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O Exibicionista

Assim chegou lá em casa, hoje cedo, uma conhecida.

- Você leu o jornal de hoje? – perguntou-me apressada.
- Ainda não, por quê? – respondi calma, porém curiosa.
- Pois você, que gosta de andar por essas matas aí, bem dizer sozinha, só com esse cachorro velho (Susi, uma cadela pastor-alemão que já tem mais de 9 anos) deve tomar mais cuidado agora, principalmente lá pr’aqueles lados de lá, do cemitério.

Diabéisso!? – pensei. Preparei-me para uma história fantasmagórica ou coisa do tipo.

O lugar em questão é um dos pontos mais movimentados do vilarejo. Durante o dia, sempre se vê gente circulando por lá. Sim, é verdade que a população alemã é composta, em sua maioria, por idosos, mas esse movimento fora do comum não se deve só a isso não. É que, por estas bandas de cá, chova ou faça sol, as pessoas cultivam o bom hábito de caminhar, e os lugares preferidos para a prática de tal atividade são, por certo, os bosques que circundam o vilarejo – um pequeno vale, na verdade. A principal via de acesso aos bosques, ou às matas, começa justamente onde termina o campo santo - passagem obrigatória!

E esse lugar, que era pra ser tranqüilo, – digo, o cemitério -, dá pra ver diretamente da janela da minha cozinha. Todo dia tem gente, e em dias de sol aí mesmo é que o movimento aumenta. Seja arrumando os túmulos com flores, acendendo velas, orando ou, simplesmente, passeando por entre as lápides. Como já era de se esperar, a maior parte das visitas são mulheres - que pelas estatísticas vivem mais do que os homens - e em sua maioria, já bastante idosas.

Aí lembrei-me de, ontem mesmo, ter visto uns dois policiais rondando o local. Distraída que sou, para umas coisas, nem tinha me tocado. Mas agora, que a boa senhora vinha com aquela conversa...

- A propósito, ontem vi dois policiais por lá. – comentei.
- Ah, deve ter sido por causa do exibicionista! – cortou-me com euforia.

Exibicionista? Do que será que essa criatura está falando? – perguntei aos meus botões.

- A policia acha que se trata de um rapaz na faixa dos dezesseis anos. Já fez mais de sete vítimas! – contou arregalando os olhos. Lembrei de Miss Marple, ao mesmo tempo em que era atropelada por um pensamento rasteiro (Sete é conta de mentiroso!) e continuei -Vítimas? Como assim?

- Não já disse? Um exibicionista! – exclamou, com uma pitada de impaciência. E adicionou - Ele fica por ali, espreitando suas vítimas, geralmente velhinhas que visitam diariamente seus mortos, no finalzinho da tarde. Então, assim, do nada ele aparece, pula na frente delas, abre um casaco preto e exibe o corpo nu! Nu em pelo! – falou indignada, em tom fortíssimo.

Confesso que, nesse ponto, até tentei me segurar – Sério! - mas não consegui. Tive que rir. Só de imaginar a cena, tinha comichão na barriga. Uma coisa dessas, só mesmo por aqui... – pensei. Para não ofender a gentil senhora, que certamente não entenderia o porquê d’eu estar rindo de coisa tão sem cabimento, controlei-me ao máximo. Sem entender minha reação – penso – ela continuou, séria:

- A policia está tentando encontrar mais vitimas para ver se consegue chegar mais rapidamente ao meliante. Sabe como é, nem todas falam... É horrível! Que mundo é esse, Meu Deus... – comentou balançando a cabeça.

Pronto. Aí não teve mais consideração nesse mundo que me fizesse sufocar as gargalhadas.
- Desculpe-me. - pedi entre soluços. Pensava na reação das velhinhas, não sei... Continuei, em meio às risadas - É que com esse frio... – e soltei no final  – Mas esse rapaz é muito corajoso!

Daí foi demais. Tive que fazer como costumava dizer uma venezuelana louquinha, uma dessas figuras interessantes que encontrei por esse mundo de meu Deus: “Me quedé de patas pra arriba!” Não por estar passada, mas pelo vulcão explodindo dentro em mim, e eu sem poder segurar.

Primeiro fiquei vermelha, acho. Pensando bem, vai ver fiquei de todas as cores. É que o povo por aqui não costuma brincar. E pra essa senhora ter se abalado de sua casa pra me alertar desse perigo... Lógico que ela não devia estar entendendo nada daquela reação – Ah, um pensamento razoável em meio ao festival de idéias sujas em minha mente, naquele momento - O que faria um jovem desses sair por aí, querendo, pretensamente, assustar velhinhas? E por quê, sobretudo, ve.lhi.nhas? Será que trabalhava para alguma funerária? Cada coisa! Eu, heim. Se fosse no Brasil, vai ver ele é que teria que correr das velhinhas! E o que EU faria se ele aparecesse pra mim? E se fosse mesmo um tarado?

Acho que chorei, de tanto rir. Nem vou perder tempo relatando minhas tentativas de explicar à velhinha aquela explosão - que demorou muito pra acalmar.

Foi assim que entendi que “Exhibicionist” (Alemão) não é exatamente o mesmo que “Exibicionista” (Português). É que as palavras por vezes bancam falsas amigas e nos enganam direitinho. Um exhibicionist, pelo que consta num dicionário alemão (Langenscheidt), é alguém que sai por aí mostrando os genitais para os outros, creio que de forma doentia. No Houaiss, exibicionista é, simplesmente, quem gosta de se exibir – e lá não diz como! Até hoje, nunca havia parado para pensar no significado dessa palavra. Se souber detalhes morfológicos, por favor, dê uma luz.


Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 02/04/2009
Reeditado em 03/04/2009
Código do texto: T1519121
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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