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E quem morreu foi a outra

Antes de ir parar na casa da mulher do cabelo verde, vivi um tempo em casa de uma família. Eles gostavam muito de bichos, me tratavam muito bem. Teria sido a melhor lembrança da minha vida aquela casa, não fosse uma Dona bicuda que trabalhava lá. Chamava-se Maria das Dores, Dasdor, pra simplificar.

Diziam que a vida poucas vezes havia sido boa com ela. Tudo quanto é sentimento negativo parecia encontrar guarida naquele corpo magro, desnudo de compaixão. Vestígios de felicidade em seu rosto, lhe juro, nunca vi! E olhe que eu me esforçava para fazê-la sorrir. Jamais logrei tal façanha.

Nem mesmo quando a caçula da família apareceu em casa com uma pomba atropelada. A pobre teve uma das asas quebradas e jamais voltou a voar, ainda mais depois de ter criado aquela pança. Precisava de ver, minino, a pomba passava só à base de milho e ração de boa qualidade.

Dasdor era a única a implicar com os bichos: “Onde já se viu criar pombo em casa feito bicho de estimação? Já não bastam as galinhas, seis cães, quatro gatos, dois coelhos, os canários e esse papagaio fi-d’ua-égua?”.

Ensinei a pomba – eita bicha burra! – a, sempre que Dasdor aparecia, fazer um ruído assim: “tefuroocu-tefuroocu!” Ah, minino, que a nega ficava doidinha; me chamava de depravado; tinha que ver.

Para desespero da caçulinha, um dia a pomba apareceu morta, prensada por trás de umas caixas de madeira na despensa, ao lado da cozinha. Ninguém sabe o que aconteceu. Por certo, um acidente - versão oficial. “Coitadinha”, dizia Dasdor. Eu apertava o fi-o-fó de tanto medo por um destino deste ou outro pior!

Dasdor vivia mal-humorada. Dizem que mau humor pega, mas por ser caprichosa nos serviços e cozinhar muito bem, trabalhou longo tempo naquela casa, sem grandes problemas. Vai ver a família era imune a coisas assim...

Por ser uma casa de sítio, a cozinha era bem ampla e quase toda aberta, muito arejada. Por um lado, é claro que isto é muito bom. Por outro, nem tanto, pois de vez em quando apareciam umas visitas sem cartão.

Num dia desses, estavam todos à mesa esperando para tomar um café fresquinho que Dasdor estava para coar, na pia, quando de repente ouviram ela se queixar: não sei o quê havia lhe picado o pé. E não demorou muito deram com uma visita inesperada, enrolada nos canos debaixo da pia.

Foi um pega-pra-matar, minino, e no meio da confusão a cobra sumiu. A família estava mais preocupada do que a Dasdor, pois ninguém sabia se a dita cobra era ‘matadora’ ou não. E Dasdor, muito tranqüila, dizia que não tinha perigo, que logo passaria. E passou mesmo. Horas depois continuava vivinha bulindo, e na parte superior do pé só um leve arranhão.

A dona da casa mandou vasculhar o sitio inteiro atrás da cobra bandida, e por volta do meio dia um cadáver apareceu. Disseram os especialistas do sitio que era um tipo muito venenoso. Eu não sei de nada não... Só sei que no meio de toda a confusão da mordida, coitada da cobra, pois foi ela quem morreu. Há casos que desafiam a medicina? Tire você suas próprias conclusões.

                                      *  *  *

Nota:
Esta narrativa é parte do contexto de outras aqui publicadas:
- No Restaurante – O Show da Vida (Contos/Fantasia)
- Pelo Nexo e Meio Sem Fim (Contos/Insólitos)
- Voltando à Ativa (Contos/Fantasia)
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 28/02/2010
Código do texto: T2111824
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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