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Firmino Pena

De vez em quando, gosto de me propor desafios... Aqui, o resultado de um deles: escrever um tipo de 'causo'. Ficou um pouco longo... É que não quis ‘castrar’ os personagens... Foi muito divertido criá-los!

Boa leitura! :-)


FIRMINO PENA

Todos os sábados, à tardinha, era assim. O sujeito, acabado de vir da missa das quatro, a qual assistia toda semana, re.li.gi.o.sa.men.te, sentava-se rente ao balcão da lanchonete, pedia um copo de suco qualquer, e ali ficava, a puxar conversa com ouvidos soltos vagabundos. Assim matava o tempo, antes do início do campeonato de dominó, na praça. Duas coisas pareciam ser a razão de sua existência: o próprio falo e o bolso!

Isso intuía eu, observando que quase todas suas conversas giravam ou em torno de sexo ou de dinheiro. Nem mesmo eu escapava de suas piadinhas e papos maldosos: “ Tonico, menino, nunca te vi com mulher por aí! Hum... olha que eu já te disse que urubu e viado comigo é na pedrada! Só vive enfornado nesta lanchonete, grudado em saia de mamãezinha... Onde já se viu? Dia desses vou te levar por aí comigo. Aí vamo ver se tu gosta mesmo da fruta he he he... ”. Como não sou de atirar pérolas a porcos, ficava quieto, só na minha...

Na maioria das vezes, Firmino tirava para enxovalhar suas ex- mulheres. É melhor ouvir do que ser surdo. Por isso eu escutava suas versões, e quando ele muito se empolgava, pensava comigo, balançando a cabeça desalentado: “ Ah, Firmino Pena... quem não te conhece é que te compra... ”

Toda a cidade sabia que seu maior arrependimento era o de ter-se casado cedo e não ter gozado mais a mocidade. Firmino passara boa parte da vida em colégios católicos. Assim como a mãe de Bentinho - aquele, de Machado -, a de Firmino também queria vê-lo padre. E ele chegou mesmo a ser seminarista, até que os diretores do seminário, todos convictos de sua total falta de vocação, convidaram-no gentilmente a sair.

Deixar o seminário e desembestar no submundo foi tudo um mesmo passo. Em nossa pequena cidade, naquela época, isso era sinônimo de viver uma vida desregrada, freqüentar bordéis. Vivia assim, feito cavalo brabo solto no mato, até um dia ser laçado por uma das moças mais bonitas da cidade – e filha de uma família muito boa, diga-se de passagem!

“ Aí foi o começo de toda a desgraça ” – contava ele – “ pois naquela época as coisas eram muito diferentes... Para se poder levar uma MOOOÇA para o quarto, antes era preciso passar pela sala... E para chegar ao objetivo, só se fosse começando pela mão! Ainda mais aqui, nesta cidade, que é um ovo! ” Consumido por um fogo da cachorra e só pensando no objetivo, não teve jeito: casou, e casou bonito!

Não tinha ainda nem vinte e um anos e a noiva beirava os dezenove. Logo vieram os dois filhos do casal. O primeiro nem havia sido desmamado, o segundo já batia à porta. Sou muito amigo desses meninos. Crescemos juntos. Fomos vizinhos e colegas de escola. Somos, praticamente, da mesma idade. Essa amizade foi o que me fez conhecer bastidores das peças de Firmino.

Pouco depois da chegada do segundo filho, a esposa perdeu a graça para ele. Aí começaram suas memoráveis puladas de cerca. Isto foi o que ela, certa vez, me contou. Logo no início, sofrera muito - e calada. Firmino nem suspeitava que ela soubesse de suas tão bem armadas estripulias. Presa ao casamento por causa dos filhos, e por dependência financeira, ela levava a vida como podia. Quando os meninos cresceram, impôs-se à resistência do marido, da família, e da sociedade, e começou a trabalhar fora de casa. Arrumou um emprego como secretária, meio expediente, num escritório de advocacia.

Anos foram passando. Firmino vivia cada vez mais intensamente suas aventuras extra-conjugais; ela trabalhava e economizava - em segredo! Até agradecia o fato dele não ‘procurá-la mais’ – termo que ela usava -, razão pela qual não tiveram mais filhos. No começo, ela fingia dores de cabeça, coisas do tipo e depois nem precisou mais mentir. Logo teve dinheiro suficiente para comprar um carrinho – um fusquinha de segunda-mão – e tornou-se independente da ‘boa’ vontade do marido em ceder-lhe o carro da família, quando queria sair só. Firmino vivia tão centrado no próprio umbigo que nem notou as mudanças da esposa. Vestia-se muito bem, cuidava-se. Fortalecia-se e preparava-se para o dia da alforria. Era o quê, na época, se chamaria ‘mulherão’ – com todo o respeito, claro!

Ela me contou como foi no dia do choque. “ Firmino, quero a separação! Esse CAGAMENTO ” – frisava o erro – “ tá dando certo mais não, meu filho... Pensa que ele me levou a sério, no início? Ficou foi caçoando, perguntando como é que eu ia viver sem ele. E eu, de pronto, respondi: Problema meu! Só queria te dizer que tô deixando a casa nos próximos dias. Advogado eu já tenho, e os papéis já dei entrada. Os meninos já sabem, disseram que querem ficar comigo."

Firmino caiu, literalmente, da cadeira! " Pois é, meu filho, a ficha demorou foi muito pra cair... Tinha a boca dura, morria mas não admitia ter pulado cerca. Dizia que era tudo invenção minha, exigia provas... Foi um inferno! Pior ainda foi quando ele soube, pouco depois da separação, que eu tinha ‘me amancebado’ – como ele falava – com o meu chefe, que ainda por cima, era já um homem de meia-idade - e casado! ”. O chefe deixara a família para ir viver com ela. Pois é, coisas da vida!

Já Firmino conta que, nesse ponto, as coisas começaram a clarear para ele... Botou na cabeça ‘chifres’ de que a mulher sempre o traíra, desde que os meninos eram pequenos. Ser trocado por um homem em melhor posição social que a sua, até podia aceitar, mas traição?... “ Não! Aquilo já era demais... TRAIÇÃO é inaceitável! ” – declarava ofendido, contando as desditas.

E com mais ‘reeeeiva!’ ele ficou, quando se viu obrigado a pagar pensão aos dois filhos. Ferido na alma – e no bolso! – passou a difamar a ex-mulher. Ela, ao saber das fantasias sujas que ele espalhava a seu respeito, só dizia: “ Aqui se faz, aqui se paga... Foram mais de 15 anos de CAGAMENTO... ” – fazia questão de frisar o erro na palavra – “ Só Deus sabe o que eu passei! ”

Daí o homem ‘despirocou’ de uma vez! “ Se a mulher teve coragem de me trair e abandonar o lar, eu, um homem tão bom, não tinha porquê agora me comportar como um monge! ” – assim tentava justificar seu novo comportamento - “ Fui um homem correto, vivia de casa-pro-trabalho, do trabalho-pra-casa... Olha o quê eu ganhei! Agora, quem quiser falar mal de mim, que fale! Eu vou mais é gozar a vida. E gozaaaaaar muito!! ”.

Sem o menor pudor, incorporou o ‘terror’ das mulheres. Em sua casa era um entra-e-sai de mulher de todo tipo, cor e tamanho. Era manhã, tarde, noite, madrugada... Eu cogitava: “ Enlouquecera ou estava querendo provar alguma coisa a alguém. ”. E todo sábado estava lá, batendo cartão, na missa das quatro. Dizia que pecava de domingo a sexta, mas o sábado... esse dia era sagrado! Era dia de descontar os pecados na missa, de limpar a lista para a próxima semana.

Divorciado, curtiu sua vida solta, de cavalo brabo, até um dia ser laçado de novo, só que dessa vez por uma ‘macaca velha’, como ele a chamava. Esta trabalhava e era por demais independente. Para usar termos atuais, podia-se dizer que era uma de suas ‘ficantes’ mais constantes. Já ele gostava de usar o termo ‘amizade colorida’ para designar aquele tipo de relação.

Um dia, a mulher engravidou e culpou Firmino pelo acidente. Casaram-se por causa da criança, que Firmino assumiu sem longas nem delongas, se bem que se diziam muito apaixonados... No período em que estiveram juntos, Firmino parece ter sossegado o facho. Se houve aventuras nessa época, ninguém sabe, ninguém viu. Se o casamento fosse feliz, talvez até pudesse ter continuado – quem sabe? - até hoje sendo, não fosse aquele nariz...

Ah, Nariz e mentiras... Êta associaçãozinha braba! A criança – um menino - tinha um nariz que não puxava a nenhum dos dois lados: nem o do pai, nem o da mãe. O menino cresceu, e junto com ele, o nariz - e as insinuações! Até que Firmino começou a reparar melhor nele... Logo estava convencido de que era uma copia fiel, em miniatura, de um colega de trabalho da ‘macaca velha’.

Aquela velha conhecida dor-de-corno, se já incomodava, agora tornara-se insuportável. “ TRAIÇÃO é inaceitável! ”: esse era o mote de Firmino. A mulher negou toda vida ter tido caso com o suposto pai, o colega, e afirma – até hoje - que Firmino é o pai do menino. Foi em cima, foi embaixo e a questão da paternidade foi parar no tribunal, assim como a separação, pois a essa altura o casamento já tinha ido pras cucuias...e há muito tempo!

Contando a história, Firmino dizia estar certo de terem feito “macumba braba” pra ele. “ Com certeza, aquilo era coisa daquela... piiiiiiiiiiiii!! ” – berrava. Como pessoa educada que sou, termos chulos, aqui, não vou usar. Eu só lembrava do “ Aqui se faz, aqui se paga... ”. Isso, da macumba, foi por causa do seguinte:

Cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo. Aconteceu do juiz da cidade ser filho do homem, daquele que tinha ‘se amancebado’ com a primeira mulher... “ Ah, mas esse juíz tem tanta raiva, mas tanta raiva daquela safada! ” – contava Firmino – “ Se não fosse por ela, o pai dele jamais teria abandonado a família. E a mãe, desgostosa, não teria ido parar no sanatório... ”

Pois é... Deu que a (suposta) má-vontade do juiz, aliada à incompetência dos advogados de Firmino, transformaram o processo em algo ‘kafkaniano’. Ainda que todos os exames, provas e contra-provas, dessem que ele não era mesmo o pai biológico, o caso da paternidade – com todos os recursos cabíveis -, arrastou-se por muito tempo, com Firmino tendo que arcar com todos os custos no final.

Para evitar maiores prejuízos, decidiu, dali em diante, livrar-se dos ‘famigerados efeitos colaterais’. Era assim que costumava se referir aos filhos, incluindo aquele que fora, sem na verdade jamais ter sido. Firmino fez, então, vasectomia. Uma vez fechada a porteira, o abate podia continuar, sem dó nem piedade. A essa altura, ele já havia passado dos quarenta, o que, talvez ajudasse a explicar aquele comportamento comedor. A única coisa que viria refrear um pouco sua promiscuidade, anos mais tarde, seria medo da Aids, “ culpa desses viado sem-vergonha! ” – como dizia.

Talvez a passagem dos anos o tivesse feito desejar uma vida um pouco mais estável. Foi aí que, pensando ter encontrado uma mulher correta – religiosa, madura, ajuizada – decidiu casar-se pela terceira vez. “ Tinha tudo pra dar certo! Eu gostava dela, ela de mim... ” – lembrava, o olhar perdido no teto da lanchonete. De repente saía do transe e, fixando o olhar no primeiro ouvinte que encontrasse, como a ponta de uma faca rente à retina, dizia:  “ Fizeram, de novo, macumba pra mim. Só podia ser! ”

Tudo ia muito bem até que, para surpresa geral, a mulher engravidou – e de gêmeos! Firmino não creu. Afinal, ele não tinha feito o diabo da vasectomia? Dizem que a taxa de falha – quando a coisa é bem feita – não chega a 1%. Fato é que a santa mulher jurava, de pés juntos, que jamais lhe fora infiel, mas Firmino, transtornado por seu horror a traição – pecado imperdoável!! - dizia não querer nem ouvir falar naquela ‘santa do pau oco!’.

A mulher, não negando a raça - nordestina, “ masculina mulher macho, sim senhor! ” - anunciou: “ Pois vamo esperar as crianças nascer. Se o exame de paternidade der positivo, mesmo num querendo, nem precisando do seu dinheiro, seu cabra muquirana, vou arrancar até o seu couro! E as crianças, nessas tu nunca vai triscar é um dedo! ” – relembrava Firmino – “ Como é que eu podia saber? Gato escaldado ...” – dizia com ar de coitado - “ E foi assim mesmo que aconteceu... Mulher tinhosa, e enfezada, aí já viu!! ”

A cara do Firmino já era manjada no tribunal - aquele mesmo juiz ainda tava por lá... – e, para o mal dos pecados, a santa mulher era de família influente. Pelas pedras com que passou a topar, dali em diante, Firmino amargou pelo resto da vida ter duvidado da palavra da sua terceira – e última – esposa. Essa mulher ele dizia amar, os amigos me contaram. Tentou reatar com ela. Chorou, pediu perdão, se humilhou, mas arretada como ela só, cumpriu todas as suas palavras, sílaba por silaba, letra por letra. Os prejuízos financeiros de Firmino, esses foram astronômicos!

“ Foi tudo macumba daquela... piiiiiiii!! ” – de novo me impede o recato de aqui repetir palavras de tão baixo calão. “ Tudo começou por causa dela! Eu sempre fui um homem fiel. Se tem um homem que não merecia chifres, esse era eu! Três vezes - três vezes!! - bebi o veneno da traição, sendo que da terceira me enganei, e perdi minha santinha... Perdi o respeito pelas mulheres... Hoje só quero saber é de ficar! Casamento? Sou mais besta não! Mulher direita, como a minha santinha, duvido que ainda exista! Tudo safada! Tudo cachorra! Por isso é que hoje em dia eu só fico... e me cuido... “ – dizia, mostrando os preservativos na carteira, tentando parecer ‘pra frentex’, termo que gostava de usar.

Espichou o olhar para a rua ao ver uma bela mulher passar em frente à lanchonete, e disse: “ Peraí, rapaz... Olha aquele chuchuzinho alí... “– fez com a boca uns ruídos, como se salivasse e  sibilasse ao mesmo tempo – “ Deixa eu correr alí, gente! Aquele filezinho não vou dispensar he he he... ” – e a ladainha daquele dia parou por ali mesmo.

Assim era Firmino Pena. Não nego que fosse um homem bonito. Vai ver por isso fazia tanto sucesso entre as desavisadas. Devia lá ter suas qualidades, mas quando abria a boca...

Por meus amigos – os ‘efeitos coletareis’ mais velhos – fiquei sabendo que ele, tendo se recusado a fazer o preventivo, por puro preconceito, há pouco tempo descobriu um tumor na próstata, já em estágio avançado. Sendo altíssimos o custo do tratamento e o risco de ficar brocha, não deu outra: “ Come, morre... Não come, morre... Ah, deixa tudo como está!” – decidiu. Creio que ele nem sonhe que eu possa saber de tudo isso...

NOTA DA AUTORA:
Isso é ficção. Qualquer semelhança com situações, fatos e pessoas na vida real foi mera coincidência.
Espero que tenha gostado da leitura :-)
Inté!!

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 10/03/2009
Reeditado em 09/03/2010
Código do texto: T1479303
Classificação de conteúdo: seguro

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