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Matiz desbotada
Publicado por: Larissa Prado
Data: 11/04/2017
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:

Prosa poética, "Matiz desbotada" por Larissa Prado.
Narração: Leandro Aguilar

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
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Texto

Matiz desbotada

É que eu acho que ela está cega para as cores. Daltonismo, algo que a faça enxergar nuances entre o cinza e o preto, um pouco de branco de vez em quando, mas que nem chega perto de garantir a presença de outros tipos de cores. É, eu acho mesmo que ela amanheceu cega hoje, você entrega flores e ela as ignora, mostra a paisagem pela janela e não consegue focar os olhos, fica assim suspensa em uma contemplação sorumbática dos poucos raios de sol que entram pela janela. 

Lembro que aos treze ela vivia em um frescor de lírios, coletava todos e adorava criar arranjos para as tias e avós e todas pessoas que nos visitavam. Com o tempo foi perdendo o gosto pelas cores, você nota que ela até tenta se interessar por gerânios quando os trazemos, mas não há força na sua vontade de empenhar-se. Creio que desistiu de algo que nos escape o entendimento. Todo dia acorda e vira o rosto fitando a paisagem na janela que se desbota em acordo com sua pele amarelada. Ela sempre foi uma garota muito bonita, mas agora está velha e inútil.

Colocamos as sinfonias no quarto todo fim de tarde para lhe dar algum ânimo no espírito, mas parece que as melodias também acabaram perdendo as cores. Um dia nós gostamos de sua companhia sempre alegre e disposta ao bem, agora ela não passa de mais uma almofada disforme no meio das mantas, é um bicho prestes a morrer mantido assim cercado de cuidados só na nossa esperança do suspiro final.

O que nos incomoda, de fato, é que ela ainda assim persiste em se ajeitar toda manhã nos travesseiros, mesmo que seus ossos reclamem e sua alegria tenha minguado, ela insiste em procurar lá fora algum indício de misturas de cores, mesmo se tornando cega. Quão cega uma pessoa pode ser à própria cegueira? É triste, é um ultraje conviver com ela nesse estado. Dá vontade de lhe entregar uma  xícara de café com potente veneno, fazê-la desistir de vez, mas desistência é uma coisa tão particular. Cada um escolhe a melhor maneira de fazer. Se ela optou por se desbotar dia após dia como uma paisagem invernal, matiz desbotada sem qualquer tipo de variação de cores vibrantes, não podemos fazer nada além de assistir com pressa, porque nosso mundo é tão intenso e tão mágico que passarinhos sem asas nos consomem muito espaço e paciência. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/03/2017
Reeditado em 14/03/2017
Código do texto: T5940975
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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Larissa Prado

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