SÉRIE "SELEÇÕES DA REVISTA ESPÍRITA"

SUMÁRIO
 
 
Apresentação

Informações sobre a 
Revista Espírita, criada por Allan Kardec em 1858, podem ser encontradas na pesquisa A REVISTA ESPÍRITA DE ALLAN KARDEC, disponível aqui.

Esta Série
SELEÇÕES DA REVISTA ESPÍRITA baseia-se no trabalho acima e tem por objetivo relembrar textos, instruções e episódios marcantes do Espiritismo publicados na Revista Espírita, nos 12 anos —  1858 a 1869 — em que Allan Kardec a redigiu pessoalmente.

ÍNDICE DOS TEXTOS
 
Os amigos desastrados

Mieux vaut un ennemi avoué qu'un ami maladroit. (*)

Allan Kardec, Revue Spirite, mars de 1863

É um fato comprovado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que absolutamente não o compreendem, e mesmo por seus inimigos declarados.

Allan Kardec, Revista Espírita, novembro de 1864

O ditado francês acima transcrito (Melhor um inimigo declarado que um amigo inábil) foi utilizado por Allan Kardec quando em março de 1863 escreveu para a Revista Espírita um artigo intitulado Falsos irmãos e amigos inábeis (Les faux frères et les amis maladroits), que contém advertências atualíssimas para nós do Movimento Espírita.

De fato, no referido artigo, Kardec, tratando da marcha do Espiritismo, diz que nada a poderá deter, porquanto ela está nos desígnios divinos. Contudo, repara que "se nada pode parar a marcha geral, há circunstâncias que podem determinar entraves parciais", e diz que entre essas circunstâncias estão

os movimentos inconsiderados de certos adeptos mais zelosos que prudentes, que não calculam bem o alcance de seus atos ou de suas palavras. Assim, produzem sobre as pessoas não iniciadas na doutrina uma impressão desfavorável, muito mais própria a afastá-las que as diatribes dos adversários.

Sem dúvida, o Espiritismo está muito difundido, mas estaria ainda mais se todos os adeptos tivessem sempre escutado os conselhos da prudência e guardado uma sábia reserva. Sem dúvida é preciso levar-lhes em conta a intenção, mas é certo que mais de um tem justificado o provérbio: “Melhor um inimigo declarado que um amigo inepto.”

O pior disto é fornecer armas aos adversários, que sabem explorar habilmente uma falha. Nunca seria demais recomendar aos espíritas refletir maduramente antes de agir. Em tais casos manda a prudência não se bastar à opinião pessoal. Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada mais simples que se reunir antes de agir. Não tendo em vista senão o bem da causa, o verdadeiro espírita sabe fazer abnegação do amor próprio. Crer em sua infalibilidade, recusar o conselho da maioria e persistir num caminho que se revela mau e comprometedor, não é atitude do verdadeiro espírita. Seria dar prova de orgulho, senão de obsessão. (Grifamos.) [3]

E, a seguir, o mestre redige um parágrafo primoroso, como se tivesse em mira alguns autores e editoras espíritas do nosso Brasil:
 
Entre as inabilidades colocam-se em primeira linha as publicações intempestivas ou excêntricas, por serem fatos de maior repercussão. Nenhum espírita ignora que os Espíritos estão longe de possuir a ciência suprema, pois muitos dentre eles sabem menos que certos homens e também, como certos homens, têm a pretensão de saber tudo. Sobre todas as coisas têm sua opinião pessoal, que pode estar certa ou errada. Ora, ainda como os homens, os que têm ideias mais falsas são os mais cabeçudos. Esses falsos sábios falam de tudo, armam sistemas, criam utopias ou ditam as coisas mais excêntricas e sentem-se felizes quando encontram intérpretes complacentes e crédulos que aceitam as suas elucubrações de olhos fechados. Tais publicações têm inconvenientes muito graves, porque o próprio médium, enganado, seduzido muitas vezes por um nome apócrifo, as dá como coisas sérias das quais a crítica se apodera para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presunção, bastaria ter-se aconselhado com os colegas para ser esclarecido. É muito raro que, neste caso, o médium não ceda às injunções de um Espírito que, ainda como certos homens, quer ser publicado a qualquer preço. Com mais experiência ele saberia que os Espíritos verdadeiramente superiores aconselham, mas nem se impõem nem adulam jamais e que toda prescrição imperiosa é um sinal suspeito. (O destaque não é do original.) [3]

Ainda em 1863, na Revista Espírita do mês de maio, Kardec, tratando das comunicações mediúnicas que eram enviadas à Sociedade de Paris, volta a tocar na qualidade das mensagens e manuscritos de maior fôlego, reafirmando pontos tais como estes:
 
(Entre as mensagens recebidas) ...encontramos algumas claramente más, no fundo e na forma, evidente produto de Espíritos ignorantes, obsessores ou mistificadores e que juram pelos nomes mais ou menos pomposos de que se revestem; publicá-las teria sido dar armas fundamentadas à crítica. Uma circunstância digna de nota é que a quase totalidade das comunicações dessa categoria emana de indivíduos isolados e não de grupos. Só a fascinação poderia levá-las a ser tomados a sério, e impedir se visse o lado ridículo. Como se sabe, o isolamento favorece a fascinação, ao passo que as reuniões encontram um controle na pluralidade de opiniões.
............
O que dizemos não é para desencorajar de fazer publicações, longe disso; mas para mostrar a necessidade de escolha rigorosa, condição sine qua non do sucesso; elevando os seus ensinamentos, os Espíritos nos tornaram mais difíceis e mesmo exigentes. 
............
Para começar, convém descartar tudo quanto, sendo de interesse privado, só interessa a quem isso diz respeito; depois, tudo quanto é vulgar pelo estilo e os pensamentos, ou pueril pelo assunto. Uma coisa pode ser excelente em si mesma e muito boa para servir de instrução pessoal, mas o que deve ser entregue ao público exige condições especiais. Infelizmente o homem é inclinado a supor que tudo o que lhe agrada deve agradar aos outros; o mais hábil pode enganar-se, o essencial é enganar-se o menos possível.
.............
Todas as precauções são poucas para evitar as publicações lamentáveis; em tais casos, mais vale pecar por excesso de prudência, no interesse da causa. (Grifamos.) 
[4]

Note-se que em 1859, no segundo ano de circulação da Revista Espírita, Kardec  já respondera negativamente à questão: Deve-se publicar tudo quanto dizem os Espíritos?

Pois, com efeito, escreveu o Codificador
 
Ao lado (das) comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá algum inconveniente em publicá-las? Se forem divulgadas pelo que valem, haverá apenas um mal menor. Se o forem a título de estudo do gênero, com as devidas precauções e com os comentários e as restrições necessárias, poderão até mesmo ser instrutivas, na medida em que contribuam para se conhecer o mundo espírita em todas as suas nuanças. Com prudência e habilidade, tudo pode ser dito. O mal está em apresentar como sérias, coisas que chocam o bom-senso, a razão ou as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa.

Para começar, tais publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de examiná-las e discernir o verdadeiro e do falso, principalmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem a oportunidade de tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita, porque, diga-se mais uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas notoriamente absurdas. 
..................
Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas, tais publicações não terão mais influência do que hoje teria um livro de heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspecção, porque há comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em escala muito maior que os grosseiros ataques e as injúrias de certos adversários. Se algumas fossem feitas com tal objetivo, não teriam menor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, dando lugar, assim, a uma crítica fundamentada. (O destaque é nosso.) 
[5]
 
Ao final, que fique para nossa reflexão:
 
Se cometemos erros em face das questões acima, claro, o problema é nosso e vamos responder por eles. Mas é certo que nenhum de nós que temos responsabilidade de direção, liderança ou divulgação no âmbito do Movimento Espírita jamais poderemos alegar ignorância acerca dessas instruções marcantes do Codificador.
 

Notas do autor:

a) (*) O vocábulo francês maladroit, utilizado por Kardec no artigo da Revista Espírita de março de 1863, foi assim traduzido para o português: inepto (Júlio de Abreu Filho, EDICEL), inábil (Evandro Noleto, FEB), desajeitado (Salvador Gentile, IDE) e desastrado (Paulo A. Ferreira, AEC). Optamos pela última averbação, que nos pareceu mais adequada ao espírito do texto.
 
b) As transcrições da Revista Espírita são da edição da FEB, na tradução de Evandro Noleto Bezerra.
 
c) As instruções do Codificador que embasaram este artigo constam do livro Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita [1], uma compilação de artigos da Revista Espírita e de Obras Póstumas, contendo orientações e diretrizes ao Movimento Espírita. Tais instruções estão também na obra Conselhos, reflexões e máximas de Allan Kardec [2], coletânea de fragmentos extraídos dos doze primeiros anos da Revista Espírita.

 
Referências

1- KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Brasília, FEB, 2007.
2 - KARDEC, Allan. Conselhos, reflexões e máximas de Allan Kardec - Tradução de Paulo A. Ferreira - Disponível em: www.autoresespiritasclassicos.com

3 - KARDEC, Allan. Falsos irmãos e amigos inábeis. Revista Espírita, março, 1863
4 - KARDEC, Allan. Exame das comunicações mediúnicas que nos são enviadas. Revista Espírita, maio, 1863
5 - KARDEC, Allan. Devemos publicar tudo quanto dizem os Espíritos? Revista Espírita, novembro, 1859.
6 - bibliadocaminho.com/
7 - ipeak.net/site/index.php

Projeto de comunidade espírita (por Allan Kardec)
 

Conheça um curioso projeto de Allan Kardec, de 1862, divulgado na Revue Spirite de 1o. de Janeiro de 1907, e reproduzido pela revista Reformador de fevereiro de 1978págs. 56/58, da FEB.
 
- Veja (aqui)

Fonte: No tempo de Allan Kardec, Sinezio Augusto Griman - E-book, edição do autor

Exame das comunicações mediúnicas que nos são enviadas - Allan Kardec - Revista Espírita - Maio 1863
 

Neste texto, Kardec comenta as milhares de comunicações espíritas que lhe são encaminhadas: a evolução das comunicações espíritas, sua qualidade, a oportunidade da publicação, a seleção do que deve ser publicado, advertindo sobre a imperiosa necessidade de escrupuloso exame necessário para afastar a intromissão de Espíritos presunçosos e pseudo-sábios nas comunicações que se deseja dar publicidade.

Veja  aqui

O estilo das boas comunicações

São sempre reconhecidos em Allan Kardec
 
"A sua lógica, a sua didática, a sua capacidade expositiva e a sua concisão [que] deram aos seus escritos um estilo todo próprio, de uma clareza e facilidade de entendimento ímpar."
 
Pois bem, a mensagem abaixo, dada pelo espírito familiar Barbaret, na SPEE, em 1862, de um lado, diz bem do estilo de Kardec e dos Espíritos superiores, de outro, do estilo inferior dos pseudossábios.

Confira:

O estilo das boas comunicações

Buscai, na palavra, a sobriedade e a concisão; poucas palavras, muita coisa. A linguagem é como a harmonia: quanto mais quisermos torná-la rebuscada, menos melodiosa será. A verdadeira ciência é sempre aquela que toca, não alguns sibaritas cheios de si, mas a massa inteligente que desde muito tempo é desviada do caminho do verdadeiro belo, que é o da simplicidade. A exemplo de seu Mestre, os discípulos do Cristo haviam adquirido esse profundo saber de bem falar, com sobriedade e concisão, e seu discurso, como o do Mestre, era marcado por essa delicadeza, por essa profundeza que em nossos dias, numa época em que tudo mente ao nosso redor, ainda fazem as grandes vozes do Cristo e dos apóstolos, modelos inimitáveis de concisão e de precisão.

Mas a verdade desceu do alto. Como os apóstolos dos primeiros dias da era cristã, os Espíritos superiores vêm ensinar e dirigir. O Livro dos Espíritos é toda uma revolução, porque é conciso e sóbrio: poucas palavras, muita coisa; nada de flores de retórica; nada de imagens, mas apenas pensamentos grandes e fortes, que consolam e fortalecem. É por isso que ele agrada, e agrada porque é facilmente compreendido. Eis o cunho da superioridade dos Espíritos que o ditaram.

Por que há tantas comunicações vindas de Espíritos que se dizem superiores, refertas de insensatez, de frases inchadas e floridas; uma página para nada dizer? Tende certeza de que não são Espíritos superiores, mas pseudossábios, que julgam produzir efeito, substituindo por palavras o vazio das ideias; a profundeza do pensamento pela obscuridade. Eles não podem seduzir senão os cérebros ocos como os seus, que tomam o ouropel pelo ouro puro e julgam a beleza da mulher pelo brilho de seus adereços.

Desconfiai, pois, dos Espíritos verbosos, de linguagem empolada e confusa que exige tratos à bola para compreender. Reconhecei a verdadeira superioridade pelo estilo conciso, claro e inteligível sem esforço de imaginação. Não meçais a importância das comunicações por sua extensão, mas pela soma de ideias que encerram em pequeno espaço. Para ter o tipo da superioridade real, contai as palavras e as ideias - refiro-me às ideias justas, sadias e lógicas - e a comparação vos dará a exata medida.

 
BARBARET (Espírito familiar)
(Sociedade Espírita de Paris, 8 de agosto de 1862 - médium: Sr. Leymarie)
Revista Espírita, out/1862
 

Quem foi Barbaret

(Barbaret - Autobiografia) — Eu vivia ao tempo de Henrique IV. Era muito humilde. Perdido nesta Paris onde tão bem se esquece aquele que se esconde e só busca o estudo, gostava de estar só, ler e comentar à minha maneira. Pobre, trabalhava, e o labor diário me dava essa alegria inefável que se chama liberdade. Copiava livros e fazia essas maravilhosas vinhetas, prodígios de paciência e de saber, que só davam pão e água à minha paciência. Mas eu estudava, amava meu país e buscava a verdade na Ciência. Ocupava-me de História e para a minha França bem-amada eu desejava a liberdade, a realização de todas as aspirações que sonhava na minha humildade. A partir de então estou num mundo melhor e Deus me recompensou a abnegação, dando-me essa tranquilidade de Espírito, em que todas as obsessões do corpo estão ausentes, e sonho pela minha pátria, pelo mundo inteiro, pela nossa Terra, pelo amor e pela liberdade.

Revista Espírita, jul/1862

Referências
 
- www.bibliadocaminho.com (Autobiografia de Barbaret)
- Revista Espírita - julho e outubro de 1862
- Zelo de Allan Kardec pela Forma e Conteúdo dos seus Escritos Espíritas - FEP - aqui

 
ALGuimaraes
Enviado por ALGuimaraes em 20/01/2017
Reeditado em 09/08/2017
Código do texto: T5887332
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