Noturna

Quando foi que permitiu-se chegar a tal estado de lassidão? Em alguma entrelinha dos dias, desconhecia o momento exato, ela tinha abandonado o mundo e a sua beleza. Não de súbito, as coisas fatais não ocorrem de repente, são precedidas pela junção de outros causos fatais, estes de dimensão minúscula... De toda forma, o resultado era aquele. Sem dar-se conta, tornou-se vítima do lasso. Adiava a vida, levantava-se e ia beber água, gelar a garganta. Depois, prometia, começaria. Retornava, sentava-se, mudava de ideia quanto a começar e, sem real necessidade, levantava-se para ir tomar outro gole d’água. Depois, tomaria banho, só depois começaria.

Um dia, alguém falou-lhe sobre estrelas cadentes, disse-lhe que nada tinham de estrelas, eram resquícios de meteoros que chegavam luminosos até nós. Desatou a rememorar a noite que havia começado um de seus começos já largados... abriu a janela, colocou pela primeira vez Nocturne de Chopin, olhou as estrelas, as verdadeiras, os seus feixes de luz sem padrão, roxos e azuis. Pensou, aquelas luzes viajaram por milhões de anos e só agora chegaram ao seu destino, por tão perfeito que era o instante. Poderiam apagar-se logo em seguida, existiram unicamente parar pertencer àquilo.

Chorou, pela beleza e sobretudo pelo efeito da canção. Aquela noite não se resumia ao céu, tampouco em seu choro ou a música. As coisas tantas casavam-se e misturavam-se a ponto de se tornarem indistinguíveis e impossíveis de serem seccionadas longe uma das outras. Era tudo tão acabado. Espectadora única da perfeição, viu ela sua gestação, seu início e tão logo, quando a canção terminasse, presenciaria ao seu fim. Olhou mais fundo para o preto do céu, nos espaços entre as estrelas, onde nada parecia existir, e uma luz fraca brotara para lembra-la da imensidão do desconhecido. Detalhes escondidos surgiam, contidos na perfeição sem se preocuparem de serem percebidos. Depois, a aniquilação. Havia aquilo tudo começado para prolongar-se na existência e morrer num instante aos olhos dela. Foi-se e ela própria jamais começaria. Ela já estava começada, inacabada. No presente, fechou os olhos e forçou lembrar-se da canção, querendo adivinhar a posição exata das estrelas no céu daquela noite. Estava tudo acabado. Extinguiu-se no mundo e em suas lembranças.

A pergunta, então, era-lhe outra. Quando foi que permitiu-se ser começada?