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Leões em pele de humanos

 – Meu Deus, o que é isso?

 – Interrompemos esta programação para avisar a todos os telespectadores que não saiam de casa neste dia.

 – Quem são esses milhares de maníacos nas ruas prontos para atacar o primeiro que veem na frente?

 – As Forças Armadas estão nas ruas para restaurar a ordem.

 – A que ponto chegou o ser humano?

– Abra as portas de casa e dará de cara com o capeta!

 – Conheça a droga do fim do mundo!

   Nas TVs, nas rádios, nas fofocas diárias, nos celulares, smartphones, iphones, na internet. Podia se falar de tudo um pouco. Futebol, mulheres, homens, bebidas, saídas, vida pessoal, vida laboral. Trocar ideia relembrando os antigos confrontos no RPG. Curia-se a vida do próximo não tão próximo assim.
   Sábado, ensolarado, céu limpo. Tudo atraente pra se comemorar mais um fim de semana tomando uma gelada no boteco mais próximo, jogando uma bola com os amigos, indo ao clube ou a uma cachoeira próxima tomar um banho para refrescar, levar a namorada ou namorado para curtir um cinema.
   Nada disso estava acontecendo. Mais de 300 mil moradores esvaziaram as ruas da cidade, agora muito mais sombria do que as tênues madrugadas taguatinguenses, repletas de incertezas. Não se sabe quem vem, quem que vai, quem é quem, quem te trai. Gatunos das mais diversas maneiras podem estar próximos a você louquinhos para darem um bote, tal qual um gavião esperando a sua presa.
   A Avenida Comercial, famosa por suas ruas compridas e retilíneas, alojando um monte de lojas por perto, conhecida pelos vários engarrafamentos de carro durante quase todos os dias na semana enfim tinha se calado. As portas dos comércios estavam trancadas. Os semáforos alertavam o nada. Não se via carros, nem pedestres pelas pistas e calçadas. Apenas rastro de carnificina e destruição.
   Neste dia não era o temor dos despossuídos que permeava a atmosfera local. Neste dia tudo parecia não atrair a mesma atenção para todos os populares na grande cidade. Assim eram os comentários espalhados por toda Taguatinga, amargurados em cada letra emitida pela boca, espantados em cada vez que abriam seus olhos e olhavam pela janela.
  Os pais faziam de tudo para proteger seus filhos. Se viravam com o que podiam. Colocavam uma pá de cadeado para trancarem os portões, empilhavam móveis e mais móveis por trás das portas, despertados pelo medo. Religiosos faziam diversas preces, terços, fazendo promessas, de qualquer modo pedindo misericórdia a Deus para que os livrassem dos males do Armagedom e os levassem aos portões do céu. Nem na própria sobrevivência as pessoas estavam crentes. Tudo parecia caminhar para o final.
  Não. Não era a Terceira Guerra Mundial. Não era uma guerra civil. Não era golpe de estado. Há meses os jornais locais e nacionais alertavam o perigo:

 – Nova droga que está sendo difundida no Brasil induz ao canibalismo.

 – É a droga do fim dos dias.

– O apocalipse zumbi tem os dias contados para chegar até nós.

   O que seria a causa? Miséria? Falta de perspectiva com a vida? Depressão? Más influências? Burrice? Animalidade? Curiosidade? Atração pelo proibido? Insanidade? As interrogações eram muitas na cabeça de quem tentava imaginar qual o motivo de um parente ou de um amigo ter caído na rede envolvente e periculosa apelidada de Cloud Nine.
   Conhecida desde a Europa, esta droga, misturada entre LSD e cocaína – podendo facilmente conter outras substâncias que o usuário nunca vai saber que estão lá – chegou no Brasil. Não se sabe como. Alguns dizem que certos farmacêuticos chegados da Alemanha vieram pra Brasília e aqui, tendo boas condições financeiras, abriram uma rede de farmácias chamada Salutem, contendo algumas delas espalhadas no Distrito Federal. Desconfiam muito da fortuna que esses caras fizeram e por quais razões vieram para o Brasil, mas, vivem legal e até hoje estão numa boa.
   Outros falam que são traficantes menores que trouxeram de países vizinhos, passando pelas fronteiras. O que se sabe é da destruição. É verdade, nem todos que experimentaram a droga viraram reféns da lombra. Mas quase 100% dessas pessoas tiveram um fim trágico. Desde dois meses atrás, a cidade não tem vivido em paz.
   Apesar de alguns ou outros boatos surgidos anteriormente, a vida de Lúcio levou em seguida a cidade de Taguatinga a um terror nunca antes vivenciado na cidade. O jovem, 19 anos, filho de uma comerciante e de um advogado, poderia ter tido uma vida saudável se não tivesse sido impelido pela sua farta curiosidade.
   Foi até um local marcado encontrar um traficante afim de pegar 3 gramas de cocaína, droga que mais gostava de todas as que consumira. Dava agitação, vibração, atenção e aquilo que mais faltava em sua vida: coragem. Logo após passar o dinheiro ao vendedor, o mesmo se dirigiu ao comprador e lhe mostrou uma parada:

 – Aí parceiro, tu curte os doce também?

 – Curto, mano. Um papelzinho é de lei, né? - falou Lúcio, abrindo um sorriso de orelha a orelha.

Foi quando ele abriu a mão esquerda, mostrando um recipiente que mais parecia de um remédio comum.

 – Essa parada aqui, mano, é feita das duas paradas que tu curte, vagabundo. Pó e doce juntos. Essa viagem é sinistra, malandro. Tá a fim de experimentar? - Vinha o traficante, jogando os verdes.

 – Vei, não sei não. Eu nem sei que porra é essa.

Aí o diabinho atentou:

 – Chega aí parceiro. Eu tomei semana passada, pode crer? Foi a lombra mais doida da minha vida. Tive altos visual pesado, fiquei lombrando com uma pá de coisa. Alucinadão pesado, tipo alienígena, parceiro. - nisso ele fez questão de gesticular com a mão ao mesmo tempo. -Tu vai curtir, vagabundo. É especiaria!

 – Pode crer. Vou pegar então. Aproveitar que tô com grana sobrando.

   Vou pegar então. Esses foram os últimos dizeres sóbrios ditos na vida de Lúcio, um jovem como qualquer outro que viu sua vida interrompida pela força do desconhecido. Um jovem que poderia ter saído nos de jornais entrevistado pelo seu potencial artístico incomum. Acabou como capa do jornal. Que glória! Glória? Mobilizou batalhões de polícia, bombeiros e até mesmo o exército foi dar uma força.
   O desespero tomava de conta. Tinha braço mutilado fora do corpo. Sangue abundante corria pelas ruas. Gritos em desespero permeavam as ondas sonoras. Barulhos de passos apressados gritavam mais que o barulho das buzinas de impacientes motoristas. Uma moça caminhava calmamente para pegar ônibus, a fim de ir ao trabalho. Chegou ao ponto de ônibus. Que pena. Acreditou realmente que sua angústia naquele dia se resumiria aos problemas com o transporte público. Inocente. A mão que acenava para que o motorista parasse era a mesma que estava pregada na boca de Lúcio.
   Antes que as forças policiais realmente se dessem conta do perigo e atirassem várias vezes contra a face do mesmo, Lucinho – apelido diminutivo dado pelos íntimos – tinha quebrado vidraças da estante de uma loja de calçados. As atendentes, temerosas, correram apressadamente para o banheiro, onde o monstro humano não conseguiu entrar. Sorte delas. Sorte que faltou às duas vítimas fatais daquele jovem sob efeito do entorpecente.
   A partir desse dia iniciou-se a síndrome de Lúcio. Quanto mais a droga se espalhava pelo jornais, parecia que o efeito para combater se tornava totalmente infrutífero. Muito pelo contrário. Os encarecidos apelos dos profissionais da comunicação, da educação, da saúde, dos setores de controle social e até mesmo do próprio governador ajudaram a difundir seu uso.
   Jovens da classe média, por mais que fossem alertados, por algum motivo utilizavam a substância. A ideia surgia como banhos de águas descendo por uma cachoeira, livres, leves e soltos. Outro caso grave foi o que acontece em uma festa eletrônica próxima à Brazlândia. Dois jovens possivelmente tiveram contato com a parada. Muitos diziam que eles se remexiam e retorciam como retardados. Não se sabe se tomaram outra coisa, mas após o êxtase de minutos, vieram momentos mistos de pânico e agressividade extrema. Foi quando os dois jovens se desconfiaram de si, provavelmente muito loucos, e começaram a se bater violentamente, animalescamente, com uma força descomunal.
   Os dois primeiros seguranças que tentaram separar saíram com o rosto todo ensanguentado. Foi preciso um batalhão de seguranças baterem neles como se estivessem tratando um criminoso de primeira linha possuído pelo demônio. Rastro de destruição que seguia e se espalhava, principalmente por Taguá e Asa Norte.
   Quanto mais era combatida, mais era consumida. Apesar das constantes batidas, ela estava presente em várias embalagens aparentemente de produtos legais, o que dificultava os botes dos policiais, tais quais medicações, cápsulas. Enquanto isso, a epidemia crescia exponencialmente. Usuários de crack já não eram tão temidos quanto antes. Mesmo eles, tão combatidos, discriminados e descontrolados em seus momentos de lombra sofreram na mão desses novos usuários.
   Quem já deu PT com rupinol sabe bem do potencial que a substância, especialmente quando ingerida com bebida alcoolica, pode causar a um ser humano. Não importava qual fosse. Crack, rupinol, belladona, chá de fita. Todo mundo estava em pânico era com o novo sintético que atacava as pessoas com um pouco de condições de vida.
   Após meses de batidas policiais, mandatos de busca e apreensão, intensa campanha publicitária – chegando mesmo até a atrair a campanha de atores televisivos, jogadores e cantores famosos pelo país – para que as pessoas dissessem não, o sim imperava. Mais e mais pessoas eram vistas pelas ruas como zumbis ambulantes.
   Seus olhares sem vida, sua aparência sobrenatural, seu semblante que transmite o descontrole e o ódio. Intensos ataques de pânico e intensiva agressividade. Murros, voadoras, facadas. Balas, as mesmas mortíferas, reais agentes decisores de uma guerra, não eram suficientes para interromper o pulsar do sistema nervoso do cidadão.
   Várias ocorrências policiais foram registradas. Até mesmo os malandros estavam inseguros na madrugada. Um rapaz conhecido como André – de apelido Laroke – conhecido por ter 20 anos e 3 homicídios nas costas, saiu mais um dia pelos rolês da noite para “fazer uns ganhos”. Afinal, nada o parava. Já havia tomado até tiro da Rotam em uma fuga, mas nem isso o fez temer a vida loka.

- Catar um boy desses cursinho e já era, parceiro.

   Assim pensava antes de chegar ao beco próximo ao estabelecimento de ensino. Enquanto passava desapercebido pelas ruas, foi surpreendido por uma mulher descontrolada que o empurrou para o chão. O cara nem viu da onde aquela porra saiu, que mais tava pra um fantasma, pra um animal selvagem, qualquer coisa menos um ser humano. Ele tentou sacar o seu oitão. Aquele mesmo oitão que o ajudara a ganhar dos playboys várias vezes. Aquele mesmo oitão que há 1 ano atrás tinha mandado um vacilão pra casa do caralho em um único disparo. Este foi o mesmo oitão que não conseguiu impedir o seu mutilamento.
   Foram várias bocadas nos braços e na região do pulmão. O final do resultado foi mais um corpo ensanguentado, furado, dilacerado e com parte do brônquio esquerdo visível para o paparazzi de todas as câmeras e celulares que ali estavam. Mais uma vez a polícia chegou ao local. Foi um trabalho enorme para tirar a moça de circulação. Ela resistiu mesmo após vários disparos de .40 Taurus. Só caiu morta depois do tiro fatal, no cérebro.
   E assim seguia a vida na região administrativa. O pânico tomara a antes onipresença dos gases oxigênio e carbono. Poucos mesmo se arriscavam a ir até o trabalho ou para a escola, no grilo de trombar não mais com um “malinha”, no linguajar taguatinguense, mas com uma pessoa descontrolada pelo efeito da cloud nine.
   Aos poucos o cemitério São Francisco estava ficando cada vez mais abarrotado de corpos, como se não bastassem os vários enterros diários, a hecatombe da vez fazia a terrível mágica de multiplicação de corpos. LSD + cocaína + substâncias adicionais nunca identificadas = enterro.
   Famílias, essas quando descobriam que um parente seu tinha experimentado a droga, faziam questão de se isolarem. Era como lepra. Igrejas, postos policiais, estabelecimentos comerciais, shoppings centers. Tudo servia de estadia para os que fugiam dos novos zumbis, zumbis estes que deixariam Frank Darabont paralisado com tanta realidade. Seria a vida imitando a arte?
   Mal sabia que tudo num estalos de dedo, seja pela virtude ou pela fortuna, pode mudar repentinamente. O dia era 16 de setembro de 2017. Um dia normal, qualquer, tão comum como qualquer sábado ensolarado. Tudo parecia tão rotineiro, até quando começou o dia. Havia no Facebook um evento marcado para uma festa pros idos da Colônia Agrícola que tinha tudo para ser uma “party” normal. Socialzinha, galera curtindo, gente se pegando, gente muito louca. Nada anormal.
   Mas este 16 de setembro preparava algo mais. 16 de setembro que tornou-se 11 de setembro quando uma galerinha muito doida apostou para cada um dos membros, já muito loucos de sabe-se lá o quê, deveria colocar esse remedinho na bebida da galera na festa e depois tomar. Alguns tomavam por pura curiosidade, ou por já estarem muito loucos também. Festa de doidão é assim mesmo. Iam pro tudo ou nada e nada os derrubaria. Não sabe-se como conseguiram a droga. O efeito, por sua vez, sabe-se muito bem.
   Poucos minutos depois, as pessoas já começavam a sentir fortes neuroses. Uns reagiam discutindo, falando coisas sem o menor sentido. Outros começavam a se agredir, como animais em rinha. Mas o purgatório ainda viraria inferno. Muitas das pessoas que não tomaram, vendo aquela selvageria jamais vista em vossas vidas, movidos mais pelo medo do que pela coragem, acabaram também tomando o comprimido de forma a tentar gladiar naquele coliseu. Parecia a única maneira deles saírem vivos dali. Um dos caras desse grupinho que estava distribuindo, ficou tão perturbado que logo depois deixou cair um saquinho plástico que continha vários cloud nines.
   A vizinhança, descontente com a barulheira que os festeiros faziam, ficou indignada. Ligou a polícia. Uma viatura chegou ao local, com 3 policiais. Eles bateram no portão. Nada de alguém abrir. Escutavam uma música e muita gente gritando. Objetos pareciam se quebrar. Alguns falavam coisas incompreensíveis. Afinal, o que estaria acontecendo?
   Um dos policiais ia pedindo reforço através do seu radinho, mas aquele que estava conduzindo a viatura pediu para esperar um pouco, só chamaria em caso de emergência. Afinal, apenas pediriam para abaixar o som e não encherem mais o saco, caso contrário bateriam lá de novo e acabariam com a farra.
   O motorista da viatura, Medeiros, sabia muito bem como arrombar qualquer portão sem utilizar a força bruta. Nas manhas, na maciota conseguiu destravar a porta depois de tantos gritos e socos no portão não respondidos. Mal esperavam o que estaria por vir. O apocalipse zumbi saía dos cinemas e da literatura para dar sua face na vida real. Seres humanos sem rosto, sem coração, sem alma, sem sorriso, sem civilidade.
 – Cara, isso é gente humana mesmo?
   Dentro aquilo parecia uma zona. Talvez fosse uma espécie de manicômio. Multiplicando isso por uns 20 possivelmente daria a soma exata da tragédia. Era possível ver seres desfalecidos, ou, parcialmente desfalecidos. O cheiro de sangue se espalhava. A morte e a incerteza também.
   Os homens da lei tentaram impor a ordem. Afinal, eram seres humanos ali. Inocentes...Toda a experiência do CFP parecia insuficiente. Tiros, spray de pimenta, tentativas de imobilização. Tudo por água abaixo. As pessoas pareciam sobreviver às balas. Não eram 10 ou 30 pessoas. Eram centenas. A festa estava grande. Quando aquele mesmo policial tentaria ligar o radinho para pedir reforço, foi derrubado ferozmente por um dos caras. Se revirou, esmurrou, tentou dar coronhadas, pois as balas tinham sido descarregadas. Sua lentidão acabou com todo o poder de reação.
   Vários outros começaram a atacar os outros policiais concomitantemente, com uma brutalidade sem tamanho. A carnificina ficava a mostra como ossos e membros dos policiais, agora no chão, desfalecidos e sendo devorados pelos canibais. A vizinha, aquela mesma que esperava por um desfecho feliz para ela, viu que os barulhos estavam ainda maiores.
   Quando foi conferir de perto, do alto do segundo andar de sua casa, caiu dura no chão. Era o demônio que estava agora. Bem pertinho dela. Louco para roubar mais uma alma. Ou melhor dizendo, vários demônios. Os vários lombrados estavam agora se espalhando e correndo como doidos pelas ruas. Eles corriam e não cansavam. A essa hora já era 5h e meia da manhã.
   Quem não tinha saído de casa, não saiu. Quem tinha saído, se fodeu. Nunca mais voltou a seu querido lar doce lar. Várias pessoas inocentes ou não, voltando do rolê, indo ao trampo nas paradas. Acostumados a correr atrás de ônibus nas paradas quando o motorista sacaneia e para lá na frente. Na manhã, a correria e o desespero ganharam outro nome.
   Deparando-se com um exército de homens e mulheres vindos como nunca em sua direção, os passageiros começaram a correr desesperados, temerosos. Apenas 2 pessoas ficaram na parada. Um homem bem gordo, barbudo e com cara de poucos amigos. O outro era um cara que tinha jeito de ser dos corres, também com uma cara de poucos amigos.
   Ambos aceitaram desafiar o medo. O medo não os ameaçou até o momento que a infantaria começou o ataque. Correram como raio e atacaram suas presas. Os dois gritavam desesperados, implorando socorro, clemência. Acabaram trucidados e todos mordidos.
   Enquanto isso, outra galera começou a se espalhar pelas ruas. Os vizinhos da casa tentavam desesperadamente ligar para a polícia enquanto isso. Muitos acordaram assustados com o intenso barulho que fazia. Isso quando não viam pela janela. Reforços de polícia foram mandados para a região. Umas 4 viaturas. Chegaram bem equipados, mas mais uma vez tiveram dificuldade com os degustadores de cloud nine. Parecia um exército.
   Tanta munição para matar esses seres imaginários. Ás vezes, nem um tiro na cabeça funcionava para assassinar. Ao término da tentativa de ação, 4 policiais morreram tentando controlar a caótica situação, vendo uma legião de zumbis vivos os atacando. Os outros, pressentindo a munição acabando e poucos ali estavam realmente mortos, não sabiam mais o que fazer.
 – São seres humanos???
   Um dos policiais falava, enquanto, ofegante, corria rumo à viatura com um companheiro de farda, a fim de escapar do presente martírio. Com certeza tinham visto muita merda, muita coisa esquisita naqueles anos de praça. Jamais imaginariam um dia dar tiro em pessoas e não conseguirem matar. Jamais poderiam imaginar que seres humanos teriam tal resistência.
   Enquanto isso, no Pistão Norte as coisas se complicavam cada vez mais. Os lombrados se espalhavam como formiga e bactérias pelas calçadas e pelo longo asfalto que liga Taguatinga do Lado Norte, Centro e Sul. O ataque dos zumbis foi letal. Enquanto eles corriam como doidos pela pista, boa parte dos carros conseguiram, por um triz, desviar o trajeto. 2 carros não tiveram a mesma sorte. Bateram violentamente contra alguns deles. O astra e o palio ficaram todos fodidos. Muito provavelmente os motoristas sofreram sérias lesões. Enquanto isso, os mortos-vivos aparentavam mortos, realmente.
   Foi quando que, num passe de mágica, surpreendente, mesmo gravemente acidentados, se levantaram e andaram com dificuldades. Seu rosto queria vingança. Teu semblante queria guerra contra quem é que fosse. Iam se espalhando às centenas por todos os rincões de Taguatinga.
   As forças do Estado chegavam aos montes. GTOP, helicópteros policiais, BPCães, Bope, ROTAM, Corpo de Bombeiros, SAMU agora tomavam conta da paisagem no Pistão Sul. Fortemente armada, estava pronta para a guerra. Enquanto isso, os adeptos do cloud nine corriam em devassidão rumo às QNA’s, atacando quem é que vissem pela frente e causando pânico, gritos entre populares.
   Nesse ínterim, a notícia tomava conta da cidade. Eram 6h da manhã. As emissoras, preocupadas com infinidade de chamadas às forças de segurança e servidores da saúde pública, mais preocupada ainda ao saber que tinham já algumas vítimas fatais, pouco sabiam como avisariam a população sobre o ocorrido.
   Caso inimaginável a todos até então. As emissoras de rádio e TV apenas alertavam seriamente para os populares não saírem de casa naquela manhã. A Rede Brasília, por sua vez, cravou essa mensagem em seu canal:

– Interrompemos esta programação para avisar a todos os telespectadores que não saiam de casa neste dia, especialmente os moradores de Taguatinga. Voltaremos em breve a nossa programação com mais detalhes.

 No geral, elas – as comunicadoras – colocavam dessa mesma maneira aos telespectadores, tentando alarmar e movimentar a notícia a qualquer custo, em todas as vias cibernéticas que tivessem acesso. Mas poucas informações sólidas eles davam. Feridos, mortos, quem estava envolvido, o que estava acontecendo. Nem eles mesmo estavam entendendo aquela epidemia. Foi quando que um áudio da TV concorrente, Rede Alvorada, deixou um áudio vazar em meio à transmissão:

– Que merda, cara, como eu vou falar pro meu telespectador que tem gente que tá tomando tiro e não morre?

   A dúvida do apresentador do jornal, um misto de desespero e incerteza, representava toda a classe daquela profissão. Mas estamos no século XXI. A informação e a comunicação se difundiram em grandeza exponencial. Foi-se o tempo em que tais organizações mantinham o monopólio da informação. Muitos já sabiam disso antes mesmo dos avisos pela telinha.
 Já havia imagens que estavam correndo mundo afora via Whatsapp de um camarada que filmou o palco de guerra do Pistão Sul. Um cidadão sob os efeitos da droga do fim do mundo estava correndo na parte do meio, onde tem uma calçada com gramas e árvores, fazendo a transposição entre os dois lados da pista. Após alguns segundos tentando correr, uma mulher bem gorda, vencida pelo cansaço, parou no meio do caminho. O cidadão foi de encontro a ela com toda sua força (e mais um pouco), empurrando-a rumo ao chão. Depois disso, começou a devorá-la como se fosse uma rabada no prato. Comendo a carne e chupando os ossos.
   Com a notícia correndo solta, a cidade de Taguatinga, então movimentada desde os primeiros minutos da manhã, pareciam dormir em um sono letárgico, quase em coma induzido. O Taguaparque, ponto de encontro dos esportistas, jogadores de futebol, basquete. Ponto de encontro dos senhores e senhoras que tentam melhoras vossas qualidades de vida através do esporte, estava vazio.
   Enquanto isso, os ponteiros marcavam quase 7 horas da manhã. O sol já estava pegando fogo na cidade, depois de uma noite marcada pelas altas temperaturas, típicas do mês de setembro. As viaturas de polícia se multiplicavam aos mortes. De longe davam pra se ouvir os pipocos. Disparos de Taurus calibre .40, Bushmaster XM15, SIG SAUER SSG 3000 oriundos da BOPE confundiam-se com as PT100, Carabina 556 e Pump CBC 12.
   A praça de guerra estava montada e espalhada. Muito sangue espalhado. Policiais, bombeiros, médicos, civis – sóbrios ou entorpecidos – se amontoavam no asfalto quente, feridos ou sem vida. Por mais que não tivessem armas, não se sabe como, mas os canas ficavam de cara como uma pessoa sem colete, sem capacete, sem porra nenhuma conseguia tomar 20 tiros e ainda ficar de pé, conseguindo até mesmo atacar outras pessoas antes de morrer.
   Logo as forças do exército também foram chamadas ao local para ajudar no controle. Nisto os ponteiros batiam 8 horas pela manhã. Os monstrinhos estavam cada vez menores em número e em resistência. As centenas de loucos já se reduzira a dezenas. Além do mais, os encarregados do combate, usando seu treinamento militar, passaram a mirar apenas na testa, local onde eles não sobreviriam às rajadas.

 – Que porra é essa, Silveira? Baixaria do caralho, mermão. 7 anos nessa porra, nunca vi nada igual. - dizia um sargento do exército de nome de guerra Terra.

– Rapaz, né bizu não. - dizia, trêmulo, o sargento Silveira. Mas mesmo com todo o temor, fazia o possível para manter a calma e a tranquilidade. Mesmo sabendo que o sobrenatural não o deixaria calmo.

Poucos segundos depois, um morto-vivo veio à sua direção. Faltou se cagar, com mais medo ainda. Em meio ao perigo, conversou consigo:
– Que desgraça é essa? Vou arregar não, vou arregar não!

Apontou sua MD97 na cabeça daquele jovem, aparentando ter no máximo uns 20 anos. Pesou o coração, pesou a consciência. Mas a necessidade falou mais alto.

 – Pow, pow, pow, pow.

O barulho abafado do fuzil, ecoando e dispersando, foi ouvido 4 vezes. 4 balas certeiras na cara do jovem, que caiu imóvel ao chão, com a face toda estraçalhada. Mais um corpo no chão.

 – Aleluia! Obrigado, Senhor! - disse o soldado, respirando aliviado. Botou a mão no seu pescoço e tirou de lá um escapulário, fiel companheiro das horas boas e más de Silveira.

   Depois de mais minutos de combate intensificado, a situação se acalmava um pouco mais. Às 8 h e meia, finalmente, caía o último entorpecido, após um descarregamento – 30 balas – de uma outra MD97 no corpo de uma moça. Moça bonita, jovem, que poderia ter um fim muito menos trágico do que a que teve naquele fatídico 16 de setembro.
   Aos poucos, as ruas ganhavam um pouco mais vida. Legiões de ambulâncias, bombeiros e legistas chegavam com pressa ao local, por vezes quase se acidentando em meio ao caminho. Os tiros agora eram somente preventivos ou tiros para comemorar a vitória das corporações sobre aqueles desarmados e perigosos seres.
   Demorou muito para que os legistas fizessem trabalho com tantos corpos. Contados os mortos ao total, eram 142 pessoas que tinham morrido vítimas de armas de fogo. Portanto, seriam essas, de acordo com os dados oficiais, que tinham consumido a droga. Outros 13 policiais faleceram durante a operação, 2 bombeiros, 3 socorristas e dezenas de corpos de civis, com seus membros, cabeças, ossos e órgãos dilacerados por todos os cantos.
   Após restabelecer a “paz” e a “ordem”, o GDF, em conjunto com a União e a ANVISA, anunciou medidas drásticas de prevenção e segurança. Logo na outra semana foi votada no Congresso uma lei, proposta em urgência, que dizia logo em seu segundo artigo:

 – Qualquer cidadão em que no momento da abordagem policial estiver portando a substância conhecida como cloud nine será conduzida ao distrito policial mais próximo, podendo, agora, ter pena de 2 a 5 anos de prisão em regime fechado.

   O cerco se fechou contra quem traficava e quem usava. Um Estado de Sítio se levantou durante alguns dias pelo Distrito Federal. Mandatos de buscas e apreensões foram aplicados aos montes, até mesmo em quem não tinha nada a ver com isso. Antigos presidiários, traficantes, moradores de rua foram perseguidos pelas forças policiais e forjados com substâncias que pareciam a tal da droga do fim dos tempos e encaminhadas a presença do delegado mais próximo, como dizia a lei.
   Demorou muito para que a cidade se levantasse daquele trauma tão grande. O comércio e as atividades normais continuaram paralisadas durante alguns dias, tais quais muitos dos serviços públicos. As mídias de Norte a Sul, do Polo Norte a Antártida não falavam de outra coisa se não dos tristes ocorridos na terra da ave branca. A casa onde teve a festa ficou isolada durante semanas para averiguação pericial e coleta de provas.   Até agora não sabem quem realmente financiou a droga ao povo da festa, nem como chegou até lá.
Para as famílias e amigos, aquele 16 de setembro seria eternamente lembrado. Apesar de todos os esforços, de todas as rezas, de todas as tentativas de silenciamento da memória, não foram apenas as pessoas próximas dos vitimados que sofreram as consequências. Taguatinga e o Distrito Federal, apesar dos esforços, nunca mais teriam a mesma vívida energia de antigamente.
Matheus de Andrade
Enviado por Matheus de Andrade em 13/08/2017
Reeditado em 13/08/2017
Código do texto: T6082526
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Matheus de Andrade
Taguatinga - Distrito Federal - Brasil, 23 anos
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Matheus de Andrade