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Memórias de Maria Teresa - Um Dia Triste

Maria Teresa é uma grande amiga, inteligente, meiga e confiável. Sofre, porém, constantes alterações de humor - um tipo leve de Transtorno Bipolar (1), creio eu. Esse texto, enviou-me num dia em que, por mais que se esforçasse, não conseguia ver qualquer sinal de cor no mundo ao seu redor. Pelo menos foi isso o que me contou, bem depois. Pedi autorização para publicá-lo e ela concedeu-me, já que faz parte de suas memórias. “Talvez ajude outras pessoas. Se isto acontecer, ficarei feliz”, disse-me.

Você pode até pensar que se trata de algo (unicamente) autobiográfico, mas não é. Fato é que eu e Teresa, além do muito que temos em comum, tanto partilhamos já ao longo de anos, que para mim é difícil dizer quem se apropria das palavras de quem. Essa mistura tornou-se evidente para mim, na estranha mania de usarmos trechos de canções em nossas conversas. Eis o texto que ela me enviou:

***

“Querida Amiga,

Quero falar de amizades. Amizades perdidas no tempo e no espaço. Amizades que idealmente seriam para sempre, mas que na prática, revelaram-se frágeis e artificiais. Penso em meus amigos lá de longe, e sinto-me triste, muito triste. Tenho até vontade de chorar.

É que eu não consigo aceitar como o tempo e a distância podem separar, de um tal jeito, que força alguma pareça ser capaz de juntar. Existe um abismo muito maior do que um oceano entre nós, agora. Pior do que não saber nada sobre quem eu gosto, é saber que essas pessoas escolheram me deixar de fora de suas vidas. Sim, decidiram levar suas vidas por lá mesmo, e não se dão ao menos o trabalho de compartilhar qualquer coisa, um simples “olá!” que seja. Compartilhar? Mas pra quê mesmo compartilhar?

Sim, certamente dirias que estou mais uma vez exigindo muito das pessoas. É, pode ser. Talvez pensem que se estou tão longe, e a probabilidade de um dia voltar é tão pequena, pra quê então investir tempo e energia alimentando amizades sem futuro, não é mesmo? O mais prudente seria aceitar que um dia fiz parte de suas histórias, e vice-versa, mas depois cada um seguiu seu caminho, para nunca mais voltar.

Boas recordações são as únicas coisas que merecem ser guardadas, mas nunca, jamais, devem ser transformadas em expectativas de um novo começo. Separação é coisa difícil, ainda mais quando os antigos amigos, na verdade, são tudo o que ficou de um tempo bom, de uma ‘linda juventude’ (3) que, ‘como uma onda no mar’, jamais poderá ser ‘de novo do jeito que já foi um dia’ (4). É difícil para todos - tanto para os que partiram, quanto para os que ficaram - porque o tempo passou, e não voltará nunca mais.

Se tivermos sorte, o futuro trará novas oportunidades de reaproximação. Mas infelizmente muita coisa depende da memória. As pessoas têm memória curta. Eu, por exemplo, escrevo o que gostaria de lembrar mais tarde, justamente porque tenho memória curta. Tu bem o sabes, guria.

Este ano foi a primeira vez que meus amigos mais queridos esqueceram-se do meu aniversário. Ninguém me mandou sequer um e-mail atrasado, até agora. Tu sabes que sempre lembro dos aniversários dos amigos, tento não deixar passar em branco... Ah, amiga... isto não são só lamentações bobas! Será que tenho sido tão má amiga assim?

E para que não tornes a dizer que dramatizo: a única saudação recebida de longe, e fora do âmbito familiar, foi, de fato, uma surpresa: um antigo amigo com quem havia retomado contato uns seis meses antes. Mais uma manifestação da minha tese de que o dito ‘o que os olhos não vêem, o coração não sente’ é a mais pura verdade, para a maioria das pessoas. Repito: para a MAIORIA das pessoas. Se não faço mais parte da vida dos amigos que lá deixei, não faz sentido esperar que se lembrassem do meu aniversário, não é mesmo?

Estou triste por ver que minhas tentativas de manter acessa a chama de amizades antigas estão todas se esgotando. Simplesmente não há como obrigar os amigos que ficaram a responderem meus e-mails. Aliás, é imoral querer obrigar um ser humano a fazer qualquer coisa que ele não queira.

Estou triste com a falta de consideração dos meus antigos amigos. Estou triste porque fecharam a porta de suas vidas em minha cara. Estou triste porque gostaria de estar presente em suas vidas, em todos os momentos, principalmente quando passam por problemas. Mas eles, simplesmente,  escolheram manter-me afastada, excluir-me de seus problemas, de suas vidas, de tudo o que penso considerarem verdadeiramente importante. Estou mais triste ainda porque queria esquecê-los, como fizeram comigo, e não consigo.

Ah, amiga... tu bem o sabes! Amanhã, certamente, estarei melhor.

Um beijo no coração,

Têda.


***
Conhecendo bem a minha amiga Têda, respondi-lhe com o texto abaixo. No dia seguinte ela estava, de fato, muito melhor.

***
Tedinha,

Espanta a bruxa que te assombra (a tristeza) e deixa o menino Milton entrar no teu quintal, te dar a mão e falar de coisas bonitas que (eu também) acredito que não deixarão de existir:

"Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade
Alegria e amor
Pois não posso, não devo, não quero
Viver como toda essa gente insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal" (2)

Todo dia é dia de (pelo menos tentar) fazer novas amizades, despertar as antigas... Aparece aqui para tomarmos um chá e conversarmos.

Um beijo!

***

(1) www.abcdasaude.com.br/artigo.php?419
(2) Referências e trechos de Bola de Meia, Bola de Gude, Milton Nascimento e Fernando Brant.
(3) Trecho de Linda Juventude, Flávio Venturini e Márcio Borges.
(4) Trechos de Como uma Onda no Mar, Lulu Santos.

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 05/07/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1683172
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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