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Pela Arte

O ônibus já estava saindo. Corri, deu tempo ainda de tomar. A vida da gente é uma roleta russa, não se sabe onde a coisa vai parar e eu já estava cansado de tudo aquilo, mas... Havia um lugar vago próximo a uma das saídas. Entrei, paguei passagem, me acomodei. Ônibus quase lotado, mas pelo meio se podia trilhar, e com folga. Celular tocou e eu atendi. Resignei-me. Pelo jeito, mais um dia cheio estava por vir.

Duas paradas depois subiu um homem vestido de palhaço. Segurava um saco com uma das mãos e com a outra segurava-se. Cuidava em não cair enquanto discursava a plenos pulmões, com o ônibus em movimento. Começou a explicar o quê estava fazendo. Arrecadava dinheiro pra um tal projeto Palhaços em Todo Lugar. Durante a exposição, passou adiante o saco, que foi avançando de mão em mão. Neste meio tempo, novos passageiros foram subindo, o que pediu nova explicação.

Tendo o saco retornado, o palhaço olhou pra dentro e, desapontado, meteu a mão numa bolsa que trazia à cintura. De lá tirou um ‘três-oitão’. Puxou-me para si, deu-me uma gravata e encostou o cano às minhas costas. Fechei os olhos para não ver nem pensar em mais nada. Não adiantou.

-- Vou passar de novo o saco, viu? Só quero ver agora como é que ele vai voltar. Se eu fosse vocês, pensava bem direitinho e abria a mão pra causas culturais. Circulando, circulando!

Abri os olhos e vi as caras assustadas. Em poucos minutos o saco estava de volta. Ainda me apertando o cano duro às costas, o palhaço instruiu o motorista para a próxima parada. E quando o ônibus parou foi tudo muito rápido. E antes de descer, ele ainda agradeceu a colaboração de todos:

-- É pela arte! Levo o colega mais um pouco, só pra garantir... Não se preocupem, solto já.

Dirigiu-se à porta e foi me arrastando junto. Já fora, ele ainda me apertava o pescoço com um dos braços quando, de olhos bem arregalados, vi o ônibus arrancar depressa. Pensei: “É o fim...” Vi também que ninguém olhou para trás. Além de mim e do palhaço, ninguém mais por perto.

Senti que ele me soltava. Devagar, e num tom meio pessimista, como se previsse o que me ia acontecer dali em diante, pedi com voz enfraquecida: “Por favor...”

-- Quer parar com a palhaçada, me disse olhando torto.

-- Pô, vê se não me aperta tão forte da próxima vez! Meu pescoço tá doendo, cara. Esse cano aí é de plástico mas deixa marca, viu? No fim do dia tô todo riscado...

-- Vumbora, palhaço! Inda tem montão de pontos na cidade pra gente se apresentar.

Me resignei e fui, afinal era pela arte, só pela arte...



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Revisado em 18.09.2010

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 29/03/2010
Reeditado em 18/09/2010
Código do texto: T2165574
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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