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A Mulher da Rua do Cemitério

Todos os dias ficava ela ali a observar. Sempre às quartas-feiras, por vezes também quintas e sextas, quando a freqüência de passagens do normal um pouco fugia. Para cada despedida que ela, de sua janela via, perguntava-se sempre: “Dessa vez de quem deverá se tratar?”

A mulher que morava na rua do cemitério vivia ali de pouco, não conhecia ainda o povo. Dos enterros semanais, que de sua janela privilegiada se dispunha a acompanhar, alguns eram muito visitados, outros -- a maioria -- além de uns gatos pingados, só o padre, o sacristão e o que devia ser da pessoa a família. O que se leva dessa vida? -- punha-se ela a pensar -- Nem mesmo a lápide, que o túmulo fica a marcar. Dizer que da vida nada se leva seria também arrogante, pois ninguém sabe ao certo o que de fato acontece a todos os passantes. Talvez nem os próprios! Como minha tia gosta de falar: “Quem para o outro lado já foi, jamais voltou para algo contar”. Se bem que há quem creia que voltem sim, mas aí é questão de  fé e interpretação, não? Coisa que aqui não cabe discussão.

A mulher que vivia na rua do cemitério ficava por ali, sempre a observar. Ao lhe perguntarem se de seus vizinhos medo tinha, num estalar de dedos respondia: “Qual nada! Em todo mundo lugar mais tranqüilo não há... Antes temo os vivos do que os mortos, que ali logram descansar.” E bem no meio dessa fala ela, a mulher do cemitério, se ouvia calar. Isso para ouvir os sinos mais um enterro anunciar.

-- Escute! Quem será dessa vez? Ao mesmo tempo que isso me pergunto, ponho-me a meditar: E da minha vez, o que será quando ela chegar?

Melhor do que passar os dias pensando na morte é viver como se isso fosse parte da sorte, algo muito natural. De todos os males o inevitável, coisa que só Deus pode mudar. E a cada enterro anunciado sentia ela em suas veias a força avassaladora da vida se renovar, vida que só conhece um compasso: ao que parece ser, o de sempre continuar.

E a mulher vizinha do cemitério continuava ali, todos os dias, de suas flores no jardim a cuidar.


Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 07/08/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1740982
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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