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Quando o Vento Sopra

Fui na contramão da ventania, que bagunçava toda a poeira do caminho, e a arrumava bem dentro dos meus olhos. Um mundo de areia que desmoronou só para embaçar meu olhar. Quilos e quilos de areias na minha visão. Pensei ver rodamoinhos de folhas mortas e lixo voando pela rua, além de gente passando para lá e para cá, todo mundo meio automatizado. A pressa era lei, e eu continuei devagar, em desfavor do vento. Na vida eu levei uns três ou quatro tombos e muitos tropeços, mas caí mesmo foi nas garras deles quando me esbarrei com ele aquele dia. Uns segundos que nos fitamos pareceu parar o mundo. Era só nós dois. Os seus olhos tão serenos encontraram os meus tão vermelhos. Foi aí que eu disse alto: Droga! E ele logo deve ter pensado que tinha cruzado com um drogado. Meus olhos vermelhos me denunciavam. Então, fingi que chorava... e foi o melhor que eu poderia ter pensado naquele momento. Inventei soluços e uma história de desilusão em questão de segundos. Eu tinha sido abandonado por estar fora do peso, e ele logo se compadeceu. Vendo que surtia efeito a minha trama, fortaleci o personagem e peguei um chocolate na mochila. Comi-o vorazmente. E ele ouvia a tudo atentamente. Não fazia nem 10 minutos e eu já estava apaixonado. Eu não sabia mais o que dizer... “O outro disse que me amava. Dormimos de conchinha ontem à noite. Eu viajei 5 horas para ir vê-lo. Mas são todos iguais”. A essa altura já não havia mais ciscos em meus olhos nem o que inventar, e eu já estava passando por louco. Sua atenção foi um prato cheio para minha sede de carinho, vulgo carência. Pulei no pescoço dele e lhe tasquei um beijo. Era como se eu nos olhasse de fora, um beijo sem jeito, nós dois de olhos abertos e as bocas meio desencaixadas, mas... foi o melhor beijo da minha vida! Achei que ia me empurrar ou se desvencilhar, mas sorri por dentro quando me puxou para si e me tascou mais um beijo. Eu devia estar vendo coisas, sonhando, enlouquecendo. Encontrei o meu louco, eu que antes ia sempre na direção do vento. Dessa vez foi tudo ao contrário, e tudo deu certo! Tão poético...
Acordei. Tudo não passou de um sonho, pensei. Eu devia mesmo ter exagerado no baseado. Mentira, eu não fumo nem cigarro. Estava eu largado de novo. Mais uma manhã de um domingo e eu ali de cueca, a pança caída sobre a cueca e os cabelos despenteados. Aguardando o tédio do resto do dia. Mas que sonho maravilhoso, divertido, romântico. A psicanálise deve ter teorias sobre isso. Nos meus olhos não era areia nem algo do tipo; estavam mesmo era cheio de remela. Fui ao banheiro, mijei, lavei o rosto e me olhei no espelho: “Cara, você é um viado muito feio!” Rosnei para mim mesmo. Escovei os dentes, penteei o cabelo e fiz a barba: agora me olhei, e disse: “Cara, você é um viado muito lindo!”, e logo respondi baixinho: “Porra nenhuma”. É muita bipolaridade. Eu dialogava com meu reflexo. Estranhei o cheiro forte de café que vinha do vizinho. Sentei na cama, respirei fundo, olhei para o teto e me levantei em um pulo só quando ouvi o barulho de vidro se estilhaçando. Alguém estava na minha cozinha. Peguei a vassoura e fui andando sobre os calcanhares, porque se fosse um ladrão eu mataria a vassourada. Logo me dei conta da leseira que estava fazendo e larguei a vassoura, voltei para procurar algo melhor, mais perigoso. A única coisa que achei foram as lâminas de barbear. Quando cheguei na cozinha e vi aquilo, eu achei que fosse desmaiar. Literalmente, o homem dos meus sonhos me fazendo café. Aquele príncipe só de cueca samba canção. Gente, eu me derreti feito cera quente. Eu dei um ‘bom dia’; e ele me respondeu ‘bom dia, você ronca, hein.’ Ele me pediu uma vassoura e lhe estendi a mão com o aparelho de barbear. Ri e fui buscar a vassoura. E eu não me lembrava de nada. Congelei um sorriso e formulei uma conversa na minha mente “ Lembra, lembra, ontem, você caminhando na ciclovia, a ventania, a areia nos olhos... “ Tão poético... Lembrei! – eu disse em voz alta. “Lembrou do quê?” Ele perguntou. “Que tenho que ir à padaria... para comprar leite.” Mas tem uma caixa de leite bem na sua frente. “Preciso de mais leite, ué. Para os meus gatos...”, “Que gatos? Não vi nenhum”, “Para comprar pão... vou à padaria para comprar pão.” E já fui saindo quando me lembrei que precisa de dinheiro, dei meia volta e peguei as moedas do cinzeiro em cima da mesa, quando ia saindo de novo, ele me lembrou que eu estava apenas de cueca... aí voltei e me vesti. Fui finalmente comprar o bendito pão na padaria da esquina. Aproveitei para organizar a memória. Depois dos beijos, a gente saiu para beber. Depois de beber, a gente saiu para dançar. Estávamos bêbados de alegria. Depois, a gente pegou um táxi e veio aqui para casa. Depois, a gente se pegou gostoso... Gargalhei alto. Não acredito que peguei um cara lindo daqueles. O padeiro se assustou com minha felicidade. É, a felicidade assusta mesmo.
Voltei para casa, quando eu me toquei que eu não lembrava o nome do indivíduo. Ele tem cara de Gustavo, Tiago, Pedro, Gabriel... não lembrava de jeito nenhum. Fui pronunciando algumas sílabas para ver se a memória despertava e nada. Ah, ele, com certeza deveria saber o meu. Eu não posso conviver com um estranho dentro da minha casa. Como eu perguntaria isso a ele? Falamos do tempo, da novela, de comida mexicana, de gatos, de música. E eu sempre me judiando internamente para lembrar o nome dele. Ele, então, se levanta retirando a mesa e me pergunta: Como você se chama mesmo? Até relaxei os ombros. Ele não sabia o meu nome. Meu mundo desabou. E ele pergunta assim, na cara de pau. Fiquei sentido, então dei um nome falso: Geraldo. Não poderia ter inventado nome pior. Eu poderia perguntar logo o dele, mas diferente da noite que tivemos, dessa vez eu ficaria por cima. Eu estava disposto a descobrir o nome dele. Enquanto ele lavava as xícaras e pratos, eu peguei o celular dele em cima da mesa. Aquela merda tinha senha. Olhei através da luz para ver a marca de digitais no vidro... então arrisquei uma. Errei. Duas. Errei de novo. Se eu errasse a terceira eu ia bloquear aquela merda. E dito e feito. Errei de novo. Bloqueou por cinco minutos o aparelho. E ele vinha na minha direção... eu precisava distrair ele por cinco minutos. Peguei-o pela mão e o arrastei para o quarto, quis mostrar meus livros a ele. Ele disse que não gostava de ler, pois ler dava sono. Tentei mostrar minhas orquídeas a ele, e ele disse que não gostava de flor, que eram coisa de defunto. Então, tentei falar dos meus gatos, que ele disse que adorava. O problema é que eu não tinha gatos. Quatro minutos. Faltava apenas um minuto. Então comecei a chamar um gato inexistente. Pedi para ele me ajudar. Comecei a fingir um desespero porque o Bruno sumiu. Quando eu disse que o nome do gato era Bruno, ele sorriu e disse: “Cara, não acredito que seu gato tem o meu nome”. Porra, que sorte, eu pensei. “Pois é, Bruno é nome de gatos, né!? Daqui a pouco ele aparece, deve ter ido atrás de alguma gata...” 5 minutos se passaram. Ufa!
Finalmente relaxei depois de tanta tensão e me joguei no sofá. Eu de olhos fechados ouvi alguém chamar Geraldo uma porção de vezes. Logo senti uma presença na minha frente, abri um olho só; esqueci que era eu o Geraldo. Bruno me apontava o celular e me perguntava o que era aquilo. Eu respondi “um celular”. Só quando vi as fotos monstruosas que o celular tirou de mim eu me dei conta, a cada tentativa ele me fotograva. “Você apaga isso, pelo amor de Deus. Estou horrível!”. Ele se vestiu  rapidamente e disse “Tchau”. Tentei explicar para ele o que tinha acontecido, mas ele não deu trela e me chamou de louco. Falei que era porque não sabia o nome dele. “Como você esquece o nome do seu gato?” Porra, que azar! E agora eu dizia ou não que não tinha gato? Então, eu disse toda a verdade, e disse que era tudo uma terrível coincidência. Quando ele abriu a porta: um gato! Puta que pariu! Ele pegou o gato e colocou no meu colo: “Mais uma coincidência, Geraldo?” Comecei a espirrar feito um louco. Eu era alérgico a gatos. E os homens alérgico a mim. “Meu nome é Rodrigo, eu respondi”. Ele virou os olhos e se foi... Mais um homem dos meus sonhos que virou um pesadelo... o jeito seria passar o resto domingo deitado, engordando e vendo tv. O vento bateu a porta que eu tinha esquecido aberta. Levei um susto. Era aquele maldito vento rindo de mim.
Rodrigo Amoreira
Enviado por Rodrigo Amoreira em 11/01/2017
Código do texto: T5879278
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rodrigo Amoreira
Resende - Rio de Janeiro - Brasil, 25 anos
53 textos (1656 leituras)
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Rodrigo Amoreira