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Seu Anturo

Eita que inda nem eram oito da manhã quando as caçambas começaram a tomar conta da rua. Eram três. E cada uma com três homens em cada cabine. Logo depois veio uma Kombi branca e parou bem em frente à casa de Seu Anturo. Do lado do passageiro saiu uma senhora baixinha, de óculos fundo-de-garrafa. Foi chegando no portão e, já sabendo que não tinha campainha, começou a bater palmas, chamando pelo dono.

Bateu uma, duas, três, quatro e mais vezes seguidas. A essa altura, eu que observa tudo do meu portão, bem defronte, aproveitei a movimentação dos outros vizinhos e resolvi me juntar a eles, caladin, num tipo de “procissão solidária”, como diria mamãe. Sabíamos quem era aquela senhora. Ela deu “Bom dia” ao povo e como Seu Anturo não aparecia, falou: “Seu Antero, ô seu Antero! Abra! O Senhor já sabia que viríamos.” E de Seu Anturo, nada.
 
- Pois é, Seu João, - a dona falou para um dos homens que vieram nas caçambas - acho que vamos ter que arrombar mesmo. – E olhando para outro companheiro: - Seu Zé, pode quebrar o cadeado!

Nisso, se ouve lá de dentro, bem detrás dos monturos, uma vozinha esganiçada: “Não, pero Amô de Deus! Num acabe cum as mia coisinha não. Peraí, peraí, já vou abrir já!”. Era seu Anturo. Na verdade, o nome dele era Antero, mas por causa das manias, ficou conhecido pela molecada como Anturo, de “Antero Monturo”.

Tá certo que mamãe já me disse pr’eu não ficar falando sobre o cheiro ou a aparência das pessoas, pois isso é extremamente mal-educado. Só que nesse caso eu tenho que falar porque senão ninguém me acredita. E no caso de Seu Anturo aí já é caso de sobrevivência mesmo. Onde ele estivesse a gente tinha que correr pra bem longe, pra ver se conseguia respirar. (Mãezinha, por favor não zangue comigo não, tá?!). É que seu Anturo fedia, mas fedia mais do que o fole véi do véi Félix.

Ele usava sempre a mesma roupa, uma bermuda véia imunda, mas tão imunda que mamãe brincava dizendo: “Uma junta de Arqueólogos não consegue chegar a uma conclusão sobre qual deve ter sido sua cor original.”

E os pés, chatos, rachados e encardidos, feito pé de carvoeiro. Ele só andava descalço. Certa vez, vendo um programa na TV sobre os Dragões de Comodo, lembrei de Seu Anturo. É que a pele dele mais parecia escama, um monte de cascões por baixo de tanto ceroto. Eu me perguntava se alguma vez aquele homem tinha tomado um banhozinho que fosse na vida. Acho que nem de chuva!

Bom, ele veio então abrir o portão pra “deixar passar os Cavaleiros do Apocalipse”, que era como ele chamava a mulher de óculos e os homens das caçambas: “Ô gente marvada! Dexa mias cosinha in paiz! Qui mal é qui eu to fazenu pruceis? Bando de Caifás, é isso qui oceis tudo são!” Isso ele falava olhando pra multidão, com raiva.

A casa velha - ou melhor, a ruína - em que ele vivia não se distinguia dos montes de entulho no quintal. Meu Deus, contando ninguém me acredita! Tanto é que os homens da prefeitura passaram o dia inteirinho enchendo e esvaziando caçambas e no final da tarde ainda tinha  montões de lixo pra recolher. Tudo o que se possa imaginar tinha ali: ferro velho, papel, papelão, móveis, roupas, restos de comida, colchões velhos, o que fosse. Além dele nunca jogar nada fora, todos os dias ainda ia pras ruas catar lixo e trazia tudo pra casa. Horrível! Eu e minha família tínhamos muita pena dele.

Quando os homens da prefeitura começaram a limpar o local, Seu Anturo ficou desesperado e pedia por tudo o que fosse mais sagrado que lá deixassem suas coisinhas, fruto de tanto esforço e tanto trabalho pra juntar. Foi triste a cena. A senhora de óculos querendo que ele entrasse no carro e fosse com ela. Eu já tava vendo a hora de terem que chamar uns homens, com camisa de força e tudo. Foi quando ele cedeu e levaram ele embora. Coitado de Seu Anturo, mas também coitada da gente da Kombi! Foi muito triste.

Antes do povo da prefeitura chegar, mamãe tinha me falado: “Hoje é o Dia-D, meu filho. Tenho muita pena de Seu Antero, muita pena mesmo. Mas vai ser também um alívio para toda a vizinhança quando tirarem esse lixão daí.” E olha que ao final veio até um pessoal da Vigilância Sanitária buscar os ratões que os homens da prefeitura conseguiram pegar. Cada gabiruzão! Só vendo! Uns mortos, outros ainda vivos. Mamãe nem teve coragem de olhar. Eu que contei pra ela depois. Mais de 100, sem mentira nenhuma!

Uma vez tinha perguntado pra ela por que Seu Anturo gostava de ajuntar coisas e viver no meio de tanto lixo assim. E ela respondeu: “Ele não tem família, meu filho, vive muito sozinho. É também uma pessoa que já sofreu muito na vida, já viveu na rua, passou muita fome. Parece que a esse comportamento chamam Síndrome de Diogenes. Para mim, é uma doença, filho, é uma doença. Pobre homem... De qualquer maneira é melhor que o levem para que seja tratado. Se o deixarem por aqui, não dou nem um ano pra este lugar estar, de novo, entulhado de lixo, do mesmo jeitinho que está agora.”

O pessoal da prefeitura levou vários dias pra limpar a casa e o terreno. Hoje a fedentina na nossa rua diminuiu, os gatos estão mais magros e Seu Anturo continua no sanatório. Eu e mamãe, lá uma vez na vida outra na morte, vamos fazer uma visitinha pra ele. Agora ele anda mais limpinho, se bem que a velha inhaca ainda não saiu dele não. E a mania de juntar coisas ele também não perdeu: pedras, folhas secas, embalagens de coisas que levamos nas visitas, tudo por lá. Eita, Seu Anturo!

Nota da autora:

Este texto é ficção, porém inspirado num caso real. “Meninos, eu vi!” – mas foi na TV.
O trava-língua foi um amigo que me ensinou:

“Tanto fede o velho Félix
Como o fole velho dele fede!”

Tem que falar pelo menos 5 vezes seguidas, bem rapidinho. Outra versão é tentar fazer o mesmo, só que com a boca cheia de farinha (seca) ou algo parecido. Experimente e depois me conte. Eu não consegui :-)

Esse mesmo amigo do trava-língua contou-me, certa vez que, com medo de acabar doido por excesso de método e organização, passeou os olhos pelo quarto que acabara de arrumar, impecável, procurando desesperadamente por um pouco que fosse de desordem. Sem nada encontrar, desarrumou (só um pouquinho) a cama e disse: “Agora sim, parece quarto de gente normal.” Ele havia descoberto que perfeccionismo exagerado também pode enlouquecer.

“Tá todo mundo louco, ôba!
 Tá todo mundo louco, ôba!”

É isso aí :-)

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 20/04/2009
Reeditado em 10/08/2009
Código do texto: T1549015
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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