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Memórias de Maria Teresa - Conselho De Uma Velha

A velha acocorou-se, acendeu um cigarrinho de palha – fedoreeeento! – e começou a falar:

-- Minha fia, se tu quisé tu escuta, senão dexa assim mermo cumo tá...

Deu uma tragada com força e soltou a fumaça espessa bem no meio da minha cara. Seria isso parte de um ritual de hipnose? – pensei - O parco oxigênio que teimava em ficar ali, deu o braço a torcer e foi embora, ofendido. Tossi e ao mesmo tempo tentei afugentar a fumaceira, abanando rápido com as mãos. Meus gestos passaram desapercebidos a ela e seu cigarro. Fungou longo, umas duas vezes, antes de voltar a falar.

-- A vida é chea de surpresa... O mundo num pára de girá, dá muitas vorta. Por isso mermo é bom num cuspir pra cima, minha fia, porque lhe cai adispois, bem no meio da cara.

Sorveu mais uma vez o cigarrinho, fitando-me como os olhos vivos, apertados.

-- Hoje tu tá aí cheia desses amigo, né? Tudo são flor... Mas presta atenção no que eu vô te dizê, por ixpiriência pópria mermo: – parou e soltou, pelo nariz, uma parte da fumaça – No dia que tu pricisá, - soltava agora também outra parte, pela boca - no dia que o mundo caí pra tu, pode ter certeza que num vai tê ninguém por perto pra te ajudar. Esses amigo aí vão ser os primeirinho a dá no pé.

Nova tragada. Jogou a cabeça para trás dessa vez, antes de soltar a fumaceira. Voltou a olhar pra mim e continuou, com ar grave:

-- Por isso mermo é bom tu fortalecer teu coração nos dia de alegria.

E o cigarro, esse agora parecia estar colado no canto (entortado) da boca. Que tipo de forças seriam aquelas que o mantinham ali, firme – pensava eu –, num tipo de vai-cair-mas-não-cai? Aquilo me intrigava. Ela deu prosseguimento ao discurso.

-- E se tu tiver, dentre esses teu amigo aí, um só que seja amigo mermo, de verdade, pode cuntá que esse, na hora do pega-pra-capá, mermo querendo num vai pudê te ajudá... purque vai tá muito longe. Vai ser só tu e Deus!

Ela agora segurava o toco de cigarro - que parecia não ia acabar nunca! - com as pontas do polegar e indicador da mão direita, a qual movia enquanto falava, como que desenhando no vazio com o fio da fumaça. De repente fez uma pausa e respirou fundo antes de soltar essa última advertência:

-- Portanto, minha fia, tu te fortalece, fortalece teu ispíritu. Como já te disse: se tu qué me ouvir, ouve, senão... A iscôia é tua.

Pois é, acho que devia ter dado ouvidos ao conselho da velha. O que não faz o preconceito, não é mesmo? Agora, só me resta cantar:

“Hoje eu tenho a minha lira
Tenho paz, não admira
Que você venha me procurar
Os meus males são pequenos
Vivo bem, não é pra menos
Que você vem me encontrar
Mas quando eu tanto precisava
Meu amor, como é que é?
Onde é que você estava?
Onde é que você estava?“ (1)


***

1 - Trecho de Onde É Que Você Estava, Chico Buarque.



Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 27/06/2009
Código do texto: T1669946
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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