelos pais, pois não sabiam fazer outra coisa.

O espírito de Rick Duran não envergava. Aos 29 anos tinha plena certeza do seu talento e absoluta convicção no seu sucesso. É só questão de tempo, mora! Jamais se esqueceu do saudoso Trio Ternura. É só questão de tempo! Cantava, ainda, no bar das baratas e noutras casas do gênero onde houvesse pouca gente, menos ainda disposta a ouvi-lo; bebidas ordinárias embriagando por quase nada quem resistia até o fim do show. Nesse tempo rodava de lá pra cá, dum covil a outro, na garupa dum amigo guitarrista que, como ele, acreditava numa rodada de sorte do destino. Estava completamente só e entregue a si mesmo na vida. O dinheiro era sempre menor que as despesas mínimas que possuía. É assim mesmo, a vida não é fácil pra ninguém; é só uma questão de tempo…

A moto.

Transporte perigoso é moto.

Chuva fina… Fininha… Dessas insistentes; de tão fina não conseguia lavar a areia do asfalto que descia da encosta. E uma curva pra esquerda… Ah! Aqueles malditos faróis fazendo ziguezague… Surgiram de repente no meio do nada, da escuridão. Será que se pode chamar de sorte o resultado do acidente? Acho que sim!

As únicas coisas boas para Rick Duran no hospital foram a total ausência de despesas e uma enfermeira carente, Assunto logo adiante…

Ulisses, de regresso à Ítaca, depois de destruir Tróia, concluiria ser pequena a jornada se comparada aos 40 dias de internação do nosso cantor: “É obra sem fim!”, diria ele, desanimado. Para o doente que está no hospital o tempo se agarra, fica bastante moroso; pois o interno nada tem para fazer senão esperar. Obviamente, isso causa impressão e subjetividade. Já para quem espera do lado de fora, a coisa toma contornos duma outra realidade, e, em poucos dias, os anos se passam como a luz diante de nossos olhos. Algo como o paradoxo dos gêmeos de Einstein. Equivale. Esse é o paralelo bem apropriado feito segundo as leis relativistas do alemão, pois os dias são realmente desiguais dentro e fora dum hospital. É caso provado pela ciência. Dentro, não há relógio que dê jeito na hora; fora, não há hora que se acerte com o tempo. Ou o contrário, nunca se sabe.

A bacia fraturada e o fêmur dividido em três partes deram bastante trabalho ao ortopedista; sem contar os ferimentos menores; muitos. O amigo guitarrista guiava a moto. Teve sorte maior: perdeu apenas a pele dos joelhos, um pedaço da orelha direita e dois dedos da mão que tocava foram quebrados quando se arrastava pelo asfalto depois de ser arremessado da moto. Ao contrário de Rick Duran, ficou apenas um dia no hospital, a maior parte dele em observação, e lá decidiu que sua carreira de dublê de músico acabaria. Tão precocemente quanto a vida da guitarra destruída no acidente. Era o fim do sonho, e, se acabou tão cedo e sem uma razão convincente, foi por conta de o terem empurrado goela abaixo; com certeza uma mãe tiete, ou um pai frustrado pela música, ou ainda outro parente qualquer que encontra palco em tudo que uma criança faz.

– Chega dessa vida! – disse o guitarrista resolvido, sacudindo a cabeça baixa, sentado ao lado do leito de Rick no hospital. – Não é pra mim – completou.

Findada a internação, uma bengala passou a acompanhar Rick Duran no seu dia a dia. O andar ficou meio travado, robotizado, e coxeava com acento depois dos estragos causados pelo acidente. O médico lhe disse que melhoraria com o tempo, mas o tempo passou sem trazer melhora nenhuma e a muleta não descansou.

No hospital Rick conheceu Marta, a enfermeira já citada. Dona de 50 anos, morando sozinha numa casa modesta, muito limpa e organizada. Era viúva sem filhos.

Solitária.

Três meses após sair do hospital, já namorando há quatro, Rick foi morar com a enfermeira. Algum tempo depois, ele sugeriu insistentemente que se casassem no civil. Ela não entendeu a razão ou a necessidade de tal ideia fixa tão prematuramente e do dia pra noite. Mas, como estivesse dominada por uma paixão tardia e pelo medo de terminar os dias cercada de solidão, cedeu ao homem e às suas ameaças. Ficou, de fato, feliz e envaidecida.

Casaram-se numa segunda-feira. Ela – supõe-se – realizada; ele, sossegado com a estabilidade que vinha daquela união.

Rick passava a maior parte do tempo em casa ouvindo seus discos de vinil. Às vezes saía às tardes. Bem arrumado, barbeado, cheirando a importado e muito limpo. Saía, invariavelmente, após o banho. Todo o ritual de preparação consumia sempre o mesmo espaço de tempo, delimitado automaticamente pelo hábito; de maneira que era algo alheio à sua marcação, mesmo porque Rick não usava relógio ou consultava as horas. Quase nunca. Salvo quando tinha um compromisso sério, merecedor de seu interesse e atenção.

Ao transpor o portão de casa e botar os pés na rua, sentia-se poderoso, pois gostava de pensar que já era muito famoso e todas as pessoas queriam vê-lo, tocá-lo, aplaudi-lo. Chegava mesmo a ouvir os gritos de histeria, os pedidos de autógrafos, os choros de emoção, as disputas agressivas para chegar perto dele. Um sorrisinho abria-se em seu rosto e o coração se enchia de alegria. Uma enorme satisfação invadia e tomava todas as células do seu corpo. Então se esticava todo, estufava o peito, punha-se bem ereto e partia; girando a bengala e assobiando, numa atitude que se tornara sua marca registrada.

Não tardava mais que hora e meia no passeio e logo retornava para casa. Ao chegar, logo depois de trocar a roupa, ia direto ao quarto de casal (havia dois em casa) e iniciava seu treinamento diário de canto. Algo simples, nada além do que acompanhar dois ou três cantores, previamente, selecionados no toca discos. Na verdade era um treino patético, sem nenhum sentido prático ou técnico. Mas nisso permanecia por horas.

No início do casamento, Marta ainda trabalhava no hospital; passados dois anos veio a aposentadoria. Passou a ter dois rendimentos: a pensão do marido falecido e o salário da previdência. Mais que suficientes para ela e Rick; este, aliás, desde o acidente, sem nenhuma ocupação que pudesse levar algum dinheiro para ajudar nas despesas da casa. Ainda assim, parecia bem confortável na posição; no entanto, ela, ao contrário, incomodava-se bastante. Não pelo dinheiro, não que precisassem dele, pois o dela era mais que suficiente para viverem bem e com folga. E Marta, talvez porque amasse, jamais enxergou em Rick um oportunista aproveitador. Queria vê-lo realizado e sentindo-se útil na vida. Somente a música – calculava a mulher – poderia dar ao nosso cantor o que ela pensava que ele queria.

– Não vai mais cantar? – perguntou ela, cheia de dedos, certa noite, na hora do jantar.

Rick encarou-a com os olhos apertados, surpreso, realmente, com a pergunta inesperada e direta. Marta nunca entrara nesse assunto antes.

– Mas eu canto! – disse resmungando.

– Pra ganhar dinheiro, quero dizer.

– Já entendi… – e, socando a mesa, levantou-se contrariado.

Um copo caiu e quebrou-se no chão, Marta juntou os cacos calmamente e apenas balançou a cabeça, pesarosa.

Ele entrou no quarto do casal, ligou a TV e deitou-se na cama com o rosto totalmente em paz, bem ao contrário de quando fez a grosseria na presença da esposa. Então lhe veio um estalo: levantou-se rapidamente e bateu a porta do quarto com toda a força; em seguida voltou correndo para se deitar esperando que a mulher lhe fosse ao encontro. Ocupou, premeditadamente, um cantinho da cama; de lado, encolhido; e, não conseguindo conter-se da própria artimanha, deixou escapar um riso baixo.

Quando a mulher chegou ao quarto (como esperado) e abriu a porta, Rick falou:

– Me deixe só, Marta. Agora não.

Dali a quinze dias, Marta arranjou um lugar para Rick cantar. Havia sobrado alguma influência e gratidão aqui e acolá, do tempo que assinava Marta Mourão. O fato de ter sido primeira-dama deixou-lhe favores e algumas boas amizades, além da desgraça que se abateu sobre ela com o assassinato do marido; Morte terrível! Mas é assunto para outra ocasião e será contado no devido tempo, em outra história.

Rick recomeçaria cantando numa casa noturna à beira da falência (foi o que se pode arranjar) e que tentava sua última cartada vendendo a ilusão de um show inesquecível, prometendo sorteio de brindes; inclusive duma bicicleta. O dono da casa decidiu mudar e investir na terceira idade.

–Essa gente gasta muito. Os filhos já estão criados, agora só querem aproveitar a vida e pagam bem por isso – dizia.

Já era alguma coisa e Rick nunca teve nada melhor mesmo. Se desse certo ficaria fixo: aos sábados. Depois do acidente não restou trabalho para ele; também não correu atrás.

O baile.

Estava lotado.

Rick subiu no palco, pegou o microfone e fez sinal, de costas para a platéia, à banda que o acompanhava. Algo combinado; então começaram. Ele movia-se com dificuldades. Estava sem a bengala; porém animado, sentindo-se vivo, refeito, confiante, dono do palco. Afinal, cantava mais que o Caubi. As primeiras palmas demoraram, mas vieram. Tímidas. Depois de uma rodada de álcool: gritinhos isolados, assobios quase inaudíveis…Copos transbordando cerveja passavam de lá para cá; conforme ia esquentando o clima, as bebidas ficavam mais fortes e quentes, o chão mais encharcado. Conhaque, vodca, uísque vagabundo… Palmas ensurdecedoras, gritos histéricos, assobios que pareciam sirenes. Rick Duran era, novamente, um astro consagrado! Desde o episódio da igreja não era astro.

Como canta esse garoto!

– Eu te amo, Roberto Carlos! – gritou uma mulher com uma garrafa de vodca na mão.

E Rick Duran jogou o lenço que trazia no bolso do paletó para a fã. Eufórico, o público gritava:

– Roberto! Roberto! Roberto!

– Filho, sua voz agradou ao público – dizia-lhe após o show, o já decrépito dono da casa noturna. – Realmente tem alguma coisa em você que lembra o Roberto Carlos.

Depois daquele dia, Rick Duran se tornou fixo aos sábados. E, dali em diante, foram tantos gritos de “Roberto!” que não houve jeito de ser outra coisa. Virou Roberto em todo palco que subiu; foram vários, pois sua fama correu rápida em outros bailes de terceira idade, inclusive fora da cidade, onde existia também muito álcool, grande vontade de aproveitar a vida, ou o que restava dela; de modo que ele se tornou, em duas outras casas, preferência às sextas e aos feriados. Era chamado “Roberto, o rei do baile”.

Por quase duas décadas foi assim: sucesso em bailes de terceira idade. Vez ou outra abria um show na praça para uma banda ou cantor consagrado. Os cabelos, sempre compridos, foram branqueando e por fim eram mais brancos que negros. No alto da cabeça apareceu uma grande falha que era, obviamente, coberta por alguns fios avulsos mais resistentes ao tempo.

Marta morreu.

O Parkinson evoluiu demais.

Rick manteve-se fiel a ela até sua morte, aproveitando do conforto e vida boa, mas cuidando e zelando da melhor forma possível. Não derramou lágrimas, nem mostrou tristeza.

Com a morte da esposa, há quem jure que ele se tornou mais leve e falante; mais dono do próprio nariz. Herdou a casa limpa e organizada, bem como uma razoável poupança no Banco do Brasil. Como já se sabe, a casa era modesta, mas bem conservada e sólida. Ficava no fim de uma ladeira, atrás de duas outras maiores. Escondida.

Dois meses depois da morte de Marta, nosso cantor, sem nenhum motivo justificável ou nada que denunciasse, previamente, a intenção, vendeu a casa para um militar reformado do exército. Homem sinistro, quase mudo e olhar intimidador. O que os vizinhos viram antes de Rick fechar o negócio foi, em duas ou três ocasiões, conversas sussurradas dele com o ex-militar numa virada de esquina. E é sempre motivo de suspeição conversa assim. Mas desses encontros clandestinos ninguém nunca soube nada de concreto para desvendar o motivo da decisão de Rick; e o Banco do Brasil foi, de novo, o paradeiro do dinheiro da venda do imóvel. Nosso cantor tinha agora uma quantia considerável. O valor era suficiente para comprar uma casa muito boa onde bem entendesse e ainda sobraria para viver de maneira controlada por um bom tempo.

Mas, ao contrário de qualquer expectativa, foi morar de aluguel num prédio decadente, sujo, barulhento; fervendo de confusão e gente. Uma espécie de cortiço vertical que o bom humor de algum morador local produziu essa pérola: “Cabeça de Porco”. Escrita numa tabuleta pendurada na entrada do prédio. Gostaram tanto que deixaram.

Apesar de envaidecido com a alcunha que o público lhe deu, nosso cantor permanecia Rick Duran, e apegava-se com bravura ao nome escolhido por D. Esmeraldina. “Rick trás sorte”, dizia. “É o mínimo que posso fazer pela memória de minha mãe”, completava. Às vezes com lágrimas escorrendo. Naquela altura quase ninguém o tratava por Rick Duran, no entanto ele era firme ao afirmar: “É o nome que levarei para o túmulo”.

E quem conhece o subterrâneo da alma humana senão os torturadores e os calabouços da Inquisição? O caso é que o nosso cantor, num dia qualquer, assim como fez com a casa, fez com o nome. Da mesma forma repentina e inesperada…

No ano de 2005, em certa manhã, bem cedinho, foi ele até uma costureira recomendada. Levou panos, aviamentos e algumas exigências. Gastou duas horas do seu dia explicando detalhadamente à costureira o seu desejo. Era como uma peça teatral de vários atos, e a cada abaixar de cortinas e acender de luzes, nascia um suspense em relação ao ato seguinte. O diretor dizia como queria a cena, não se podia sair do script; nem uma vírgula, se não for assim não serve! A costureira ouviu, mediu, riscou, calculou, esticou, prendeu, desprendeu e, por fim, disse que viesse pegar a encomenda dali a quatro semanas.

– Tanto assim? – questionou.

– Tenho muito trabalho, ora! Quase não dou conta.

Trocaram mais algumas palavras e Rick deixou a casa, meio aborrecido pela demora na entrega, mas, não havendo outro jeito, aquietou-se com a ansiedade. Antes de colocar o pé na rua insistiu à costureira sobre as ombreiras. Deviam ser bastante pronunciadas, bem altas, hein… Por favor!

E foi assim que, quatro semanas depois, Rick Duran, de terno completamente branco (gravata e tudo), virou definitivamente Roberto Carlos ao sair da casa da tal costureira. Numa das mãos, a inseparável bengala, na outra, duas bolsas grandes de papel: uma contendo a roupa que trocara para botar o terno branco, e a outra levando um sapato e um terno; azuis.

Naquele dia, Rick Duran foi morto e enterrado, e com o passar dos anos o nome foi esquecido por todos.

Mas a mudança não rendeu coisa boa, veio, então, o inesperado: o público rejeitou Roberto Carlos.

Antes, pagavam para ouvir um tal Rick Duran, mas no palco encontravam um cantor com voz e trejeitos do Roberto Carlos. Parecido. Suficientemente parecido. Tal coisa causava nas pessoas uma sensação de vantagem, de ganho extra; algo como comprar um determinado celular, por exemplo, e a loja entregar por engano um modelo mais caro e mais avançado. Ninguém reclama de vantagem, nem devolve vantagem. E os bailes estavam sempre cheios. Mas no primeiro dia que viram no palco aquele Roberto Carlos incompleto, pretensioso, fantasiado de si mesmo, caricaturado grosseiramente, as pessoas se ofenderam, sentiram-se ridículas por estarem ali, subestimadas no seu bom gosto. Cadê o Rick Duran?

Cresceu, então, um sentimento de frustração. Que ombreiras ridículas! O público sentiu-se traído, roubado, forçado a ouvir uma caricatura. Foi como se tivessem prometido uma coisa e dado outra inferior. Um prêmio de consolação. Que ombreiras ridículas! O público debandou, os bailes ficaram vazios… Vazios… Desertos… E Roberto Carlos ficou sem emprego.

Já não havia volta para Rick Duran. Sineval chegou a pensar “num retorno triunfante!”. Falava alto, empolgava-se, gesticulava com as duas mãos espalmadas à frente como um ator teatral que tem uma visão no horizonte.

Desistiu.

De fato, não existia mais nada de Rick Duran: nem lembrança, nem saudade. A hora tinha passado.

Finalmente, sobrou o pobre Sineval, aquele mesmo do batismo. Roberto Carlos morreu também, mas antes definhou. Enterraram-no próximo a Rick Duram: no cemitério do fracasso.

O “Cabeça de Porco” não era um prédio velho, na verdade tinha bem pouco tempo de construído. Ficava, assim como a casa herdada de Marta, numa ladeira; mas logo no começo dela, à direita. A fachada tinha vista, naturalmente, para essa ladeira, que era uma rua secundária e sem saída, enquanto que o restante do prédio, comprido e estreito, seguia paralelamente à rua principal. Porém, toda a extensão da construção, na sua profundidade, era ocultada por uma loja de peças de automóveis com entrada na rua principal. Estando nesta, qualquer pessoa que passasse na calçada oposta a frente da loja via somente o telhado do “Cabeça de Porco”, bem como a enorme quantidade de pombos que vivia ali, arrulhando infinitamente.

Diziam que a loja era de propriedade do chefe duma quadrilha de ladrões de carro, mas quem tocava o negócio era uma loura com cara macilenta e bochechas caídas como dum buldogue; jeito de poucos amigos. Recebia, a cada seis meses, a visita dum homem querendo ser gordo, vestido, invariavelmente, com camisas quadriculadas, calças jeans muito largas e grossas, botas bem engraxadas de bico fino com esporas e um chapéu ao estilo caubói. Especulavam ser ele o tal chefão. Chegava e ficava por dias, circulando daqui para ali, observando tudo sem fazer nada. Não falava com ninguém, a não ser com a loura e os quatro filhos dela. Um deles, rapaz de seus 18 anos, alto, desengonçado, jeito afeminado, rosto coberto por espinhas purulentas era quem ajudava a mãe no negócio das peças. Supunha-se, também, que os quatro – duas moças e dois rapazes – fossem filhos do misterioso homem semestral. Mas não se via o tratamento típico de pai e filhos.

Ao passo dos anos, nada mudava na rotina da loja, os boatos nunca se concretizavam, apenas enfraqueciam a cada sumiço do homem e esquentavam a cada nova aparição.

As duas construções que, no momento, nos interessam, assemelhavam-se em tudo e eram, realmente, perturbadoras, um verdadeiro desastre da engenharia. Uniam-se por um milagre: o de estarem de pé.

A loja de peças possuía um pavimento térreo, onde se faziam os negócios e viam-se espalhadas algumas amostras de peças, balcão e caixa registradora; dois andares superiores que serviam de estoque e ainda outro mais acima, onde a loura morava com seus quatro filhos quase o ano inteiro, salvo das vezes que o homem misterioso aparecia. O lugar era, realmente, impressionante pela decadência.

Não será preciso dissertar sobre o prédio onde Sineval decidiu morar, sobre seus horrores. Basta – e será perfeita a analogia – que imaginemos um pombal construído, se Deus lhes tivesse dado algum raciocínio, pelos próprios pombos (…); ratazanas aladas, aves esquizofrênicas sem nenhuma tendência à construção ou coisa qualquer que preste nessa vida. Salvo, como já se sabe, para o ofício de carteiro, de produzir novos pombos, comer migalhas em praças, para a arte de arrulhar e sujar vãos de telhados. Cabeça de pombo é coisa histérica, é coisa que não para de sacudir. Ora, ora, quem já viu um pombo, ao menos, aquietar a cabeça? Não o faz! Nunca! Quem já viu, garanto que é homem único nesse mundo, e presenciou uma cena, talvez, jamais vista por outro de sua espécie. Até mesmo à noite, dizem, esses neuróticos sacodem as cabeças e arrulham, mesmo dormindo; tarefa que, aliás, fazem de olhos muito abertos como se estivessem trincados. Aparência horrível de loucos!

Quando Sineval chegou ao prédio tratou de inteirar-se sobre tudo no local: da parte elétrica, hidráulica, moradores e suas rotinas, parentes que apareciam vez ou outra, idade do prédio, morador mais antigo, mais recente, mais brigão, mais idoso, mais jovem, número de crianças, nomes dos carteiros (sempre os mesmos); enfim, colheu todo tipo de informação e fez um diário.

Em oito meses sabia mais que qualquer outro sobre o “Cabeça de Porco”, até em quais apartamentos as goteiras e infiltrações eram mais severas. Era também capaz de identificar qualquer morador através do barulho dos passos que este fazia ao descer as escadas do prédio. E não foram poucas as vezes em que o viram vagando silenciosamente, na ponta dos cascos, pelos corredores do lugar; vestindo sempre um sobretudo preto e chapéu Panamá altas horas da madrugada. No restante do dia vestia-se como pessoa normal.

Não fez nenhum amigo no lugar. Na verdade antipatizaram bastante com ele, botaram-lhe, inclusive, o apelido de “Canibal do 202” e os pais proibiram, com efeito, qualquer contato dos filhos com Sineval, a não ser que eles (os pais) estivessem presentes. “O homem é estranho, ninguém sabe do que é capaz!”, falavam. O apelido veio por causa das maneiras parecidas com as do personagem Hannibal Lecter do filme Silêncio dos Inocentes.

Há algum tempo Sineval tornou-se deprimido. Ficou noturno, interna e temporalmente; cheio de silêncios e olhares maquiavélicos, e desse estado comportamental veio o repúdio das pessoas. O último fracasso, ao que parece, mostrou-se fundo nele.

Sua primeira amizade na rua surgiu no segundo ano residente ali, logo cedo, pelas 5 da manhã, quando levava – seguindo sua rotina diária – o lixo para o poste da esquina, perigosamente próximo duma grande casa murada. Casa de vereador.

– Se todos fizessem assim…

Ele surpreendeu-se, um leve susto; virou-se para ver quem era.

– Ah!,é a senhora! – disse melancólico.

Ela estava em pé, com as pernas cruzadas e as costas apoiadas na parede, a fumaça do cigarro que fumava com lentidão formava uma espécie de neblina em volta de si e lhe conferia uma aura sobrenatural; talvez o próprio Sineval tenha imaginado um fantasma antes de ter jogado a luz de sua lanterna sobre ela.

– É, perdi o sono.

– Já pôs o seu lixo aí?

– Ontem, como todo mundo… Ou quase.

Era inverno, o dia ainda longe de clarear. Como o poste não tinha luz (os moleques da rua sempre quebravam a lâmpada), Sineval, segurando a lanterninha, ajeitava cuidadosamente os vários sacos pretos esparramados em volta; alguns meio abertos por desleixo e outros rasgados por cachorros. Era o lixo da rua toda, e o caminhão do lixo passaria às 6 horas, como sempre fazia.

– Pois é.

– Por que faz isso todo dia?

Ele continuava seu trabalho, sem se importar em responder ou dar atenção à mulher que o reparava. Sem pressa, cabisbaixo, iluminando ao redor para ver se não sobrara nenhum resto de comida ou coisa qualquer para fora dos sacos. No meio deles havia também lixo em sacolas de supermercado. Então, punha-as em sacos pretos dobrados em mil partes que retirava dos bolsos da calça.

– Não é sua função – insistiu a mulher.

– Não tenho mais nada o que fazer a essa hora… Aliás, hora nenhuma – respondeu de repente, encarando-a da forma mais desanimada do mundo.

A mulher olhou-o admirada com a resposta. Que melancolia! Teve uma vontade incontrolável de cuidar daquele homem. Vendo-o no meio de todo aquele lixo, virando e revirando, como se fosse uma mina de ouro ou a última coisa a fazer na vida antes da morte, apiedou-se dele. Quanta dedicação! E outro sentimento mais indomável brotou: “Como tal coisa, tão pequena e ridícula pode atrair os cuidados e atenção de uma pessoa que não precisa e não tem necessidade alguma de estar ali? Quem mais no mundo faria tal coisa?”, pensou. “O que não faria por uma mulher (…)!?”, finalizou o raciocínio.

Logo lhe subiu um calor.

– É um homem bom, Seu Sineval. E bonito também, muito bonito…

Ele parou completamente, tornou-se uma estátua, arqueado com a lanterninha numa mão e um saco preto na outra. O silêncio era grande e o resto da noite sereno; com os sentidos aguçados pelo jorro inusitado de adrenalina, puderam ouvir o sangue correr em suas veias, como um riacho formado numa rua pela água da chuva. Também ouviam a respiração acelerada um do outro.

– O senhor… – e perdeu a coragem para continuar.

Com os olhos enfiados nela, desbravando-a, medindo-a com malícia, chegou a vontade animal da posse e de ser possuída, aflorando o mais primitivo dos instintos.

– Por que não vem falar o que deseja aqui bem pertinho de mim? – Arriscou-se ele.

E ela foi.

Chegou, sarrou levemente o braço no dele, aproximou os lábios do ouvido, tocava-o feito tecido fino que roça a pele ao balanço do vento, à medida que ia sussurrando o desgoverno dos seus desejos.

Duas semanas depois, Sineval comprou o carro mais velho e precisando de reparos que pode encontrar: uma Brasília ruidosa, apelidada por ele mesmo – pois voltara seu otimismo e bom humor – de “Distrito Federal”.

Passou três longos meses entrando e saindo da loja de peças da mulher loura, quando por fim, com a Brasília já em excelente estado: pintada e reformada, a mulher lhe falou um dia:

– Ele me telefonou ontem, está chegando daqui a cinco dias.

Com a cara dramática e decidida, ele respondeu:

– Veremos como fica.

Sem atraso, realmente no tempo marcado todos viram o homem semestral rodando pela loja com seu habitual chapéu caubói. Sineval saiu de circulação. Por mais de uma semana não foi visto por ninguém, nem um morador do “Cabeça de Porco” ou qualquer outro residente da rua sabia de seu paradeiro. Mas o curioso é que a Brasília, seu mais novo xodó, ficou o tempo todo estacionada ao relento, um pouco acima, logo depois do prédio, pegando chuva e sol.

Ao amanhecer duma quinta-feira, a loura acordou meio chorosa, reclamando a uma vizinha sobre o desaparecimento do homem semestral.

– Calma! Se acalme… Sumiu quando?

– Faz dois dias. Quando chega não sai sem me avisar ou se despedir.

Choramingava.

– Bem… sendo assim… Não é caso de polícia, então?

– Não! Polícia não! – fez a loura, nervosa.

Tadeu Célio, o vereador da casa murada, foi quem chegou à loja de peças com o jornal aberto.

– Madame (somente ele chamava a loura assim), desculpe chegar dessa forma, mas não tem jeito, você vai saber mesmo…

A loura olha o jornal e vê a foto dum homem jogado num matagal, as pernas quebradas mostram os ossos; na esquerda, o osso da canela e na direita, a rótula aparece estraçalhada; a camisa quadriculada cheia de furos de balas e coberta de sangue. Ao lado do corpo, o chapéu caubói.

A mulher cobre o rosto com as mãos e sobe correndo as escadas para o último andar. Soluçando. O filho afeminado fica tomando conta da loja, estarrecido com a foto daquele que diziam ser o seu pai.

No dia seguinte a esse fato, Sineval reaparece. Conta ter ido ajudar uma das irmãs que ficou viúva com três filhos. A loura está firme na loja de peças, com os nervos no lugar e o viço redobrado.

A polícia não fez caso nenhum de investigar o assassinato do homem semestral. Já vai tarde, era a bola da vez!

Um tempo depois, casaram-se de papel passado e tudo, Sineval e a mulher loura. Ele foi morar com ela e os filhos no andar superior da loja. Todos os dias, no mesmo horário, pelas 5 da manhã, ele passava para levar o lixo e arrumar a desordem que os outros e os vira-latas famintos deixavam no poste da esquina. Assobiando, cheio de vida e otimismo. Voltou a cantar, mas só para a esposa. E era mesmo feliz cantando para ela que o idolatrava e via nele grande talento. Mas, por vezes, sem hora marcada, parecia que uma pontinha de remorso ou sabe-se lá o que lhe corroia a alma. Passava logo, então voltava a ser o mesmo homem de sempre.

Vez ou outra se lembrava do homem da igreja e seu coração transbordava de alegria: “Como canta esse garoto!”, e as lembranças iam se Avolumando: “Canta mais que o Caubi!”

Ria.

– Agora é só questão de tempo! – dizia em voz alta, para que ele próprio pudesse ouvir e convencer-se dessa realidade.

E foi assim que Sineval não deu coisa melhor que Sineval.
Sales Ambé
Enviado por Sales Ambé em 19/06/2017
Reeditado em 07/10/2017
Código do texto: T6031171
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Sobre o autor
Sales Ambé
Barra do Piraí - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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