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O Método do Tio Nezinho

Diz o velho bom senso que não se deve cair na tentação de agir com a cabeça quente. Até aqui minha experiência só tem mostrado que esse velho, esse tal de Bom Senso, tem mesmo razão. Ao longo dos anos desenvolvi inúmeras estratégias para aprender a controlar certos impulsos, métodos que me ajudam, digamos assim, a ‘passar a raiva’. Além da bem conhecida dica do Roberto “Conte ao menos até três, se precisar conte outra vez...” (1), segui por muito tempo também o conselho do Chico e passei a cantar “Vai passar nessa avenida um samba popular...”

Como certos remédios um dia deixam de fazer efeito, essas estratégias passaram a funcionar para mim para casos só até o nível laranja. Para casos extremos, de nível vermelho, tive que buscar novas soluções. Daí cheguei ao método do Tio Nezinho. Tio na verdade que não é meu, e sim de uma amiga, quem aliás me contou essa história. E naturalmente também não se chama Nezinho, nome aqui usado só para que eu pudesse contar o milagre sem revelar o santo.

Tio Nezinho é um homem do tipo ‘mignon’: baixinho, magrinho, mansinho. Falar sobre o corpo alheio não é de bom tom, mas só para que você tenha uma idéia melhor do seu tipo físico, que é importante para a história, Tio Nezinho é meio careca e dono de uma ‘barriguinha’ destacada bem no meio de sua silhueta 'light'. É um homem muito amável, dono de uma paciência de Jó -- E não podia ser diferente, pra ser casado há mais de 40 anos com uma mulher que segundo minha amiga é exatamente o seu oposto.

Minha amiga a descreveu como um tipo que reclama de tudo, tudo o que você possa imaginar. Nada para ela está bom – Ainda que tivesse uma mansão em Beverly Hills reclamaria da vizinhança, e tendo uma Ferrari implicaria com a cor.

Ao longo de todo esse tempo de convivência há de se esperar que Tio Nezinho tenha desenvolvido um ‘saco’ muito maior do que o de Papai Noel. Desculpe o uso do termo chulo, mas não conheço palavra melhor para manter-me fiel à narração da minha amiga.

E foi justamente num dos dias ‘azedos’ em que se achava sua Diva, que Tio Nezinho descobriu o método que hoje aplico com total eficácia para me ajudar a esfriar a cabeça. Ele, sempre muito educado e polido, em seu papel coadjuvante acabou por protagonizar uma das cenas que entraram para os anais de sua família e lhe rendeu um lugar privilegiado em minha lista de pessoas interessantes.

No dia dessa zanga, Tio Nezinho vestia só uma bermuda que lhe quedava à altura dos quadris, formando um gancho enorme -- à moda Hip Hop -- e que lhe deixava à mostra o início das nádegas, região da pélvis -- em algumas regiões do Brasil conhecida como ‘cofrinho’. No auge de seu descontrole, Tio Nezinho segurava o gancho da calça como que procurando por coisas que teoricamente deveriam estar ali e tinha os quadris inclinados para a frente, o que lhe aumentava ainda mais o efeito de ‘bunda batida pra dentro’ e a protuberância da barriga, enquanto gritava a plenos pulmões:

-- EU NÃO TENHO MAIS CULHÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO!!

Minha amiga conta que além do espanto e das gargalhadas inevitáveis que se seguiram por parte dos que presenciaram a cena -- exceto a esposa que quase caiu de costas com as pernas pra cima --, não se pôde dizer ao certo se aquilo foi um desabafo, uma metáfora ou uma desesperada constatação.

Outro dia eu li no jornal local: pesquisadores ingleses (2) descobriram que falar palavrões é um fenômeno lingüístico mundial, pois além de aliviar a alma provoca de fato reações corporais – acelera batimentos cardíacos -, o que renova de certo modo as energias. Lendo esse artigo lembrei de um outro do colega José Cláudio (5) - Seria isso de fato Ciência? Bom, deixa pra depois essa questão.

Certa vez estando eu à beira de perder o controle recorri ao grito salvador do Tio Nezinho e qual não foi minha surpresa: de imediato percebi seu poder libertador. Calmante melhor para mim por enquanto não há! Funciona tanto quando grito, quanto quando escrevo – é que às vezes não é de bom tom gritar a plenos pulmões essa frase ‘curadora’. Confesso que já cheguei a encher uma página do meu diário com essa frase milagrosa até me acalmar, o que me poupou muitos aborrecimentos e transtornos.

Meu marido ao me ouvir pronunciá-la já entende -- como no desenho da Pantera Cor-de-Rosa -- que é “hora de sair pela direita ou pela esquerda”, e me deixar só (que em poucos minutos a raiva passa...) Mesmo jamais tendo possuído os ‘elementos’ de que tratam essa frase maravilhosa, o efeito que ela me causa é impressionante! Tem gente que consegue o mesmo efeito com meditação. Seja como for, cada um tem que encontrar seu próprio método para não perder a cabeça. E não é que os pesquisadores da Ciência da Felicidade dizem que aprender a manter a calma é um dos caminhos para uma vida feliz? Sério, já encontrei várias evidências disso em vários estudos sobre o tema (3).

Tio Nezinho, muito grata por essa estratégia de respirar três vezes no ‘saco’, como fez uma das personagens da colega Suzana Barbi (4), mesmo que seja só na imaginação... Assim fica muito mais fácil tentar manter o controle.

VARIAÇÕES DA FRASE MÁGICA OU MANTRA:
Mandar ir pra “Tonga da Mironga do Cabuletê” (Toquinho e Vinícius de Morais)
Mandar ir Pra Caixa à Prego! – Nem adianta perguntar que eu não sei o que é isso. Só sei que minha tia usava muito essa expressão.
Merreca!
Putzgrila!

1 – Trecho de Sua Estupidez, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
2 – Universidade Keele, estudo publicado na revista Neuro Report.
3 – Wolff Horbach, 77 Wege zum Glück (77 Caminhos Para a Felicidade), Gräfe und Unzer (GU) Verlag, 2008.
4 – Leia As Estações de Silvinha, crônica de Suzana Barbi, Recanto das Letras.
5 - Leia É Ciencia? texto de José Cláudio, Recanto das Letras.
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 05/08/2009
Código do texto: T1738275
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Sobre a autora
Helena Frenzel
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