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Cidade do Alvorecer - Capitulo 4

Na manhã seguinte, ao acordar, Amelia por um momento achou que tudo estava normal, que era apenas mais uma sexta-feira normal, já estava preparando-se para ir trabalhar quando lembrou-se da noite anterior e todos aqueles sentimentos voltaram à tona. As lembranças daquele dia vieram como um trem em alta direção. E então ela lembrou da janela que estava quebrada e que tinha que chamar alguém para consertar.
Pegou o telefone para ligar para Carlos, um cara que morava ali por perto que sempre a ajudava quando algo quebrava, mas quando ligou o aparelho viu que havia uma mensagem de voz e resolveu ouvir. Arrependeu-se quase imediatamente ao ouvir quem estava na outra linha.
“Estou fazendo isso apenas porque minha mãe pediu porque não acho que lhe devo nada e nem ela, mas peço desculpas pelo modo como lhe tratei na noite passada e sim, o emprego é seu se quiser. Passe domingo à tarde na casa de minha mãe para acertarmos tudo. E caso não saiba quem está falando, sou eu, Leo. ”
Ao fim do recado, Amy retirou o celular do ouvido e ficou encarando o aparelho. Não acreditava no que acabara de ouvir: Leo havia ligado, pedido desculpas e tinha lhe oferecido um emprego. Como ele espera que ela o perdoasse assim, só por causa de um telefonema? Mas ela precisava do emprego, então decidiu ir até a casa dele no domingo, não somente para conversar sobre o emprego, mas para conseguir um pedido de desculpas de verdade e então, só então, pensaria em perdoá-lo.
Amelia tornou a si e ligou para Carlos e, em menos de uma hora, a janela já estava concertada e por uma pechincha. Ela achava que Carlos era um pouco atraente (principalmente quando ele estava apenas de camiseta e shorts jeans e deixava os melhores pontos de seu corpo expostos, como estava agora) e que ele tinha uma pequena atração por ela, mas ela se negava a se relacionar com qualquer um desde o acidente. Muita bagagem, ela dizia pra si, vai assustá-lo.
Ele tinha olhos pretos e cabelos da mesma cor que sempre estavam presos num coque pequeno, tinha pele morena e seus braços eram musculosos, mas não de forma exagerada, era um pouco mais alto que Amy e tinha um sorriso sexy que sempre colocava no rosto quando flertava com ela, o que acontecia sempre que ela o chamava para consertar algo e ela sempre o rejeitava, em parte por causa de sua baixa estima e outra porque quando o conheceu, ela já estava fascinada por Leo, mas essa parte havia mudado desde a noite anterior e foi essa mudança que fez com que Amy se visse aceitando o convite de sair com Carlos no dia seguinte.
-Então, como vão as coisas? –Perguntou ele, já com o sorriso no rosto.
- Está tudo bem, considerando que eu fui demitida ontem.
- Nossa, sinto muito. Posso fazer alguma coisa?
- Não, obrigada pela preocupação, mas já estou resolvendo.
-Mas deixe-me pelo menos tentar animá-la um pouco. Que tal a gente sair amanhã e beber alguma coisa? Amanhã vi ter um pocket show* de uma nova banda indie num barzinho aqui perto e eu sei que você curte esse tipo de música. Que tal?
Era uma proposta interessante. Ele sabia dos seus gostos e estava tentando agradá-la e ela já estava querendo ir mesmo ao show, só para conhecer o som da banda. Então pensou: “por que não? Não é como se eu tenha que firmar um compromisso com ele só por sair uma noite. ”
- Pode ser. Eu estava mesmo afim de conhecer o som dessa banda. – Ele, que não esperava um sim já que fazia mais de um ano que ele insistia e sempre era recusado, ficou em silêncio por um ou dois segundos absorvendo. – Que tal você passar aqui uma 6:30?
- Tudo bem. Te vejo amanhã então. E sempre que precisar, é só chamar.
- Obrigada Carlos, você é o meu salvador. – Ela deu uma risadinha histérica, mas assim que percebeu o que havia dito e o olhar que ele deu ao ouvir aquilo, se arrependeu. Ela estava alimentando as esperanças dele quando sabia que não havia chance de alguma coisa mais séria acontecer entre eles. Ele sorriu novamente e aproximou-se para dar um beijo no rosto dela e saiu.
- Até amanhã, então.- Ele falou ao sair.
Certo. Ela não sabia se havia feito a coisa certa aceitando o convite dele, mas já haviam se passado mais de três anos que não saia com alguém. A última pessoa foi seu ex-namorado babaca que terminou com ela no dia do enterro dos pais por que “não aguentava o drama”, palavras dele. Babaca.
Mas era tarde para estar com dúvidas agora. Já aceitara e não achava que seria legal cancelar logo depois de ter aceitado. Ela iria ao show, se divertir como não fazia há mais de três anos, apenas curtir a música e a companhia. Não havia nada com o que se preocupar, até porque já na outra semana iria começar um trabalho novo e ela não sabia como seriam os horários e provavelmente, nem teria tempo de encontrar Carlos novamente naquela semana.
Passado todo o drama, ela resolveu tentar ligar novamente para o número desconhecido que havia ligado para ela milhares de vezes e que pensava ser de Lúcia e dessa vez, ela atendeu.
- Alô, Lúcia é você? Aqui é Amy.
-  Olá, Amy. Sim este é o telefone de minha mãe, mas ela não se encontra em casa no momento. Quer deixar algum recado? – A voz de Leo soou fria e cheia de sarcasmo. Não sabia como ela havia ficado tão interessada nele. Como ela poderia estar tão enganada com alguém? Mas não teria sido a primeira e nem a última vez.
- Ah, Leo. Tudo bem, posso ligar depois.
- Então, você ouviu meu recado?
- Sim, ouvi. Passo aí no domingo.
- Só isso? Nada mais a dizer? – Ele soou ofendido e irritado e Amelia gostou disso.
- Não há mais nada a ser dito. – E desligou.
Ela não estava disposta a ter outra discussão com Leo, afinal ela estava tentando conseguir um emprego com ele, mas ela ficou imaginando que ele estaria muito irritado por ela não ter falado nada sobre perdoá-lo e isso teve um gostinho de alegria que deixou seu dia bem melhor.
Naquele dia ela organizou toda a casa, foi ao mercado e fez algumas compras e depois de passar pelo menos duas horas organizando o armário da dispensa e perceber que já passava de 1:00 da tarde, resolveu parar um pouco e fazer alguma coisa para comer. Olhou para o conteúdo da geladeira, recém preenchida, retirou alguns ovos, temperos e frango desfiado e resolveu fazer uma omelete. Ela gostava de cozinhar, a fazia ficar mais aliviada e sua cozinha a fazia se sentir em casa – como se fosse a casa de seus pais, onde na maior parte das vezes em que estava lá, eles passavam na cozinha, conversando e comendo panquecas que sua mãe adorava fazer. Ela havia mobiliado a cozinha de sua casa para parecer com a de sua mãe: azulejos de cerâmica azul e branca, a pia próxima à janela, o fogão e a geladeira da mesma marca e cor que tinham os da casa de seus pais. Ali era o seu lugar favorito da casa, mas também a fazia se sentir sozinha. Então, depois de comer, ela sentou na sala e ligou a tv. Estavam reprisando sua série médica favorita e então, ela simplesmente passou o restante da tarde ali, fazendo maratona de séries.
Ela lembrou que costumava fazer isso com as amigas que tinha na cidade que morava com seus pais, Leah e Jheny. Eram suas melhores amigas ou assim ela pensava. Faziam tudo juntas, quando crianças compravam roupas iguais, quando cresceram cada uma resolveu escolheu um estilo diferente de se vestir, não que o das duas se diferenciasse muito. Amelia era a mais diferente, pois não gostava de se produzir muito e isso atraiu alguns garotos da escola, o que deixou as duas com inveja de Amy e as fez se afastarem dela no último semestre do ano, que também tinha sido pouco depois de seus pais haverem falecido. Aquela lembrança abalou-a um pouco e por isso, ela decidiu fazer algo mais produtivo da sua noite de sexta.
Procurou na internet quais filmes estavam em cartaz no cinema local, escolheu um filme de fantasia/ aventura, pois o outro era um romance e ela não estava afim disso agora. Como ainda era cedo, resolveu ir a pé e só na volta pegar o ônibus. Chegou cedo e pegou uma cadeira no meio da sala, onde ela achava perfeito.
O filme se tratava de um viajante que acabara de entrar na América e dentro de sua mala haviam algumas criaturas que acabaram fugindo e causando confusão por toda parte. Amelia adorou. Estava precisando de um pouco de alegria na vida. Antes de ir para casa, passou numa pequena livraria que tinha ali perto e se sentiu triste ao lembrar da Sun & Moon. Comprou o livro em que o filme que assistira foi baseado e foi para casa. Pegou um ônibus quase vazio e chegou em menos de vinte minutos. Assim que chegou em casa, ouviu o celular tocar e foi atender. Era lúcia.
- Olá querida, venho tentando te ligar desde ontem à noite e meu filho disse que você ligou hoje, então tentei novamente.
-Olá Lúcia, como você vai? Tentei retornar ontem, mas deu caixa postal e então resolvi ligar novamente somente hoje. Mas você quase me perde de novo, tinha acabado de chegar em casa quando você ligou.
- Estou bem, querida. Saindo numa noite de sexta-feira? Acompanhada?
- Não. Fui ao cinema, mas sozinha. Mas chega de falar de mim! Me diga, por que ligou ontem à noite?
- Na verdade, eu estava tentando impedir o que aconteceu entre você e meu filho. Ele não entendeu o meu pedido e, bem, você sabe o que ele fez. Pedi que ele se desculpasse, ele fez isso?
 Quando ela falou isso, Amy pode ouvir a voz irônica de Leo dizendo
- Minha palavra não serve mais pra você? Tem que pedir confirmação com ela?
- Não fale assim com a sua mãe rapazinho, só estou perguntando por educação. Ignore ele Amy. E então?
- Sim, ele deixou um recado dizendo que estava pedindo desculpas porque você havia pedido e oferecendo o emprego. Agradeço a você e a ele por estarem me dando essa oportunidade. Principalmente a você e queria dizer que você não tem que se sentir obrigada a fazer isso por mim. Nunca quis que você ou seu filho achassem que tinham alguma responsabilidade por mim.
- Oh não fale assim, minha querida. Tenho muito carinho por você! No dia em que lhe acolhi em minha loja também a acolhi em meu coração. Você é como uma filha pra mim.
Uma lágrima escorreu em Amy e ela sentiu que ia desabar. Lúcia era o mais parecido a uma mãe em sua nova vida. Seria eternamente grata por tudo que ela fez e continua fazendo por ela, mas queria deixar aquilo claro para que Leo deixasse de desconfiar dela.
- Eu sei Lúcia, acredite, eu sei. Também tenho um enorme carinho por você e sou eternamente grata por tudo que você fez, mas tinha que deixar isso claro, para que não haja mais nenhuma acusação de que eu a estou manipulando.- Disse num tom amargo.
- Oh minha Amy, eu te dou minha palavra e a palavra de Leo de que não haverá mais acusações.
- Tudo bem Lúcia. Que bom que tudo se esclareceu. Enfim, domingo passo em sua casa a tarde como foi combinado com seu filho. Nos vemos lá. Beijos.
- Ok. Até domingo Amy. Durma bem, querida.
Amelia desligou e foi deitar-se, mas como não conseguia dormir, começou a ler o livro que havia comprado e acabou adormecendo.
rAven
Enviado por rAven em 17/07/2017
Código do texto: T6056858
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