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Dona Loivaci, a Banca do Povo

Desde setembro de 1975 a avenida 1º de Maio, no centro de Charqueadas, era o endereço da Banca do Povo. No início, consistia numa peça de madeira no local onde hoje está a agência do Bradesco, ao lado da praça.

Em 1976 passou para o local onde permaneceu por mais de 40 anos, o número 565, do outro lado da avenida, numa pequena edificação de alvenaria no terreno nos fundos do Clube Tiradentes, cedida pelo então presidente Lorival Vieira.

Durante todo esse período esteve a frente da banca, atendendo e gerenciando o negócio, a senhora Maria Loivaci de Lima. Nascida em agosto de 1937, viúva de Nelson "Patinho" e mãe de cinco filhos, dois homens e três mulheres, Loivaci trabalhou por 65 anos na atividade comercial, até junho do ano passado, quando teve de se afastar por motivos de saúde, deixando provisoriamente a filha Nedi em seu lugar.

Dona Loivaci começou a trabalhar aos 13 anos num estabelecimento misto de armazém e loja, de propriedade da senhora Claudina Andrioti, em Charqueadas. Já casada, teve armazéns em São Leopoldo e Canoas, antes de voltar para a cidade e abrir o Armazém Tricolor, na rua Ricardo Louzada (aliás, gremista apaixonada, foi na inauguração do Estádio Olímpico, em 1954). A partir de 1961 passou a ajudar o marido no controle de assinaturas e vendas dos jornais Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Manhã e Folha da Tarde, dos quais o senhor Nelson era representante.

No início da Banca do Povo, ela ia a Porto Alegre buscar revistas toda sexta-feira. Em seguida contatou um distribuidor de Montenegro e, após um tempo, um de Santa Cruz do Sul, que a acompanhou pelas décadas seguintes. "Nunca foi pelo dinheiro, mas sim pelo conhecimento, pelo papo com as pessoas", revela acerca da motivação pelos 65 anos de serviço e 41 de banca. Por tal motivo, mesmo aposentada desde 1998, só parou de trabalhar agora que sua saúde não mais permite.

Possuía clientes oriundos de todos os municípios da Região Carbonífera. Alguns passaram de pai para filho, outros mudavam de cidade mas continuavam comparecendo à banca. Havia aqueles que vinham uma vez por mês buscar suas revistas, periódicos que eram o carro chefe de vendas, principalmente as de horóscopo, novelas e cruzadinhas, juntamente com gibis de super heróis e com cerca de quarenta exemplares do Diário Gaúcho, todos os dias. Nos anos 1970, a edição de domingo do Correio do Povo vendia cerca de cinquenta jornais.

De negativo, recorda de quatro arrombamentos, dois alagamentos e alguns pequenos furtos. Nada que arrefecesse sua dedicação ao trabalho que tanto gostava e do qual, ressalta, sente muita falta. Entretanto, saudade maior é a dos clientes por ela, agora órfãos da figura gentil e agradável atrás do balcão da Banca do Povo. Dona Loivaci era a banca! Eram indissociáveis sua figura e a do seu comércio. Deixa uma lacuna na vida cultural de Charqueadas, eis que, dia 17 de dezembro passado, o estabelecimento, único do tipo a cidade, encerrou atividades, como mostra a foto nesta coluna.

Fica a boa lembrança de muitas pessoas, entre elas esse que vos escreve, que buscaram, por décadas, entretenimento e informação no prazer da leitura na banca de dona Loivaci.


Artigo publicado nas versões impressa e online do jornal Portal de Notíciashttp://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 11/01/2017
Reeditado em 19/01/2017
Código do texto: T5879220
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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João Adolfo Guerreiro

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