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XXX,2017

Então,

como deveria começar essa carta? Deveria dizer que estou escrevendo para você há dias, semanas, meses e não recebo resposta alguma? Quando foi que deixou de se importar? Qual momento exato que me relegou ao abandono completo?

Não, Brigit, não vou começar mais uma vez tentando entender o seu sumiço ou te cobrando por todos dias e noites de tormenta e exaustão. Abandonada às traças sinto cada pedaço da minha mente ser devorada pelo vazio. Lembra que certa vez conversamos muito sobre caos, vazios, buracos negros? Era novembro, mas não este novembro, faz 1 ano agora desde que te vi pela última vez. Desde que suas mãos tocaram meus cabelos trazendo paz, e mais que isso, me enchendo de ideias. As velhas ideias, as que salvavam-nos.

Eu não lembro o que me disse antes de sair pela porta, talvez nem tenha dito nada e eu tenha floreado sua partida para parecer menos cruel, menos arrebatadora. Não chorei, porque como sabe, não choro mais... perdi um pouco essa habilidade de desaguar. Estou seca demais para isso, você sabia e ainda assim me negou a seiva necessária para que pudesse voltar a florescer. Da minha cabeça não brota mais nada além do tédio solitário de uma viciada em palavras-cruzadas e filmes antigos. 

Há madrugadas, quando o frio invade a casa toda mesmo com as janelas fechadas, que considero a hipótese de saltar da janela, uma força me puxa e uma voz me chama para estourar a cabeça no aslfato. Fico tentada, o rosto olhando para baixo, a brisa suave beijando minhas bochecas, mas saltar não iria terminar com essa dor, além do mais, não resta nada para explodir aqui dentro. Tenho medo de não morrer e continuar de olhos abertos, toda quebrada e ter a certeza que não resta mais nada para morrer. Ou, que a morte não seja tão redentora quanto faço parecer em meus sonhos, histórias... ilusões.

Quando volto para a cama, continuo me perguntando: onde você foi, Brigit? Será que um dia voltará quando eu menos esperar? Porque esperar é exaustivo, te envelhce e incapacita. Por que eu te perdi? Será que não deixei claro que era a única que ainda me ligava ao mundo, a esse mundo lá fora de congestionamentos, relações interpessoais, bebedeiras e falsas esperanças? Ah Brigit, eu continuo falando com você e só escuto o eco da minha própria voz, você se calou e temo que não fale nunca mais.

Nunca mais é um tempo muito longo, não estou disposta a continuar te esperando. O que devo fazer, então? Conformar? Aceitar o fato de que te perdi para sempre, outro tempo longo e inconcluso, detestável "para sempre". Tão abstrato, tão irrevogavelmente mortífero. Nada é para sempre e o nunca mais tem prazo de validade. Quem estamos tentando enganar? Eu a perdi em algum lugar da minha vida antiga, assim como perdi meu próprio rosto, o Eu esmagado e esfarelado junto com os pães mofados que como sem vontade.

Brigit, temo que quando volte encontre a casa abandonada, meu corpo inerte ainda respirando, mas sem força nenhuma para levantar e continuar, pior do que o corpo, a mente em completo estado de apatia, ressacada, um cérebro sem vontade de trabalhar.

Brigit, para onde você foi? O que fez durante todo esse tempo? Será que um dia voltarei a escrever para você? Creio que não, estou sendo drenada, toda minha capacidade criativa desapareceu no minuto que você me deixou... Brigit, em outros tempos ovacionavam-na como "inspiração", você era a única que podia continuar fazendo meu coração pulsar e meus dedos se moverem criando algo ao qual eu podia me agarrar. 

Agora, a queda é livre, contínua, e o para sempre nunca pareceu tanto um nunca mais. 

 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/11/2017
Reeditado em 16/11/2017
Código do texto: T6169970
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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