940-O CRIADOR DE HISTÓRIAS - 2a. parte - final

Numa cidade situada aqui por perto, havia um comerciante cuja loja tinha o estoque mais variado que muitas grandes lojas da capital. Era considerada a loja mais sortida de todo o estado e se rivalizava com as lojas da capital federal.

O proprietário chamava-se Totó Miranda, que orgulhoso de ter de tudo um pouco, procurava manter atualizado . Era visitado por muitos clientes que vinham de longe à procura de alguma coisa que já não se encontrava mais em nenhum lugar.

O caso mais pitoresco que aconteceu foi quando um turista carioca viajando por de carro, teve um problema com o referido carro e entrou na cidade onde Totó Miranda tinha sua venda. Pergunta daqui, pergunta dali, acabou encontrando a oficina mecânica de Chico Gasolina.

Feito o exame no carro, Chico gasolina disse:

— Tem que trocar a rebimboca do carburador.

O dono do carro ficou olhou surpreso para o mecânico e disse com seu carregado acento chiado de típico carioca:

— Rebimboca do carburador? Maiss onde é que vou encontrar exa pexa, aqui nexe fim de mundo?

— Preocupa não, dotô. Vai ali na loja do Totó Miranda. Ele tem um estoque de peças para carros. Lá o senhor encontra a rebimboca. — esclareceu o mecânico.

Lá na loja o homem foi atendido pelo próprio Totó. Procura daqui, procura dali, nas prateleiras com as peça pros automóveis, tratores, motos, e até uma hélice para avião teço-teco, encontrou uma rebimboca. Recondicionada, mas ainda boa.

O carioca assustou com o estoque da casa.

— Maiss, o xenhor tem mexmo de tudo ai, hein?

— Pode falar que quiser. — Totó Miranda gosta de exibir. — Se não tiver, mando buscar pro senhor, em qualquer parte do mundo.

— O senhor tem de tudo, mesmo?

— Pode pedir.

— Prego de duas cabeças, tem?

— Tá aqui! — Totó pega um maço de prego, e mostra os prego de duas cabeças.

— Maná do deserto?

Totó Miranda procura e acha numa prateleira uma lata amarela. Na tampa, desenhos mostram cenas do deserto e arabescos indicam ser mercadoria importada. Da Turquia ou das Arábias. Abre e mostra a mercadoria pro carioca.

— Tá aqui: o verdadeiro maná do deserto. Daquele que fala a Bíblia. Os judeus ficaram quarenta anos comendo desse maná. Tá na Bíblia.

O carioca ficou admirado. Mas vocês sabem como são os cariocas. Gostam de gozar os outros. Principalmente os mineiros. Então ele pensou, pensou, e finalmente disse:

— E o senhor tem PODELA ?

Totó Miranda nunca tinha ouvido falar naquilo. Mas não disse que não tinha.

— No momento, tou em falta. Mas se o senhor voltar amanhã, consigo. Quanto o senhor quer?

É claro que o carioca tinha inventado a mercadoria. Mais, agora, era trucar com o comerciante, a ver o que vai dar.

— Dois quilos. Sim... é isto! Quero dois quilos de Podela. Se o senhor arranjar....

— Pode voltar amanhã, é garantido.

O carioca saiu da venda intrigado. E penssando:

Quero ver como é que ele vai conseguir uma mercadoria cujo nome eu acabo de inventar. Agora, pego esse panaca!

Seu Totó Miranda, por sua vez, ficou matutando, matutando.

Que será esse raio de “podela”. Ah! Deve ser alguma erva ou raiz. Porque num pensei nisso antes?

Nem bem o carioca virou a esquina, Totó Miranda saiu, atravessou a rua e bateu na porta de Dona Luzia, raizeira que catava ervas e raízes no mato, fazia poções e sabia de tudo dessas coisas.

— Podela? Não, seu Totó, num é erva nem raiz, tenho certeza. Nunca ouvi falá. — responde a velhinha.

Totó Miranda telefonou pro Genésio, representante da maior firma atacadista de S. Paulo.

— Podela? Não, seu Totó, não tenho essa mercadoria, não. O que é?

— Sei lá. Um freguês, de passagem por aqui, me pediu. Tenho de encontrar a tal “podela”.

Se Totó passou o dia dependurado no telefone. Falou com mais de vinte fornecedores, no país, e até no estrangeiro. Mas ninguém,, no mundo inteiro, deu notícia da tal de “podela”. De tardezinha, seu Totó tava desanimado. Mas teve um estalo de inteligência.

— Esse carioca tá mangando comigo. Essa podela num existe. Mas vou lhe satisfazer o pedido, ara se vou.

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Já estava escurecendo quando seu Totó foi no quintal, com uma lata de goiabada, redonda e rasa, e, atrás das bananeira, “fez o serviço” na dita latinha. Foi pra mais de quilo daquela coisa fedorenta. Colocou a lata dentro do forno, a fim de secar.

No dia seguinte, o material da lata já estava bem seco. Então, num pilão de madeira, pilou o “material”, transformando-o numa farinha bem fina. Não dava os dois quilos que o carioca pedir, mas, pelo menos, iria atender em parte o pedido.

Nem bem abriu as portas do estabelecimento, seu Totó viu o carioca chegando. Assobiando. Alegre da vida.

Porque que esses turistas estão sempre rindo? – Pensou Totó Miranda ¬

Por sua vez, o turista também tinha seus pensamentos sinistros:

Quero ver a cara desse comerciante que acha que tem de tudo na sua loja. Desta vez ele não vai ter a mercadoria cujo nome eu inventei.

Ao chegar no balcão, lá estava Totó Miranda, também com um risinho safado, esperando freguês.

— Então, xeu Totó, cadê a podela?

— Taquí, seu doutor. — disse o comerciante, sarcástico.— Deu o que fazer pra conseguir, mas arranjei. Só consegui meio quilo, pois é mercadoria difícil arranjar, assim, sequinha, pronta para ser usada. ´

Entrega o saquinho com a “mercadoria”, esclarecendo:

— É pra ser cheirada, como se fosse rapé.

O carioca fica meio assustado. Pega no saquinho

Poxa, num é que exxe jacu axxouou uma coixa que penxei que eu tinha inventado!

Abriu o saquinho e verificou o conteúdo: um pó pardo, bem fininho, com um cheiro forte. Tapou logo o nariz. Com cuidado, pegou uma pitadinha da coisa e colocou na língua. — Ao sentir o gosto, cuspiu fora, com a cara mais nojenta do mundo e gritou pro Totó Miranda:

— Mas, ixxo aqui é MERDA!

— Sim, seu doutor, é o PÓ DELA!

A multidão caiu na gargalhada. O turista que pretendia deixar Totó Miranda sem saída, e até fizera uma aposta com o dono do hotel, ficou completamente sem jeito. Pegou o saquinho com o PÓ DELA e jogou para o alto.

Muitos assistentes que gargalhavam sentiram o gosto e o fedor das minúsculas partículas espalhadas pelo ar.

ANTONIO ROQUE GOBBO

Belo Horizonte, 4 de fevereiro de 2016.

Conto # 940 da SÉRIE 1.OOO HISTÓRIAS

Adaptação do conto 209 desta série.

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 18/01/2017
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