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O Engano

Enganar-se é humano, assombrosos são os efeitos colaterais.

-- Sua consulta não è às doze, e sim às doze E MEIA -- disse a recepcionista.
-- Tem certeza, minha filha? -- perguntou Edite.
-- E não ligaram pra senhora não? --  disse a moça num piscar, e por cima dos óculos.
-- Antes de ontem alguém me ligou daqui, sim, mas não recordo ter ouvido doze E MEIA.
Sem mover os olhos do monitor, a moça sugeriu:
-- Vai ver a senhora não entendeu O MEIA.
 
Sim, pode ser; mas por que ela não entenderia, meu Deus? Estaria escrito em sua testa que tinha problemas pra ouvir, ou entender?

-- Olhe, antes de ontem eu liguei para cá confirmando hora e dia, a pessoa que me atendeu disse que estava tudo certo. Ontem recebi nova chamada, confirmando a consulta para hoje... -- quis perguntar se a ligação não havia sido feita por uma outra funcionária, desistiu -- e não me lembro de ter ouvido doze E MEIA.
-- É que agora estão todos numa operação, parece que vai levar uma meia-hora pra acabar. Como a senhora está aqui no centro... bem poderia aproveitar o tempo pra ir ver as lojas, tomar um café ou pode esperar aqui mesmo, se a senhora quiser, claro.

E quem disse que ela gostava de café ou de vitrines? Se bem que...
-- Está bem, volto em meia hora.
-- Isso, em quarenta minutos! -- disse a moça apressadinha, a cara colada no monitor.

Não lhe agradava fazer compras, mas já que tinha que esperar aqueles TRINTA minutos, melhor era aproveitar. Numa loja, na seção de DVDs, concluiu entediada que ali não havia nada que lhe interessasse. Com certos filmes não valia a pena gastar nem tempo, dirá dinheiro. Olhou para o relógio e, contente com a passagem do tempo, pôs-se a caminho do consultório. Cinco minutos adiantados eram quase nada. Subiu o elevador, tocou a campainha e a porta não se demorou a abrir. A colega da recepcionista olhou-a, surpresa, e esta, como estava falando ao telefone, nem a viu entrar.

-- Obrigada, Seu Sandoval, disse a recepcionista antes de desligar.

Coincidência: nome de família igual ao meu, pensou Edite.

-- Sua consulta não è às doze E MEIA, e sim às três, disse a recepcionista, sem olhar, voltando a moldar a cara à tela do monitor.
-- Como assim?!, falou Edite, exaltada.
-- Dona Maria Sabóia é a senhora, não?
-- Meu nome é Edite Sandoval -- disse séria.

Pelos olhos arregalados da mocinha, e o tamanho do mea-culpa que se seguiu, a colega se viu obrigada a interferir:
-- Dona Edite!, já lhe esperávamos, logo a senhora, que não costuma falhar... Só que sua consulta era às doze, a senhora esqueceu?
-- E eu estive aqui às DEZ para as DOZE! A mocinha aí me aconselhou a ir dar uma volta na cidade pois a consulta seria MEIA hora depois!

A colega olhou para a recepcionista, meio desconcertada, justo no momento em que esta soltou um:
-- Ai Meu Deus, foi a senhora?! -- mãos em concha tapando a boca oval -- Até liguei pro seu marido pra saber por que a senhora não havia chegado... -- voltou a se mea-culpear, mas foi desencorajada por um grito, misto de medo e inquietação:
-- Meu Deus! Por que você fez isso? Por que você fez isso?? -- mãos na cabeça: -- Pai, perdoai-a, ela não sabe o que fez...

A colega olhou para a moça e disse algo numa língua estrangeira, o que a Edite soou como repreensão. Sabendo porém como as línguas são matreiras, preferiu não tirar conclusões. Não fosse a mocinha perder o emprego por causa disso, pensou, afinal de contas errar é humano... E então, falou a colega, -- Foi um engano, Dona Edite, desculpe. Por aqui, por aqui....

Edite se sentiu num enredo de conspirações, sem saber ao certo com que tipo de final. No entanto, deixou-se guiar até a sala de tratamento. O que será estava havendo ali naquele dia? Logo essa gente, que é sempre tão organizada...? Êpa! Antes de mais nada tinha que ligar para o marido e tentar desfazer a confusão.

Como tecnologia vale mais quando menos se precisa dela, para o mal dos pecados não teve como o marido atender o celular, só dava na caixa postal. Edite deixou mensagem rápida explicando o mal entendido e durante a sessão teve que desligar o seu. A doutora até puxou conversa, mas as sombras daquele estranho engano haviam tirado de Edite a vontade de sorrir. Pensava, resignada, no marido e, pior ainda, no que ele poderia estar pensando de toda aquela confusão: que nessa idade agora dera para mentir? Que tinha ali a prova? Que o estava enganando e ele já sabia? Que fora pêga com a boca na botija? Que só queria agora ver o que ela iria inventar daquela vez, bandida? Edite conhecia bem o marido e sabia que não adiantava argumentar. Estava armado o circo, selada a confusão e ateado o destino. Terminou a sessão daquele dia. Ao passar na recepção para pagar a conta, no meio de mais uns mea-culpas, a mocinha lhe perguntou se desejava marcar a próxima consulta.

-- Pelo sim, pelo não, veja aí um dia, minha filha.
-- Dia 16 do mês que vem, de novo às doze E MEIA está bom pra senhora?
-- Está, minha filha, está... -- respondeu Edite -- e se não estiver mais até lá... bem, ligo antes para confirmar, como sempre... a menos que algo me aconteça! -- completou.
-- O que é isso, Dona Edite, não vai lhe acontecer nada não! Devemos pensar sempre positivo -- disse a mocinha emendando seu melhor sorriso de gato-zebra: cheio de dentes cerrados, branquíssimos!

Para não encompridar conversa, até mesmo porque não fazia o menor sentido, Edite pegou o recibo, o lembrete da próxima consulta, despediu-se e saiu. Daquela vez, ao invés de dizer “Até a próxima”, como sempre fazia, disse, timidamente, “Tchau”. E aquela foi, para as duas, de fato, um último engano, a ÚLTIMA vez.




Nota: este conto é fruto da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes e situações na vida real é pura coincidência.

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Revisado em 18.09.2010
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 09/09/2010
Reeditado em 23/01/2015
Código do texto: T2486917
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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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