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O enigma na clarividência poética de Carlos Drummond de Andrade:
uma leitura da obra Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade 


A terceira fase da poesia drummondiana, marcada por uma constante reflexão filosófica acerca da vida, tem seu início com a publicação de Claro enigma, em 1951. A preocupação com a poesia como a arte da palavra, que também vigorou nas veias de João Cabral de Melo Neto, em Drummond ganha forma nesta obra. Sua poesia retoma padrões formais da literatura clássica como o uso do decassílabo e alexandrino, sobretudo, nos sonetos, notando-se, assim, referências a escritores clássicos como Dante Alighieri e Camões. A maioria dos poemas se apresenta metrificados. Entretanto, há alguns poemas que aparecem, sim, sem métrica regular, com versos livres e brancos, ao gosto dos primeiros modernistas.

A lírica de Claro enigma é interrogativa, negativa, existencialista, reflexiva, transcendente, mística, diante de um mundo vazio, escrita sob “o signo do não” (Expressão usada por BOSI, 2006, p. 441). A desesperança, o desencanto, o desânimo, a tristeza, o tom niilista são manifestações de um eu que vive num mundo marcado por conflitos e guerras. Diante de um contexto desequilibrado e totalmente fragmentado, o retorno aos versos clássicos e formais pode simbolizar certo anseio implícito à ordem diante do caos. Há buscas pelas essências, o desvendar de aparências de uma realidade possível.

O poeta que fala neste Claro enigma é aquele que foi prenunciado no “Poema de sete faces” de seu primeiro livro, Alguma poesia: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”. O eu que fala nos poemas se apresenta desse lado desconsertado. O primeiro poema já trará a imagem de um eu que aceita a escuridão. Ao longo do livro o conflito entre o eu e o mundo se instaura. Ora se depara com um sujeito poético fechado em si, ora com um eu lírico mundano. A vida provinciana, a família, a história, a memória, o tempo, a viagem, o passado, o amor, a morte se entrecruzam num re-sentir constante. E numa tentativa fusionista, percebe-se a tentativa do poeta em unir o claro e o escuro, o encontro e o desencontro, a aceitação e a negação, bem ao gosto barroco. Imagens insólitas, grotescas e paradoxais confirmam essa aproximação com o Seiscentismo. O belo e o horrível, o rebuscamento da escrita e também do conteúdo lembram muito o cultismo e conceptismo. Affonso Romano de Sant’Anna assim comenta: “A partir de Claro Enigma, significativamente o início da exploração mais sistemática da memória, há um aumento de jogos de palavras, trocadilhos, antíteses, ecos, paradoxos, enfim, toda uma parafernália de “agudeza y ingenio” (SANT’ANNA, 1992, p. 206).

[...]

A obra possui a seguinte epígrafe: Lês événements m’ennuient (P. Valéry). “Os acontecimentos me aborrecem”, verso do francês Paul Valéry, que antecede os poemas de Claro enigma. Como toda epígrafe, ela traz o tom do livro, o norte, que é a recusa, uma poesia intrigante de negações. As palavras de Valéry parecem denotar o sentimento drummondiano em romper com sua poesia engajada, representativa em A rosa do povo e voltar-se para si. Ao usar tal frase, o poeta confessa seu asco perante a história, já que esta é feita de acontecimentos. Porém, pode-se questionar se esse seu enojar/desgostar é contra a história ou da própria história. Ou se é, na verdade, um desabafo para penetrar no mais íntimo do seu ser, para se proteger do caos mundano ou para encontrar uma esperança para a vida.
Affonso Romano de Sant’anna comenta que

 
a epígrafe “les événements m’énnuient” denuncia que o poeta se recolheu a si mesmo para privar do convívio de sua memória numa atitude mais metafísica. E é justamente a partir daí que sua poesia melhor se define como poesia lírica. Emergindo de dentro de si mesmo, não fazendo composições memorialistas, e sim uma memória da memória numa atividade metapoética, que elide definitivamente sujeito e objeto e atinge a intemporalidade do verbo. (SANT’ANNA, 1992, p. 215).

Por conseguinte, mesmo querendo se afastar do mundo, o poeta tem consciência que é um agente do mundo. Logo, sua lavra não é egocêntrica, pois ele transforma o mundo em “o outro”, trazendo uma reflexão complexa de suas experiências vitais, as quais são táteis nos versos deste livro, encobertas, porém, de uma visão desiludida do homem e do tempo. Dessa maneira, “seria um equívoco supor que Drummond de Claro enigma dá as costas à história e à vida terrena: uma e outra estão profundamente entranhadas nos poemas do livro, à espera de leitores que se disponham, por sua vez, a lavrá-los com paciência” (TITAN JR. Samuel. Um poeta do mundo terreno. Posfácio. In: ANDRADE, 2012, p. 124).

Claro Enigma é dedicado a Américo Facó, o qual foi poeta e jornalista cearense que atuou no Rio de Janeiro. Fundou e escreveu em vários periódicos. Cultivou uma poesia lírica, surrealista, parnasiana e modernista. Foi amigo pessoal de Carlos Drummond de Andrade. Em ocasião da publicação do livro Poesia perdida, de Facó, o poeta de Itabira publicou em crônica os seguintes dizeres: “com seu livro belíssimo, Américo Facó se incorpora à linhagem dos mais altos poetas portugueses e brasileiros”. Américo Facó teria lido os manuscritos de Claro Enigma e partilhado com o amigo suas opiniões e sugestões acerca dessa obra.

 
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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 07/05/2017
Reeditado em 07/05/2017
Código do texto: T5992658
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Sobre o autor
Márcio Adriano Moraes
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil, 34 anos
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