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Baratos da Cidade


Condolixo. Assim ficou conhecido o lugar onde morei até poucos dias atrás, e tudo por causa do nosso senhorio. Está certo que morávamos de graça, que o apartamento era amplo. Um pouco sujo, mas isto nunca foi grande problema. O ralo do banheiro estava entupido e mesmo a porta estando isolada, o fedor escapava para a vizinhança. Te digo, amigo, mesmo assim nunca vi qualquer vizinho se manifestar. Uma tranqüilidade!

O senhorio aparecia só de vez em quando, sempre acompanhado daquele inconfundível bafo de cachaça. Da última vez que o vi fazia um ‘solzão’, um que estava me convidando a sair. AP no primeiro andar, um pulo da sacada para o muro, e deste para a calçada. Sempre usava este caminho para não ser visto. Sabe como é, né?, pra evitar perseguição, melhor mesmo é não dar as caras.

Eu já ia virando a esquina quando olhei pra trás a tempo de ver o senhorio chegando. Pelo trocar de pernas, bêbado como sempre. Eu não quis voltar pra casa tão cedo. Caí na buraqueira e fui aproveitar meus dias. Uma semana depois, quando voltei, os colegas foram logo me contando o babado. Fui lá na sala conferir e era mesmo verdade, o senhorio deitado no chão, com a barriga inchada virada pra cima. Pelo jeito ele estava assim desde o dia em que havia saído pra curtir meu sol.

Os outros estavam em polvorosa. Disseram que me esperaram pra ver o que fazer. Foi em cima, foi em baixo e bem no meio da discussão começaram a esmurrar a porta. Os cana, meu! Cada um procurou um esconderijo e tratou de ficar quietinho, esperando a hora do corre-pra-matar. Vendo que ninguém abria, arrombaram a porta e, pelo jeito, deram de cara com o senhorio lá na sala. Começaram a reclamar do lixo, da sujeira e do fedor; diziam  que não havia criatura que agüentasse ficar ali por muito tempo.

Bom, os caras iam e voltavam. Ouvi muita coisa que não vale a pena contar antes de começarem a fuçar o AP todo e, seguindo seus narizes, chegarem ao banheiro isolado fedorento. Eu estava escondido na cozinha, sob a pia. Como sou miudinho, meu esconderijo foi perfeito. De onde eu estava, vi quando puxaram a cortina do chuveiro e, empacotada numa montanha de bagulhos, papéis e sacos, descobriram a mãe do senhorio.

Foi punk, meu! Pelo tempo que vivemos ali, nunca havia cogitado que por baixo de todo aquele lixo estivesse a velha. Sempre ouvi comentarem que ela estava num asilo... Bom, por todo o dia foi um entra-e-sai no AP. Meus comparsas foram sendo abatidos à medida em que iam sendo descobertos e eu? Eu tive a sorte de passar despercebido.

Quando a polícia deu uma folga, escapuli pela sacada. Ainda bem que sou bicho treinado, acostumado a sarjetas e sujeiras. Achei um novo esconderijo e passei um bom tempo matutando, esperando a poeira baixar. Dias depois, sucumbindo à tentação do sol, resolvi sair da toca. Perambulei pela cidade até que dei de cara com a foto do senhorio estampada nesta banca de jornais.

Passei a vir aqui todos os dias. Ando procurando AP novo e aqui, na banca, estou sempre bem informado. Pelo que entendi, meu, o caso foi o seguinte: o senhorio deixou a coroa dele no banheiro para não perder a aposentadoria dela, que ele bebeu até morrer. Depois os nojentos somos nós, né cumpadi? E a vizinhança, essa aí...

PLATSCH!!   PLATSCH!!    PLATSCH!!

-- Vixe que esta cidade tá infestada de baratas, olha estas duas cascudas aqui!
- Argh, que coisa nojenta! Mata, Zefa, mata e joga no bueiro. E depressa, antes que me afaste a freguesia. E justo hoje, que estou cheio de ‘pastel’ pra vender!

Nota: baseado num caso real.

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Revisado em 17.09.2010
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 26/02/2010
Reeditado em 17/09/2010
Código do texto: T2109290
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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